Ciencia e Tecnologia

Nasa marca 6 de março para relançar voos tripulados rumo à Lua

A Nasa mira 6 de março de 2026 para lançar a Artemis 2, primeira missão tripulada a se aproximar da Lua em mais de meio século. O voo parte do Centro Espacial Kennedy, na Flórida, com quatro astronautas a bordo.

Depois do ensaio decisivo, a contagem volta a andar

O novo cronograma ganha corpo após o sucesso do chamado “wet dress”, ensaio que simula quase tudo o que acontece no dia da decolagem, menos o próprio lançamento. O teste, concluído na quinta-feira (19), valida a sequência de abastecimento, a contagem regressiva automatizada e o comportamento do foguete SLS carregado com combustível criogênico.

A missão parte da plataforma 39B, em Cabo Canaveral, e abre uma janela inicial de lançamento entre 6 e 11 de março de 2026. Caso o foguete não decole nesse intervalo, a agência trabalha com novas possibilidades na primeira semana de abril e em 30 de abril. Outras datas ao longo do ano estão em estudo, mas ainda não são divulgadas.

A bordo da cápsula Orion, seguem Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen. Eles realizam o primeiro voo humano além da órbita baixa da Terra desde a Apollo 17, em 1972. A viagem dura cerca de dez dias, com uma volta ampla ao redor da Lua antes do retorno ao Pacífico.

A Nasa trata cada etapa com cautela. O programa Artemis pretende devolver astronautas à superfície lunar nos próximos anos e, mais adiante, manter presença contínua no satélite. A Artemis 2 funciona como ensaio geral tripulado desse plano, testando em voo os sistemas da Orion, a performance do SLS e os protocolos de segurança para viagens longas fora da órbita terrestre.

Vazamentos, correções e a pressão por resultados

A preparação não é linear. O primeiro wet dress da Artemis 2, no início do mês, registra um vazamento de hidrogênio líquido acima do limite aceitável. O combustível, altamente volátil, exige controle rigoroso. O problema força o adiamento de um lançamento que, em um cenário otimista, poderia acontecer já em fevereiro.

Engenheiros desmontam a área suspeita e encontram um conjunto de possíveis causas, de umidade excessiva a pequenos arranhões na região da vedação. A equipe troca o selo e refaz todos os testes. No segundo ensaio, a Nasa afirma não detectar vazamentos significativos, condição considerada suficiente para avançar.

O wet dress mais recente vai além de checar tubulações. Técnicos aquecem a seção dos motores do estágio principal até a faixa necessária para o disparo no momento da decolagem. A contagem regressiva entra no modo totalmente automatizado, quando computadores de voo e sistemas de solo assumem o comando e o foguete passa a operar com energia interna.

Equipes também ensaiam a rotina que antecede o embarque. O braço de acesso da tripulação se afasta da nave, a escotilha da Orion se fecha e técnicos verificam se o módulo está selado. Os controles internos passam por checagem final, como se os quatro astronautas já estivessem em seus assentos.

A gerente do programa Lua a Marte da Nasa, Lori Glaze, tenta equilibrar entusiasmo e prudência. “Toda noite eu olho para a Lua e fico muito animada, porque eu sinto que ela está nos chamando e nós estamos prontos”, diz. Em seguida, ela puxa o freio: mesmo com o teste bem-sucedido, ainda há “trabalho significativo” até o dia da decolagem.

Retorno à Lua e disputa por protagonismo

O simbolismo da Artemis 2 pesa mais que o número de dias em órbita. Entre 1968 e 1972, os Estados Unidos realizam nove missões tripuladas ao satélite, com seis pousos. Depois da Apollo 17, nenhuma nave com humanos chega tão longe. A exploração espacial se concentra em órbita baixa, estações espaciais e sondas robóticas.

O novo programa tenta reposicionar os EUA na corrida espacial do século 21. Além de mirar uma base lunar nas próximas décadas, a Nasa usa a Artemis como laboratório para futuras viagens a Marte. Tecnologias desenvolvidas para o SLS e para a cápsula Orion, como sistemas de navegação autônoma e escudos térmicos mais robustos, podem migrar para outros veículos e setores industriais.

O foguete SLS, que herda componentes e know-how do antigo ônibus espacial, simboliza também a transição tecnológica. Nos anos 1960, a Nasa chega a consumir cerca de 60% da produção americana de circuitos integrados, impulsionando a indústria de semicondutores. Hoje, a agência ocupa um espaço menor na economia, mas volta a funcionar como vitrine de inovações em materiais, eletrônica de alta confiabilidade e sistemas de controle.

Se a Artemis 2 cumpre o plano, reforça a liderança americana em um cenário em que China, Rússia e empresas privadas tentam ampliar sua presença no espaço profundo. O sucesso interessa a parceiros internacionais que integram o programa, como o Canadá, representado na tripulação por Jeremy Hansen, e países europeus que fornecem módulos e tecnologia.

Tripulação em quarentena e próximos testes

Os quatro astronautas entram em quarentena leve já nesta sexta-feira (20). O isolamento começa no Centro Espacial Johnson e migra para o Centro Espacial Kennedy cerca de cinco dias antes da decolagem. A medida reduz o risco de doenças às vésperas do lançamento, rotina adotada desde o programa Apollo.

Enquanto a equipe médica acompanha a tripulação, engenheiros avançam para a etapa conhecida como flight readiness review, uma revisão de prontidão de voo. Técnicos e gestores analisam dados do wet dress e de outros ensaios, cruzam relatórios de risco e precisam concluir, em documento formal, se o conjunto foguete-nave está realmente apto a decolar.

A decisão final não depende só da engenharia. Meteorologistas calculam probabilidades de mau tempo ao longo da janela de 6 a 11 de março. Equipes de segurança avaliam trajetórias de fuga em caso de aborto da missão após o lançamento. Cada variável pesa em um programa que pretende levar humanos de volta à superfície lunar já nas próximas missões Artemis.

Se a contagem avança sem novos sobressaltos, a Artemis 2 abre a porta para pousos, bases e, no limite, uma presença quase rotineira na vizinhança lunar. A pergunta que fica é se a política, o orçamento e a cooperação internacional conseguirão acompanhar a ambição técnica que, mais uma vez, aponta para o mesmo alvo no céu noturno.

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