Ciencia e Tecnologia

Nasa desmente boato de que Terra ficará sem gravidade em 2026

A Nasa desmente um boato que promete “fim da gravidade” na Terra em agosto de 2026. A agência afirma que o planeta não pode, em nenhum cenário realista, ficar sem essa força que mantém tudo preso ao solo.

Boato viral distorce leis básicas da física

O boato se espalha em correntes de WhatsApp, vídeos no TikTok e perfis no X há pelo menos algumas semanas. As mensagens circulam com datas precisas, falam em “alinhamento raro de planetas” e sugerem que, em um único dia de agosto de 2026, a força que puxa pessoas, prédios e oceanos para o centro da Terra deixaria de existir por alguns minutos.

Não há qualquer respaldo científico nessa previsão. A gravidade não é um botão que alguém liga e desliga, nem uma função que oscila conforme o humor do Sistema Solar. É uma das quatro forças fundamentais da natureza e está presente, com intensidade calculável, em todos os instantes. A Terra exerce essa atração constante sobre tudo ao seu redor há cerca de 4,5 bilhões de anos, desde sua formação.

O que diz a Nasa e por que a história não fecha

A Nasa classifica a alegação como falsa e incompatível com o conhecimento acumulado em mais de meio século de exploração espacial. Em comunicados públicos, a agência lembra que nenhum alinhamento de planetas previsto para 2026, ou para qualquer outro ano, é capaz de anular a gravidade da Terra. “Não existe situação astronômica conhecida que faça a gravidade da Terra chegar a zero”, afirma a agência, em resposta semelhante já usada para desmentir boatos parecidos em anos anteriores.

A comparação mais simples ajuda a entender o tamanho da distorção. A gravidade na superfície da Terra é de aproximadamente 9,8 metros por segundo ao quadrado. Mesmo eventos extremos, como erupções vulcânicas, grandes terremotos ou variações na distribuição de massa do planeta, alteram esse valor em frações minúsculas, muitas vezes menores que 0,001 metro por segundo ao quadrado. Nenhum desses fenômenos cancela a força. Apenas a modifica de forma imperceptível para o dia a dia.

Rumores sobre “dias sem gravidade” aparecem com alguma regularidade na última década. Em 2014, uma mensagem atribuída falsamente ao astrônomo britânico Patrick Moore prometia um “efeito de gravidade zero” devido a um alinhamento com Júpiter. Nada aconteceu, e o episódio entrou para o catálogo de farsas recorrentes. A versão de 2026 recicla a mesma ideia, com nova data e roupagem mais apocalíptica.

Físicos ouvidos por instituições de pesquisa no Brasil e no exterior reforçam que, mesmo se todos os planetas conhecidos se alinhassem em uma linha imaginária, o efeito sobre a gravidade na superfície terrestre seguiria desprezível. A atração gravitacional do Sol, por exemplo, responde por menos de 1% da sensação de peso que uma pessoa experimenta em pé no chão. A força dominante continua sendo a da própria Terra.

Desinformação alimenta medo e confusão

A nova onda de boatos aproveita a familiaridade parcial do público com imagens de astronautas flutuando em estações espaciais. Nas redes, alguns vídeos usam essas cenas para sugerir que algo semelhante ocorreria com 8 bilhões de pessoas ao mesmo tempo, em um dia específico de agosto de 2026. A associação ignora um ponto central: a ausência aparente de peso em órbita não é falta de gravidade, mas queda livre contínua em torno do planeta.

Especialistas em educação científica veem nesse caso um retrato do ambiente informacional atual. Em menos de 30 segundos, um vídeo mal explicando conceitos de física básica ultrapassa 1 milhão de visualizações e desperta dúvidas reais. Entre as mensagens que chegaram a perfis oficiais de divulgação científica, aparecem perguntas sobre prédios desmoronando, oceanos se elevando como paredes de água e até aeronaves “perdendo o céu”. Nenhum desses cenários tem amparo em qualquer lei da física conhecida.

O esclarecimento da Nasa chega como um antídoto necessário. Ao reafirmar o caráter constante da gravidade, a agência não só desmente a história de agosto de 2026, como reforça a importância de checar a origem de previsões espetaculosas. “Sempre que você ler algo extraordinário sobre o espaço, procure a fonte original e verifique se agências científicas ou observatórios respeitados confirmam a informação”, orienta a agência em materiais de divulgação.

Para educadores, cada crise de desinformação também abre uma janela de oportunidade. Professores de física relatam aumento de perguntas em sala de aula sobre como a gravidade funciona, por que a Lua não cai na Terra e como a Estação Espacial Internacional se mantém em órbita. Explicações simples, com exemplos do cotidiano, ajudam a transformar medo em curiosidade e a fortalecer o pensamento crítico.

Próximos boatos e o desafio da alfabetização científica

A experiência recente mostra que o desmentido de hoje não encerra o problema. Boatos semelhantes tendem a retornar com novas datas, imagens editadas e termos mais técnicos para parecerem convincentes. A cada ciclo, a data milagrosa avança alguns anos, o alinhamento de planetas ganha outro nome, mas o enredo básico permanece.

Plataformas de rede social prometem investir em moderação e checagem de fatos, mas o volume de conteúdo diário torna o trabalho desigual. Em 2024, relatórios oficiais apontam bilhões de visualizações mensais em vídeos de astronomia e pseudociência, muitas vezes misturados no mesmo feed. A responsabilidade final recai sobre o usuário, que precisa aprender a diferenciar divulgação séria de ficção travestida de ciência.

O episódio do “dia sem gravidade” em 2026 expõe uma questão mais ampla: quantas pessoas compreendem, de fato, fenômenos básicos que regem o planeta? Responder a essa pergunta exige investimentos contínuos em educação, jornalismo científico e transparência de instituições como a Nasa. A gravidade segue firme, puxando tudo para o chão. A dúvida que permanece é se a capacidade coletiva de reconhecer fatos terá o mesmo peso nos próximos anos.

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