Nasa encontra em Marte matéria orgânica que intriga cientistas
Pesquisadores da Nasa identificam novos indícios de matéria orgânica em rochas de Marte que escapam das explicações geológicas conhecidas. A análise, baseada em dados do robô Curiosity, reforça a hipótese de que o planeta vermelho pode ter abrigado vida no passado. Os resultados são divulgados em 4 de fevereiro de 2026 na revista científica Astrobiology.
Marte volta ao centro do debate sobre vida fora da Terra
As novas evidências surgem a partir de amostras colhidas na Cratera Gale, uma bacia de impacto de 154 quilômetros de diâmetro onde o Curiosity opera desde 2011. Em março de 2025, o laboratório químico a bordo do robô detecta pequenas quantidades de três hidrocarbonetos — decano, undecano e dodecano — em uma rocha sedimentar perfurada a poucos centímetros da superfície. Essas moléculas, cadeias simples de carbono e hidrogênio, são comuns na Terra, mas sua presença em Marte, nesse contexto específico, acende um alerta entre os astrobiólogos.
Os compostos podem representar fragmentos de ácidos graxos, componentes básicos de membranas celulares em organismos terrestres, preservados ao longo de bilhões de anos em rochas marcianas. Na Terra, ácidos graxos surgem em grande parte pela atividade de seres vivos, de bactérias microscópicas a plantas e animais. Processos geológicos sem participação biológica também conseguem produzi-los, mas em quantidades e combinações que seguem padrões conhecidos. É justamente esses padrões que o novo estudo tenta reproduzir — e não consegue.
Estudo questiona explicações puramente geológicas
O trabalho, assinado por uma equipe internacional ligada à Nasa, cruza três frentes de investigação. Em laboratório, cientistas submetem amostras de rochas terrestres e compostos orgânicos a doses de radiação equivalentes às que atingem a superfície marciana. Em modelos matemáticos, simulam como essas moléculas se degradam e se reorganizam ao longo de dezenas de milhões de anos. Nos computadores, confrontam os resultados com os dados reais do Curiosity na Cratera Gale.
A reconstrução aponta para uma história longa e violenta. As amostras analisadas parecem ficar expostas à radiação cósmica por cerca de 80 milhões de anos, tempo suficiente para destruir boa parte do material orgânico mais frágil. Ainda assim, a quantidade residual de hidrocarbonetos detectada supera o que os modelos mais conservadores atribuem a processos puramente não biológicos, como reações químicas no subsolo marciano ou a chegada de moléculas orgânicas em meteoritos. Os pesquisadores calculam esse aporte externo considerando taxas de impacto conhecidas no Sistema Solar e o fluxo típico de compostos de carbono associados a esses objetos.
As contas não fecham. Mesmo sob cenários generosos de bombardeio de meteoritos, a quantidade de matéria orgânica sobrevivente deveria ser menor do que a observada pelo Curiosity. Esse descompasso leva a equipe a considerar que a concentração original de compostos orgânicos na rocha possa ter sido significativamente maior do que aquela gerada por processos geológicos conhecidos. O estudo evita cravar uma origem biológica, mas admite que a hipótese de atividade de algum tipo de vida antiga em Marte fica mais difícil de descartar.
Astrobiologia ganha novo fôlego e pressiona futuras missões
A descoberta chega em um momento em que a exploração de Marte entra numa fase de consolidação, com missões focadas menos em sobrevôos e mais em geologia fina e química detalhada. A confirmação de moléculas que desafiam explicações convencionais fortalece a astrobiologia como eixo central dos próximos projetos. Agências espaciais veem em resultados como esse argumento direto para defender orçamentos bilionários e a continuidade de programas de longo prazo.
A Cratera Gale, rica em sedimentos que um dia podem ter sido depositados por água líquida, consolida-se como um arquivo privilegiado da história marciana. As rochas que hoje aparecem desérticas e oxidadas já estiveram submersas em ambientes potencialmente habitáveis, com lagos e rios que existiram há mais de 3 bilhões de anos. Se houve vida, mesmo microbiana, é nesse tipo de depósito que seus vestígios mais estáveis tendem a persistir. O fato de o Curiosity identificar traços orgânicos justamente ali reforça a escolha da região como alvo prioritário.
Questão sobre origem permanece em aberto
Os autores do estudo são cautelosos ao discutir a palavra vida. Afirmam que os dados não permitem, por enquanto, diferenciar de forma conclusiva entre uma origem biológica ou não biológica para os compostos. Lembram que a própria Terra abriga processos químicos extremos capazes de gerar matéria orgânica complexa sem participação direta de organismos, em ambientes como fontes hidrotermais e sistemas vulcânicos. O que torna Marte intrigante é a combinação de contexto geológico, histórico de água líquida e um excedente de moléculas orgânicas difícil de encaixar nas equações tradicionais.
O próximo passo passa por missões capazes de trazer amostras marcianas intactas de volta à Terra, onde instrumentos mais sensíveis podem investigar com precisão a estrutura detalhada das moléculas e a presença de padrões típicos de processos biológicos. Programas de retorno de amostras, discutidos há anos por Nasa e ESA, ganham um argumento adicional com o novo trabalho. A pressão agora recai sobre engenheiros, agências e governos, que precisam decidir quanto estão dispostos a investir para responder a uma pergunta simples e, ao mesmo tempo, monumental: Marte já foi um planeta vivo?
