Nasa corre para achar 15 mil asteroides que podem destruir cidades
A Nasa alerta em 2026 que cerca de 15 mil asteroides de tamanho médio, capazes de arrasar cidades inteiras, seguem invisíveis aos atuais sistemas de monitoramento. A agência aposta no telescópio espacial NEO Surveyor, previsto para 2027, para localizar a maioria dessas rochas nas próximas décadas.
A ameaça que não aparece no céu
No palco da conferência da Associação Americana para o Avanço da Ciência, o recado é direto: o perigo real não está nos gigantes de filmes de desastre, mas em milhares de rochas discretas que cruzam o entorno da Terra sem serem notadas. São asteroides com cerca de 140 metros de diâmetro, tamanho suficiente para destruir uma metrópole, que escapam dos telescópios atuais.
Kelly Fast, responsável pela área de Defesa Planetária da Nasa, resume a mudança de foco. “Não nos preocupamos tanto com os grandes asteroides dos filmes, porque sabemos onde eles estão”, afirma. Esses colossos já são bem catalogados por observatórios em solo. O ponto cego se concentra nas rochas de porte médio, discretas na luz visível, mas devastadoras em caso de impacto.
Os números expostos na conferência ampliam o desconforto. Das cerca de 25 mil rochas espaciais desse tamanho estimadas nas proximidades da Terra, apenas 40% entraram em algum catálogo. Em outras palavras, 15 mil corpos seguem sem identidade, órbita definida ou avaliação de risco confiável. Cada um deles pode liberar energia comparável a dezenas de bombas nucleares se atingir o solo em ângulo desfavorável.
A preocupação não é teórica. Um objeto bem menor, com algo entre 17 e 20 metros, explodiu em 2013 sobre a cidade russa de Chelyabinsk e quebrou janelas em larga escala, ferindo mais de 1,5 mil pessoas. Um asteroide de 140 metros multiplica o potencial de devastação para uma escala regional, com impacto sobre milhões de habitantes e infraestrutura crítica de energia, transporte e comunicação.
Rochas negras, telescópio frio
A dificuldade começa na própria natureza desses objetos. Muitos são ricos em carbono e outros compostos escuros, materiais que refletem pouquíssima luz. Na prática, funcionam como pedaços de carvão vagando no espaço. Telescópios ópticos, que dependem do brilho refletido do Sol, veem pouco ou nada quando esses asteroides cruzam o campo de visão.
A Nasa decide então inverter a lógica. Em vez de procurar por brilho, passa a buscar por calor. O NEO Surveyor, planejado para 2027, é um telescópio espacial equipado com sensores de infravermelho médio, capazes de detectar a radiação térmica emitida pelos asteroides, mesmo os mais escuros. Essa energia é liberada depois que a rocha absorve a luz solar e a reemite na forma de calor.
O instrumento vai operar em dois canais sensíveis ao calor, o que permite medir com mais precisão o tamanho real dos corpos observados. No espectro visível, um objeto pequeno e claro pode parecer tão brilhante quanto um grande e escuro. No infravermelho, a quantidade de calor emitida se relaciona diretamente à área da superfície. A partir disso, a equipe consegue estimar diâmetros com margem de erro bem menor que a obtida em solo.
O NEO Surveyor também escapa de outra limitação da vigilância atual: o próprio brilho do Sol. Hoje, uma parte importante do céu permanece fora de alcance para telescópios terrestres porque o ofuscamento solar impede observações próximas à região onde a estrela aparece. O novo observatório será posicionado no ponto de Lagrange 1, uma região de equilíbrio gravitacional entre Sol e Terra. Dali, o telescópio olha “para fora” do sistema Terra-Sol e monitora áreas que hoje funcionam como um buraco negro estatístico para astrônomos.
Para enxergar o calor fraco de um asteroide distante, o próprio telescópio precisa quase congelar. O NEO Surveyor usa um sistema de resfriamento passivo, baseado em escudos solares que mantêm os sensores perto de -240 °C, ou 33 kelvins. Sem essa blindagem térmica, o calor emitido pelos equipamentos cegaria os detectores, como faróis apontados diretamente para uma câmera.
Defesa planetária ainda em construção
A nova missão nasce da constatação de que detectar cedo é tão importante quanto ser capaz de desviar um asteroide. Nancy Chabot, coordenadora de defesa planetária da Nasa, insiste nesse ponto. “A capacidade de desviar um asteroide é tecnicamente possível, mas ainda não está pronta para uso imediato. Localizar a ameaça com antecedência é crucial”, afirma.
A referência é a missão DART, que em 2022 colide uma nave deliberadamente contra o asteroide Dimorphos e altera sua órbita. O teste confirma que um impacto controlado consegue redirecionar uma rocha espacial. Mas o experimento é um protótipo. Transformar essa prova de conceito em um sistema disponível em regime de plantão, com foguetes, sondas e coordenação internacional prontos para lançamento, exige orçamento estável e acordos entre países que ainda não saem do papel.
Enquanto essa estrutura não existe, a descoberta tardia de um objeto perigoso pode deixar a Terra sem margem de manobra. Em cenários estudados por agências espaciais, a diferença entre dez anos e dois anos de aviso prévio define se um asteroide de 140 metros pode ser redirecionado, fragmentado com segurança ou se resta apenas preparar planos de evacuação e mitigação em solo.
A meta oficial do NEO Surveyor é localizar mais de 90% dos objetos potencialmente perigosos desse porte em cerca de uma década de operação. O catálogo detalhado de órbitas e tamanhos alimenta bancos de dados globais usados em simulações de impacto e estratégias de defesa. Governos passam a trabalhar com probabilidades mais concretas, em vez de confiar na sorte estatística de que nenhuma rocha relevante esteja escondida no ponto cego atual.
O avanço também reorganiza prioridades políticas. Defesa planetária, tema antes restrito à ficção científica e a círculos acadêmicos, entra na agenda de segurança internacional. Proteger cidades contra “assassinos de cidades”, como alguns cientistas apelidam esses asteroides médios, implica tratar astronomia não só como ciência básica, mas como infraestrutura crítica, assim como redes elétricas ou sistemas de alerta de tsunamis.
Um mapa do perigo para as próximas décadas
O NEO Surveyor decola em 2027 com a missão explícita de reduzir a incerteza. A partir do ponto L1, o telescópio deve operar praticamente sem interrupções, sem atmosfera, sem ciclo noite e dia, e com acesso a regiões do céu hoje invisíveis para observatórios em solo. Cada nova detecção entra em um mapa dinâmico de ameaças que servirá de referência para a comunidade internacional.
Se o plano funcionar, o planeta passa da ignorância relativa para um monitoramento sistemático de quase todos os objetos médios que cruzam a vizinhança da Terra. A tecnologia para desviar um asteroide continua em desenvolvimento, mas ganha algo mais valioso que qualquer foguete: tempo de reação. A dúvida que permanece não é se conseguiremos ver o perigo chegando, e sim se a cooperação política e o investimento em ciência vão acompanhar a velocidade das rochas que cruzam silenciosamente o nosso céu.
