Ciencia e Tecnologia

Nasa marca para 2026 o voo da Artemis II ao redor da Lua

A Nasa mira 6 de fevereiro de 2026 para lançar a Artemis II, primeiro voo tripulado do programa que retoma a exploração lunar. A missão leva quatro astronautas em um giro de cerca de dez dias ao redor da Lua, a bordo da cápsula Orion impulsionada pelo megafoguete SLS.

Missão testa retorno da humanidade à órbita lunar

O lançamento parte do complexo 39B, no Centro Espacial Kennedy, na Flórida, o mesmo solo histórico de missões Apollo e de ônibus espaciais. A Artemis II não pousa na superfície, mas cumpre um papel decisivo: provar, em condições reais, que a Orion e o Space Launch System suportam um voo tripulado até a órbita lunar com segurança.

Durante cerca de dez dias de viagem, a tripulação verifica sistemas de navegação, comunicações, suporte de vida e proteção térmica, além de executar um teste de mira próximo à Terra. Esse ensaio, uma manobra de aproximação e alinhamento ainda em órbita baixa, serve para validar procedimentos que serão usados em futuras acoplagens e correções de trajetória em voos mais longos.

A missão marca a retomada de voos com humanos ao redor da Lua mais de meio século após a Apollo 17, em 1972. Em vez de repetir o roteiro, a Nasa aposta em uma arquitetura voltada à permanência: a Artemis II é a ponte entre testes não tripulados e pousos planejados com infraestrutura de longo prazo, como módulos de superfície e uma estação em órbita lunar.

Desde o sucesso da Artemis I, em 2022, técnicos da agência trabalham em ajustes no escudo térmico, no software de bordo e na integração entre Orion e SLS. A janela que se abre em 6 de fevereiro de 2026 é o resultado desse ciclo de revisões técnicas, que busca reduzir riscos antes de colocar quatro pessoas em um dos voos mais longos já feitos além da órbita baixa da Terra.

Quatro perfis para uma nova era de voos tripulados

A tripulação reúne experiência militar, conhecimento científico e simbolismos políticos. O comando fica com Reid Wiseman, 48, engenheiro de computação de Baltimore, selecionado astronauta em 2009. Ele já passa meses na Estação Espacial Internacional e chefiou o Escritório de Astronautas da Nasa entre 2020 e 2022, período em que o programa Artemis ganha forma.

Ao lado dele está Victor Glover, 48, piloto naval e primeiro negro a se afastar tanto da Terra em um voo espacial. Nascido em Pomona, na Califórnia, ele acumula mais de 3.500 horas em mais de 40 aeronaves, com mais de 400 pousos em porta-aviões e 24 missões de combate. Na Nasa, pilota a Crew-1, primeira missão operacional da SpaceX à Estação Espacial Internacional, e agora assume o posto de piloto da Artemis II.

Christina Koch, 45, completa a espinha dorsal técnica da missão. Engenheira elétrica e física formada na Carolina do Norte, ela detém o recorde de voo único mais longo de uma mulher no espaço: 328 dias consecutivos em órbita, entre as Expedições 59, 60 e 61 da Estação Espacial Internacional. Koch participa também das primeiras caminhadas espaciais feitas apenas por mulheres e agora atua como especialista de missão, responsável por experimentos, checagem de sistemas e apoio às operações críticas.

O quarto assento pertence a Jeremy Hansen, 49, representante da Agência Espacial Canadense. Ele se torna o primeiro canadense em uma missão tripulada rumo à Lua, resultado direto do acordo que envolve a construção de um braço robótico para a futura estação lunar. Oficial da Força Aérea do Canadá, Hansen é formado em Ciências Espaciais e tem mestrado em Física, com pesquisa em rastreamento de satélites. Em 2017, torna-se o primeiro canadense a comandar uma turma de treinamento de astronautas da Nasa.

Os quatro passam por um cronograma intenso de preparação que inclui simulações de emergência, treinamentos de sobrevivência em mar aberto e ensaios de lançamento em tamanho real. Cada etapa busca reduzir ao mínimo a margem de erro em um voo em que qualquer falha pode comprometer a segurança da nave e da tripulação.

Impacto científico, político e econômico da Artemis II

A Artemis II funciona como um laboratório em movimento. Os dados coletados servem para aperfeiçoar sistemas de propulsão, escudos térmicos e tecnologias de suporte de vida que serão reaplicadas em missões futuras, inclusive a Marte. Os testes em órbita lunar expõem a Orion a níveis de radiação e variações de temperatura mais severos que os da órbita baixa, condição essencial para validar sensores e materiais.

No plano político, a composição da tripulação reforça a mensagem de diversidade e cooperação internacional. A presença de Glover e Koch simboliza um esforço da Nasa para ampliar representatividade em missões de alto perfil. A participação de Hansen consolida o papel do Canadá como parceiro-chave, ao lado de Europa, Japão e outros signatários dos acordos Artemis.

O programa movimenta bilhões de dólares em contratos com gigantes da indústria aeroespacial e com startups que desenvolvem desde software até novos materiais. Empresas ligadas a foguetes, sistemas de navegação, trajes espaciais e módulos lunares disputam fatias de um mercado que se projeta para as próximas décadas. Universidades e centros de pesquisa também se beneficiam, com novos projetos e bolsas em áreas como física espacial, medicina aeroespacial e robótica.

O retorno mais visível, porém, se dá na opinião pública. A Nasa aposta que imagens de quatro pessoas contornando a Lua em 2026 reacendem o interesse por ciência em uma geração habituada a ver o espaço apenas por telescópios virtuais e filmes de ficção. O sucesso da Artemis II tende a fortalecer a posição da agência em debates sobre orçamento no Congresso americano e a influenciar políticas espaciais de outros países, inclusive o Brasil.

O que vem depois do voo ao redor da Lua

Se a Artemis II cumpre o roteiro sem incidentes, a Nasa avança para a Artemis III, missão que pretende levar novamente humanos ao solo lunar ainda nesta década. Esses pousos inauguram uma fase de presença mais constante, com módulos habitáveis, veículos de exploração e uso de recursos locais, como gelo para produção de água e combustível.

Os próximos anos trazem também desafios. O SLS é um dos foguetes mais caros já construídos, e pressões por alternativas reutilizáveis crescem na própria indústria. A agenda política nos Estados Unidos, sujeta a mudanças de governo e de prioridades orçamentárias, pode interferir no ritmo das missões. A Artemis II, marcada para 2026, se torna um teste não apenas de tecnologia, mas de fôlego financeiro e vontade política para sustentar um programa de longo prazo.

Enquanto a contagem regressiva ainda está a meses de começar, engenheiros, gestores e astronautas ajustam cada detalhe de um voo que pretende recolocar a Lua no centro do mapa espacial. A resposta sobre até onde essa nova corrida chega, e se ela de fato abrirá o caminho para Marte, começa a ser escrita quando a Artemis II deixar a plataforma 39B e desaparecer no céu da Flórida.

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