Ciencia e Tecnologia

Nasa mantém Artemis II tripulada apesar de falha em escudo térmico

A Nasa decide manter para fevereiro de 2026 o lançamento da Artemis II, primeira missão tripulada à Lua em mais de 50 anos, mesmo com falhas conhecidas no escudo térmico da cápsula Orion. A agência aposta em ajustes na trajetória de reentrada para proteger os quatro astronautas e sustentar o cronograma do programa lunar.

Retorno à Lua sob pressão e desconfiança

A missão Artemis II marca o passo seguinte do ambicioso programa que pretende levar novamente humanos à superfície lunar ainda nesta década. A cápsula Orion deve decolar do Centro Espacial Kennedy, na Flórida, no topo do foguete de 98 metros Space Launch System, entrar em órbita em torno da Lua e voltar à Terra cerca de dez dias depois. O trecho mais crítico ocorre nos últimos minutos, quando a nave atravessa a atmosfera a mais de 39 mil km/h e depende de um escudo térmico íntegro para suportar temperaturas superiores a 2.700 ºC.

O mesmo tipo de escudo voa em 2022, na missão não tripulada Artemis I, e volta ao solo com danos inesperados. Imagens divulgadas depois por relatórios internos e pelo gabinete do inspetor-geral da agência mostram cavidades e perda de grandes placas do revestimento de Avcoat, material responsável por “queimar” e dissipar o calor extremo. A falha dispara uma investigação independente, pressão política e um debate interno raro sobre o grau de risco aceitável em um voo com humanos.

Escudo “defeituoso” e disputa dentro da agência

A Orion custa cerca de US$ 20,4 bilhões e leva duas décadas para sair do papel. O escudo térmico é peça central dessa engenharia. Nos anos 2000, a Nasa escolhe o Avcoat, material usado com sucesso nas missões Apollo, aplicando-o inicialmente em uma estrutura em favo de mel. O primeiro teste, em 2014, com o voo EFT-1, já expõe dificuldades de fabricação, rachaduras entre células e cura irregular do composto. Em 2015, a agência decide abandonar o favo de mel e adotar blocos maiores de Avcoat colados à base da cápsula.

Esse novo desenho só é testado em condições reais em 2022, na Artemis I. O retorno ocorre sem perda da nave, mas com descascamento extenso da superfície. Técnicos classificam o comportamento como fora do previsto. “Este é um escudo térmico defeituoso”, afirma o ex-astronauta Danny Olivas, que participa da revisão independente. “Não há dúvida: este não é o escudo térmico que a Nasa gostaria de fornecer aos seus astronautas.” Ele diz acreditar, porém, que “após anos analisando o que deu errado”, a agência “tem a solução para o problema”.

A solução não passa por uma troca completa do escudo. Quando os danos da Artemis I vêm à tona, a cápsula reservada para a Artemis II já está com o revestimento instalado. A remoção é considerada impraticável, cara e arriscada. Olivas resume o impasse: “Não dava para simplesmente ir a uma oficina qualquer para remover escudos térmicos”. A direção opta por manter o hardware e mexer na maneira como a nave volta para casa.

A Nasa decide então alterar a trajetória de reentrada, suavizando o mergulho na atmosfera para reduzir a carga térmica sobre o escudo. Em nota enviada à CNN, a agência afirma ter “considerado todos os aspectos” e admite que há “incerteza inerente” tanto em manter o projeto atual quanto em mudar novamente o processo de fabricação dos blocos de Avcoat. Em outras palavras, qualquer caminho carrega riscos que não podem ser totalmente eliminados.

Mesmo entre quem apoia o voo, ninguém fala em segurança absoluta. “Na minha opinião, não existe voo que decole sem que haja uma dúvida persistente”, diz Olivas. A administradora associada interina Lakiesha Hawkins reforça a mensagem em setembro: “Do ponto de vista do risco, estamos muito confiantes”. O comandante da Artemis II, Reid Wiseman, endossa o plano. “Os investigadores descobriram a causa principal, que foi a chave”, afirma. “Se nos mantivermos na nova trajetória de reentrada que a Nasa planejou, então este escudo térmico poderá voar com segurança.”

Risco calculado ou aposta temerária?

A decisão de seguir adiante divide ex-astronautas e especialistas em proteção térmica. O engenheiro e ex-tripulante do ônibus espacial Charlie Camarda, que voa na primeira missão após o desastre do Columbia em 2003, considera o plano equivocado. “O que eles estão planejando fazer é uma loucura”, afirma. Para ele, a agência teve tempo e meios para atacar o problema de forma mais profunda. “Poderíamos ter resolvido esse problema há muito tempo. Em vez disso, eles continuam adiando a solução.”

Camarda não prevê um desastre iminente. Ele admite que a Artemis II provavelmente retorna em segurança, mesmo com rachaduras e perdas de material no escudo. Seu temor é mais amplo: que um pouso bem-sucedido seja interpretado como prova de que o processo de decisão da agência é robusto, quando, em sua visão, não é. O risco, diz, é alimentar uma falsa sensação de invulnerabilidade às vésperas de missões mais complexas, incluindo pousos na superfície lunar e viagens de longa duração.

Dentro da própria comunidade aeroespacial, a Orion enfrenta resistência desde antes do Artemis. Um engenheiro que trabalha em tecnologias avançadas, mas não diretamente no programa, chega a descrever a cápsula como “lixo em chamas”. A crítica mira tanto o desenho do veículo quanto o custo bilionário em um cenário de orçamentos apertados e concorrência crescente com empresas privadas. O programa Artemis, porém, é hoje a espinha dorsal da estratégia americana de permanência na Lua e futura ida a Marte, com contratos e empregos distribuídos por vários estados.

Os efeitos da decisão da Nasa vão além dos muros da agência. Um eventual incidente na reentrada da Artemis II pode paralisar o programa por anos, como ocorre após os acidentes com os ônibus espaciais Challenger, em 1986, e Columbia, em 2003. Mesmo sem tragédias, um desempenho abaixo do esperado do escudo térmico pode alimentar questionamentos no Congresso, afetar o fluxo de recursos e reabrir a discussão sobre alternativas mais baratas e flexíveis, em parceria com o setor privado e outras agências espaciais.

O que está em jogo depois de fevereiro de 2026

A janela de lançamento da Artemis II abre em 6 de fevereiro de 2026, início de um período de alinhamento orbital favorável entre Terra e Lua. Até lá, astronautas e equipes em solo no Centro Espacial Kennedy treinam cenários de emergência, abortos em diferentes fases do voo e procedimentos para reentrada fora do ponto previsto. Simulações testam, em ambientes controlados, o comportamento da cápsula caso o escudo térmico perca mais material do que o estimado.

O sucesso da Artemis II deve destravar a sequência do programa. A Artemis III, planejada para levar astronautas ao polo sul lunar, depende de uma cápsula Orion confiável para transportar a tripulação até a órbita da Lua e trazê-la de volta. O desempenho do escudo térmico em 2026 pode redefinir prazos, redistribuir contratos e influenciar a forma como parceiros internacionais, como Europa, Japão e Canadá, se engajam nas próximas etapas. Em última instância, a missão testa não só um hardware de US$ 20,4 bilhões, mas a capacidade da Nasa de equilibrar ambição, pressão política e limites da engenharia quando decide mandar humanos de volta à Lua.

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