Ciencia e Tecnologia

Nasa ativa navegação autônoma de alta precisão no Perseverance

O rover Perseverance passa a se localizar em Marte com precisão de cerca de 25 centímetros, graças a uma nova tecnologia de navegação ativada em fevereiro de 2026. A ferramenta reduz a dependência de comandos enviados da Terra e abre caminho para missões mais autônomas no planeta vermelho.

Navegação marciana ganha “GPS” próprio

Em 2 e 16 de fevereiro, a Nasa coloca em operação, pela primeira vez em tarefas de rotina do Perseverance, o sistema Mars Global Localization. A tecnologia, desenvolvida pelo Laboratório de Propulsão a Jato (JPL), funciona como um “GPS marciano” e permite que o robô saiba onde está com muito mais exatidão do que antes.

O cérebro da novidade é um algoritmo que compara imagens panorâmicas captadas pelas câmeras de navegação do rover com mapas orbitais armazenados na própria máquina. Em cerca de dois minutos de processamento, o sistema recalcula a posição do veículo na superfície de Marte e corrige qualquer desvio acumulado. O cálculo roda em um processador de alto desempenho que antes servia principalmente à comunicação com o helicóptero Ingenuity, que acompanhou o Perseverance nas primeiras fases da missão.

Do acúmulo de erros à autonomia em terreno desconhecido

Até agora, o Perseverance depende sobretudo da chamada odometria visual para se orientar. Esse método estima o deslocamento ao comparar fotos sucessivas do solo, medindo como rochas, dunas e marcas no terreno parecem se mover entre um quadro e outro. A técnica funciona, mas carrega uma armadilha: pequenos erros em cada estimativa se somam ao longo dos dias e podem virar incertezas de dezenas de metros.

Essas dúvidas na localização limitam o tamanho dos trechos que o robô percorre sozinho e obrigam engenheiros na Terra a revisar rotas com frequência. A nova tecnologia muda esse jogo. Agora, o Perseverance pode interromper o caminho, fazer uma varredura panorâmica, confrontar as imagens com os mapas orbitais e ajustar a posição com uma margem de erro equivalente a menos de meio passo humano. Ao final desse processo, retoma a navegação com o mapa interno corrigido.

Segundo a Nasa, essa capacidade amplia a segurança em regiões mais complexas, com pedras grandes, crateras rasas e declives. “Quando o rover sabe exatamente onde está, consegue arriscar trajetos mais longos e ambiciosos sem colocar em perigo os instrumentos”, afirma a agência em comunicado. A promessa é de trajetos autônomos mais longos por dia marciano, com menos interrupções para análise humana.

A mudança tem impacto direto na produtividade científica da missão. O Perseverance busca sinais de antiga atividade biológica e coleta amostras que podem ser trazidas à Terra em futuras missões. Cada metro bem planejado aumenta a chance de alcançar rochas intactas, sedimentos preservados e regiões que registram diferentes fases da história de Marte. Ao reduzir o tempo gasto com correções de rota, a equipe ganha margem para planejar investigações mais complexas ao longo de 2026 e dos anos seguintes.

Marco para robôs exploradores além de Marte

A Mars Global Localization oferece um vislumbre do futuro da exploração espacial robótica. Ao permitir que um veículo opere com mais independência da comunicação com a Terra, o sistema antecipa o tipo de autonomia que será necessária em missões a luas distantes e asteroides. Em locais onde o atraso no sinal ultrapassa dezenas de minutos, cada decisão automática bem tomada vale tempo e dinheiro.

O uso do processador antes dedicado ao Ingenuity indica outro movimento discreto: a reciclagem de recursos da missão para ampliar capacidades do próprio rover. Em vez de levar novos componentes a Marte, a equipe reaproveita um computador já testado no ambiente marciano para executar tarefas mais exigentes de navegação. O resultado é uma atualização significativa obtida com hardware já disponível a 225 milhões de quilômetros de distância.

Engenheiros do JPL veem no sistema um modelo para futuras gerações de robôs exploradores. Tecnologias derivadas podem equipar veículos em outras regiões de Marte, sondas na Lua ou em luas geladas como Europa e Encélado. Nesses cenários, algoritmos capazes de cruzar imagens locais com mapas orbitais devem permitir que máquinas percorram terrenos pouco conhecidos com mínima intervenção humana.

A novidade também redefine o papel dos controladores em solo. Em vez de decidir cada curva do Perseverance, a equipe tende a se concentrar em objetivos científicos e metas de longo prazo, enquanto o rover assume decisões de navegação de curto alcance. A transição não elimina o risco nem substitui a supervisão humana, mas desloca o foco do controle direto para o planejamento estratégico.

Próximos desafios na estrada marciana

Com a navegação global ativada em fevereiro, a Nasa testa agora os limites da nova capacidade em trajetos cada vez mais complexos. Um dos próximos passos é integrar o sistema a rotinas de planejamento que consideram não apenas a segurança do percurso, mas também o custo energético, o desgaste das rodas e o tempo disponível para experimentos científicos em cada dia marciano.

O desempenho da Mars Global Localization ao longo de 2026 deve orientar o desenho de futuras missões ao planeta vermelho. Se o ganho de eficiência se confirmar em diferentes tipos de terreno, a tecnologia tem chance de se tornar padrão em novos robôs marcianos e até em veículos que possam acompanhar astronautas em uma futura base em Marte. A pergunta que passa a dominar os bastidores não é mais se os robôs conseguem se orientar sozinhos, mas até onde a Nasa está disposta a deixar que eles decidam o próprio caminho.

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