Ciencia e Tecnologia

Nasa flagra em Marte formações ligadas a antiga água subterrânea

A Nasa registra em 25 de fevereiro de 2026 formações que lembram teias de aranha em Marte e liga o fenômeno à ação de água subterrânea no passado. As estruturas, analisadas pelo robô Curiosity no Monte Sharp, ajudam a reconstituir como o planeta vermelho passou de úmido a deserto gelado.

Teias de pedra na encosta do Monte Sharp

As imagens chegam à equipe da Nasa como um mosaico de linhas claras recortando o solo marrom-avermelhado. Vistas de cima, as estruturas formam desenhos que lembram uma imensa rede de teias de aranha. No chão marciano, a cena se revela em detalhes pelo olhar do Curiosity, rover de 899 quilos e tamanho semelhante ao de um SUV médio.

Os cientistas batizam essas formações de boxwork. São cristas minerais que se erguem entre 1 e 2 metros, entrecortadas por depressões preenchidas por areia fina. Elas se espalham ao redor do Monte Sharp, montanha de quase 5 mil metros no centro da cratera Gale, e guardam um registro raro da circulação de água subterrânea em Marte há bilhões de anos.

As estruturas impressionam até pesquisadores acostumados a fenômenos extremos. Na Terra, formações parecidas aparecem em cavernas ou em regiões áridas, mas raramente passam de alguns centímetros de altura. Em Marte, o mesmo tipo de desenho ganha escala de muros naturais, o que obriga a Nasa a rever o alcance da ação da água sob a superfície marciana.

A explicação preliminar aponta para um processo lento, que combina fraturas profundas na rocha, infiltração de água e erosão persistente do vento. A água, rica em minerais dissolvidos, percorre rachaduras abertas pelo passado geológico turbulento de Marte. Ao longo desse caminho, deposita material que funciona como um cimento natural, endurecendo certas faixas enquanto o entorno segue mais frágil.

Quando a água desaparece e o clima se torna cada vez mais seco e frio, o vento assume o papel principal. Grão por grão, a areia leva embora a rocha menos resistente. O que sobra são cristas mineralizadas, que desenham padrões geométricos fechados, parecidos com células de um favo ou com fios grossos de uma teia. O boxwork vira uma fotografia em relevo da antiga circulação de água subterrânea.

A escalada arriscada do Curiosity e as pistas da água

A confirmação desse cenário depende de observações a poucos metros das rochas, trabalho exclusivo do Curiosity desde que o rover pousa em Marte em agosto de 2012. A chegada às cristas de boxwork, porém, não é simples. O veículo precisa subir, descer e cruzar vales arenosos em um terreno que combina lajes duras e trechos traiçoeiros de areia fofa.

A engenheira Ashley Stroupe, do Laboratório de Propulsão a Jato, comanda a operação. Ela participou da construção do Curiosity e hoje lidera a condução remota do robô. “É quase como uma estrada que podemos percorrer de carro. Mas depois temos que descer para os vales, onde precisamos ficar atentos para que as rodas do Curiosity não derrapem ou tenham dificuldade para virar na areia”, descreve. “Sempre há uma solução. Só precisamos tentar caminhos diferentes”, afirma.

Cada deslocamento exige comandos enviados com horas de antecedência, levando em conta o atraso de comunicação entre Marte e a Terra, que chega a mais de 10 minutos-luz, e o risco de prender um veículo de quase 900 quilos a dezenas de milhões de quilômetros de casa. O esforço compensa: antes da aproximação do Curiosity, os pesquisadores só tinham imagens orbitais e podiam apenas especular sobre a origem das estruturas.

De perto, o rover encontra não só as cristas que formam o boxwork, mas também aglomerados irregulares conhecidos como nódulos. Essas pequenas saliências, que brotam de superfícies rochosas, já aparecem em outras regiões estudadas pelo próprio Curiosity e por missões anteriores da Nasa. São consideradas um sinal claro de que fluidos subterrâneos circularam por ali, concentrando minerais e remodelando a textura da rocha.

Os dados reforçam um quadro em que Marte não seca de uma vez. À medida que o Curiosity sobe o Monte Sharp, camada após camada registra fases distintas: períodos em que lagos e rios ocupam a cratera, intervalos de retração da água, episódios de retorno de ambientes úmidos. O boxwork surge nas partes mais altas como testemunho de uma fase avançada, quando a água já não forma lagos persistentes, mas ainda circula no subsolo antes de sumir quase por completo.

Essa sequência vertical funciona como um arquivo climático em três dimensões. A poucos quilômetros de distância, na base do monte, sedimentos finos revelam antigos leitos de lago. Nas cotas intermediárias, aparecem depósitos que indicam oscilação entre períodos úmidos e secos. Nas zonas onde o boxwork domina, predomina a assinatura da evaporação: minerais cimentados, rochas ricas em sulfatos e marcas de erosão intensa pelo vento.

O que a descoberta muda sobre a história de Marte

A leitura detalhada dessas estruturas tem impacto direto na principal pergunta da exploração marciana: quão habitável o planeta já foi. A presença de boxwork de até 2 metros de altura, associada a nódulos formados por água subterrânea, indica que Marte mantém um sistema hidrogeológico ativo por mais tempo do que se supõe em modelos mais simples. Em vez de um corte brusco entre um passado úmido e um presente seco, o que aparece é uma transição longa, com bolsões de água persistindo abaixo da superfície.

Esse cenário aumenta a janela de tempo em que microrganismos poderiam sobreviver escondidos no subsolo, protegidos da radiação e das variações extremas de temperatura na superfície. Mesmo que nenhuma forma de vida seja encontrada, a reconstrução desse ambiente ajuda a comparar a evolução de Marte com a da Terra e a testar teorias sobre como planetas rochosos perdem ou preservam suas reservas de água ao longo de bilhões de anos.

As implicações vão além da ciência básica. Missões futuras, tanto robóticas quanto tripuladas, dependem de mapas precisos de onde a água já circula e onde ainda pode estar presa na forma de gelo ou de minerais hidratados. Regiões que exibem sinais fortes de água antiga, como o entorno do Monte Sharp, tendem a ganhar prioridade em planejamentos que miram a década de 2030, quando a Nasa e outras agências discutem enviar humanos ao planeta vermelho.

Para a própria Nasa, a descoberta reforça a estratégia adotada com o Curiosity desde 2012. Em vez de percorrer grandes distâncias, o rover concentra o trabalho em uma única montanha e avança poucos quilômetros por ano, como um geólogo que sobe uma serra folheando capítulos de uma mesma história. A identificação do boxwork em escala inédita mostra que essa aposta na profundidade da análise, e não apenas na quantidade de locais visitados, rende resultados que mudam o entendimento global do planeta.

Próximo alvo: uma camada rica em sulfatos

O tempo do Curiosity nas teias de pedra está perto do fim. A Nasa planeja deixar a região de boxwork em março e direcionar o rover para outra unidade geológica do Monte Sharp, alguns quilômetros adiante. O próximo destino é uma camada rica em sulfatos, minerais que se formam quando a água evapora e deixa para trás sais cristalizados.

A ideia é seguir essa faixa de terreno por vários quilômetros, cruzando transições sutis entre rochas depositadas em ambientes úmidos, intermediários e quase completamente secos. A combinação dos registros dos sulfatos com as estruturas de boxwork deve permitir uma cronologia mais fina da secagem de Marte, indicando quando lagos desaparecem, quando a água se esconde no subsolo e em que momento até essa reserva subterrânea se perde.

Enquanto o Curiosity continua a escalada, outras missões ampliam o quadro, como o rover Perseverance, em Jezero, que coleta amostras para um futuro retorno à Terra. Juntas, elas compõem um esforço que mira um objetivo comum: entender se Marte já oferece condições reais para a vida e por quanto tempo sustenta esse cenário. As teias de pedra na encosta do Monte Sharp não respondem sozinhas a essa pergunta, mas acrescentam um capítulo decisivo à história ainda incompleta do planeta vermelho.

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