Ciencia e Tecnologia

Nasa marca para 6 de março lançamento da missão Artemis 2

A Nasa marca para 6 de março de 2026 o lançamento da Artemis 2, primeiro voo tripulado do programa lunar, a partir do Kennedy Space Center, na Flórida. A missão leva quatro astronautas em um giro em torno da Lua para testar, em voo real, os sistemas que devem permitir o retorno de humanos à superfície lunar nos próximos anos.

Um novo ensaio geral rumo à Lua

O foguete SLS (Space Launch System) volta à contagem regressiva depois de uma sequência de adiamentos. A data inicial, em 8 de fevereiro, cai por terra quando técnicos identificam um vazamento de hidrogênio líquido durante testes de abastecimento. O problema obriga a Nasa a esvaziar tanques, rever conexões e interromper a preparação em plena janela de lançamento.

O impasse se resolve ontem, quando a agência realiza com sucesso o teste que havia falhado no início do mês. O SLS é abastecido de forma completa e estável, sem novos vazamentos. Com o foguete liberado, a equipe fixa o 6 de março como nova tentativa, ainda dentro da janela que se estende até abril, determinada pelo alinhamento orbital da Lua em relação à Terra.

Nos bastidores, a rotina dos quatro tripulantes começa a mudar a partir de hoje. Christina Koch, Victor Glover, Jeremy Hansen e o comandante Reid Wiseman entram em quarentena em instalações isoladas do Kennedy Space Center. A medida reduz o risco de resfriados, gripes ou infecções virais que possam comprometer o voo. Nas próximas semanas, o grupo alterna simulações em tempo real com avaliações médicas diárias.

A Artemis 2 marca o retorno de humanos à vizinhança lunar mais de meio século depois da Apollo 17, em 1972. O plano prevê um voo de cerca de dez dias. A cápsula Orion leva aproximadamente quatro dias para chegar à Lua, faz um grande arco a cerca de 10 mil quilômetros da superfície e então inicia a viagem de volta. Ao final, mergulha na atmosfera terrestre e pousa de paraquedas no Oceano Pacífico.

Por que este voo importa agora

A missão funciona como um grande teste de estrada antes de a Nasa se arriscar novamente em um pouso tripulado. Em 2022, a Artemis 1 voa sem astronautas, avalia o desempenho dos motores e da navegação da Orion e volta à Terra sem danos graves. Agora, com quatro pessoas a bordo, o foco recai sobre sistemas de suporte à vida, comunicação e manobras finas em órbita lunar.

O voo inclui momentos de tensão previstos, como o silêncio temporário quando a cápsula passa atrás da Lua. Nessa fase, a própria massa lunar bloqueia o sinal de rádio com a Terra. A equipe de controle em Houston acompanha tudo por telemetria até a perda de contato e aguarda a reaquisição do sinal minutos depois. O comportamento dos sistemas autônomos da Orion nesse intervalo é um dos pontos críticos do teste.

A escolha da tripulação carrega um componente simbólico. Christina Koch se torna a primeira mulher a viajar para a órbita lunar. Victor Glover é o primeiro astronauta negro nesse tipo de missão. Jeremy Hansen, canadense, representa um parceiro histórico do programa espacial americano. Reid Wiseman assume o comando em um momento que a Nasa descreve como “o início de uma nova era de presença humana além da órbita baixa”. Para a agência, essa diversidade ajuda a legitimar, perante o público, um programa bilionário que disputa espaço no orçamento federal.

Os riscos permanecem altos. O SLS é o foguete mais potente já construído pela Nasa e ainda acumula poucas missões completas. O uso de hidrogênio líquido, eficiente, mas difícil de conter, é um dos pontos sensíveis do projeto. O próprio adiamento por vazamento expõe a fragilidade de selos e conexões em temperaturas criogênicas. A agência aposta que a repetição de testes e a análise detalhada dos dados reduzem a margem de erro a níveis aceitáveis.

Impacto científico, político e econômico

A Artemis 2 não leva módulos para ficar na Lua nem pousa na superfície, mas abre caminho para isso. Os dados coletados em cada fase do voo alimentam o planejamento da Artemis 3, missão que deve, pela primeira vez desde os anos 1970, colocar astronautas no solo lunar. Ainda não há data definida, mas a Nasa condiciona o cronograma ao desempenho do SLS, da Orion e de sistemas de pouso ainda em desenvolvimento com empresas privadas.

O programa Artemis mira mais do que bandeiras fincadas na cratera certa. A estratégia oficial prevê a construção de uma pequena estação em órbita lunar, a Gateway, e, em seguida, bases na superfície em regiões polares, ricas em gelo de água. Esse gelo pode virar água potável, oxigênio respirável e combustível de foguete. Se o plano se confirma, a Lua se transforma em um ponto de apoio para missões mais longas, incluindo viagens tripuladas a Marte nas próximas décadas.

O efeito político da missão também pesa. Ao retomar o protagonismo na exploração tripulada além da órbita baixa, a Nasa tenta reforçar a liderança dos Estados Unidos em um cenário de concorrência crescente. China, Índia e Rússia disputam espaço no entorno lunar com programas próprios. Um voo tripulado bem-sucedido em 2026 sinaliza capacidade tecnológica e poder de coordenação entre governo, indústria e parceiros internacionais.

A indústria aeroespacial embarca nesse movimento. Contratos ligados ao Artemis movimentam bilhões de dólares em fornecedores de foguetes, cápsulas, trajes espaciais, sistemas de comunicação e softwares de navegação. Universidades e centros de pesquisa se beneficiam de bolsas e parcerias que giram em torno da exploração lunar. A expectativa é que o simbolismo da missão atraia estudantes para cursos de ciência, tecnologia e engenharia e ajude a manter vivo o interesse público por grandes projetos de longo prazo.

O que vem depois do voo de teste

Se o lançamento de 6 de março ocorre dentro do planejado e a viagem de dez dias termina com um pouso preciso no Pacífico, a Nasa ganha fôlego político e técnico. A agência pode avançar para a certificação final da Orion para voos de longa duração e ajustar o desenho da Artemis 3 com base nos dados reais de bordo. Qualquer falha relevante, porém, reabre cronogramas e prolonga um programa que já sofre críticas por custo elevado e atraso.

Os próximos meses definem o ritmo dessa corrida silenciosa de longo prazo. O SLS permanece no centro da estratégia americana enquanto concorrentes privados oferecem alternativas mais baratas e reutilizáveis. A Artemis 2, com seus dez dias ao redor da Lua, precisa provar que o caminho escolhido ainda faz sentido. A resposta começa a ser construída no instante em que os motores do foguete acendem na plataforma do Kennedy Space Center.

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