Ciencia e Tecnologia

Nasa mantém Artemis II para 2026 apesar de falha em escudo térmico

A Nasa mantém para fevereiro de 2026 o lançamento da missão Artemis II, que levará quatro astronautas à Lua, apesar de falhas conhecidas no escudo térmico da cápsula Orion. A decisão apoia‑se em mudanças na trajetória de reentrada e em análises internas que apontam risco aceitável, mas divide especialistas e reacende o debate sobre segurança em voos tripulados.

Aposta em ajuste de rota para proteger a tripulação

A viagem parte do Centro Espacial Kennedy, na Flórida, em uma janela que se abre em 6 de fevereiro de 2026. A Artemis II é o primeiro teste com humanos do novo sistema que deve levar os Estados Unidos de volta à superfície lunar, mais de meio século após a era Apollo. No centro da controvérsia está o escudo térmico da Orion, peça que enfrenta temperaturas superiores a 2.700 °C na reentrada, quando a cápsula corta a atmosfera a velocidades próximas de 40 mil km/h.

O componente é quase idêntico ao usado na Artemis I, voo não tripulado de 2022. Naquele retorno, a cápsula trouxe marcas inesperadas: cavidades, rachaduras e áreas em que pedaços do revestimento se desprenderam. Imagens divulgadas em relatório interno em 2024 mostraram uma superfície marcada por falhas, bem diferente do resultado previsto nos modelos de computador. A partir dali, a agência abriu uma longa investigação, com equipes internas e um grupo independente de revisão.

O ex-astronauta Danny Olivas integrou essa equipe técnica e não suaviza a avaliação. “Este é um escudo térmico defeituoso”, afirma. “Não há dúvida: este não é o escudo térmico que a Nasa gostaria de fornecer aos seus astronautas.” Apesar da crítica, ele hoje sustenta que o risco é conhecido e administrável. “Depois de anos analisando o que deu errado, a Nasa tem a solução para o problema”, diz, ao defender o plano que permite o voo sem trocar a peça.

Debate interno expõe rachaduras na confiança

O dilema surge porque o escudo térmico da Artemis II já está instalado há anos na cápsula de US$ 20,4 bilhões, desenvolvida em duas décadas. Não há como removê‑lo sem comprometer toda a estrutura. A Nasa conclui, há cerca de um ano, que a solução mais segura não é reconstruir a Orion, mas redesenhar a trajetória de reentrada para reduzir a agressividade do mergulho final na atmosfera. A engenharia aposta em um perfil de voo que distribui melhor o calor ao longo da descida.

Em comunicado enviado à CNN, a agência afirma ter “considerado todos os aspectos” antes de liberar o componente para voar. Reconhece, porém, que há “incerteza inerente” tanto em manter o escudo atual quanto em alterar o processo de fabricação do Avcoat, material ablativo que se desgasta de forma controlada para proteger a estrutura. A mensagem é clara: não existe caminho completamente seguro. Mesmo os defensores da missão admitem que “não existe voo que decole sem que haja uma dúvida persistente”, nas palavras de Olivas.

Por trás desse impasse está uma mudança de projeto. As cápsulas Apollo usavam Avcoat aplicado em uma estrutura de favo de mel, com centenas de pequenas células preenchidas e depois usinadas. A Orion repetiu o modelo em um teste de 2014, o EFT‑1, mas o processo se mostrou caro, complexo e frágil. Houve rachaduras entre seções e cura irregular do material. A partir de 2015, a Nasa decide abandonar o favo de mel e adotar grandes blocos de Avcoat colados à base da cápsula, solução que estreia em condições lunares justamente em 2022, na Artemis I.

O resultado desse primeiro ensaio em velocidade de retorno da Lua expõe o problema. Pedaços do escudo se desprendem, deixando cavidades profundas no Avcoat carbonizado. Quando as imagens vêm a público, em 2024, já é tarde para qualquer intervenção estrutural na Orion da Artemis II. A cápsula segue em montagem avançada no Kennedy, enquanto as equipes de análise correm para demonstrar que a proteção continua suficiente, mesmo danificada.

Nem todos se convencem. O ex-astronauta e especialista em escudos térmicos Charlie Camarda, veterano do primeiro voo do ônibus espacial após o desastre do Columbia, considera o plano “uma loucura”. Ele relata ter passado meses tentando alertar a chefia da agência. “Poderíamos ter resolvido esse problema há muito tempo. Em vez disso, eles continuam adiando a solução”, critica, ao defender um novo voo não tripulado antes de colocar astronautas em risco.

Risco calculado em nome da corrida lunar

A Nasa busca mostrar unidade. Lakiesha Hawkins, administradora associada adjunta interina da diretoria que cuida dos sistemas de exploração, diz que, “do ponto de vista do risco, estamos muito confiantes”. O comandante da Artemis II, Reid Wiseman, endossa. Segundo ele, os investigadores identificam a causa principal do problema, o que abre caminho para um controle mais preciso. “Se nos mantivermos na nova trajetória de reentrada que a Nasa planejou, então este escudo térmico poderá voar com segurança”, afirma.

Os treinamentos no Kennedy refletem essa leitura. Astronautas e equipes em solo ensaiam cenários de emergência para o dia do lançamento e para o retorno à Terra. A avaliação oficial é que a Orion possui “robustez” suficiente para suportar rachaduras e perda limitada de material, sem comprometer a integridade da cápsula. “O escudo térmico vai rachar? Sim, ele vai rachar”, admite Olivas. A diferença, argumenta a Nasa, é que agora se conhece melhor a extensão provável dessas falhas.

Críticos como Camarda não apostam em desastre iminente. Ele próprio avalia que a Artemis II provavelmente retorna em segurança. Seu temor é outro: a possibilidade de um voo bem‑sucedido validar processos de decisão que hoje considera frágeis. Um pouso tranquilo no Pacífico, após cerca de dez dias de missão, pode consolidar a sensação de que o risco foi superestimado, abrindo espaço para apostas mais ousadas em voos seguintes, incluindo futuras missões rumo a Marte.

A controvérsia extrapola os corredores da Nasa. A Artemis II é peça central de uma estratégia mais ampla, que inclui a construção de uma pequena estação em órbita lunar e uma presença sustentável na superfície na próxima década. O sucesso reforça a imagem da agência em meio à disputa com China e empresas privadas pelo protagonismo na Lua. Um fracasso, mesmo que parcial, atrasaria o cronograma, encareceria contratos e poderia esfriar o apetite político por programas tripulados de alto custo.

O que está em jogo depois da Artemis II

A decisão de seguir em frente funciona como teste de stress para a cultura de segurança da Nasa, moldada por tragédias como Challenger, em 1986, e Columbia, em 2003. A agência tenta mostrar que aprendeu a lidar com sinais de alerta sem paralisar o programa. A diferença, agora, é que cada escolha ocorre sob escrutínio instantâneo e global, num ambiente em que qualquer falha alimenta discursos de corte de gastos e críticas à exploração espacial.

Se a Artemis II cumprir o roteiro, a Orion danificada em 2022 vira peça de museu e o escudo térmico atual se torna referência para voos seguintes, com ajustes finos no material. Se o dano se mostrar mais extenso que o previsto, mesmo sem perda de vidas, a pressão por uma revisão profunda do projeto tende a crescer, com impacto direto no cronograma de pousos lunares desta década. Entre a ambição de voltar à Lua e a memória de queimar na atmosfera, a Artemis II decola cercada por uma pergunta que nenhuma simulação resolve por completo: quanto risco a sociedade está disposta a aceitar em nome da próxima fronteira?

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