Ciencia e Tecnologia

Nasa aposta em SpaceX e Blue Origin para pousos longos na Lua em 2028

Após o retorno da Artemis II em 10 de abril de 2026, a Nasa entra em uma nova fase. A agência americana se prepara para usar módulos lunares privados da SpaceX e da Blue Origin para pousar astronautas na Lua em 2028 e abrir caminho para missões mais longas e uma base permanente no satélite.

Da “viagem de acampamento” à permanência longa

O plano marca uma ruptura com o modelo da era Apollo, quando apenas dois astronautas desciam à superfície e ficavam, no máximo, alguns dias na Lua. Agora, a meta é enviar quatro pessoas para uma missão de várias semanas, com módulos de pouso de duas a sete vezes maiores do que os usados entre 1969 e 1972.

O novo desenho da exploração lunar se apoia em dois sistemas principais. O foguete do Sistema de Lançamento Espacial, controlado pela Nasa, leva a cápsula Orion com a tripulação da Terra até a órbita lunar. A partir daí, entram em cena os veículos privados: módulos de pouso desenvolvidos pela SpaceX, de Elon Musk, e pela Blue Origin, de Jeff Bezos, passam a ser responsáveis pelo trecho final até o solo lunar.

Dentro da agência, o discurso é de urgência e cooperação. “Precisamos que toda a indústria trabalhe conosco, e ela tem que aceitar o desafio e realmente colocar em marcha as linhas de produção que serão necessárias para cumprir essa meta”, afirma Lori Glaze, administradora interina da Nasa. O prazo é ambicioso: de agora até o pouso previsto para 2028, a janela para testar sistemas complexos é curta.

Entre os responsáveis pelo desenho do módulo de pouso, a comparação com o passado é direta. Kent Chojnacki, alto funcionário da Nasa encarregado desse desenvolvimento, lembra que o Saturn V, foguete símbolo do programa Apollo, foi pensado para missões rápidas. “Ele não era de forma alguma adequado para a exploração de longo prazo nem para permanências prolongadas”, afirma. Os voos históricos à Lua, embora espetaculares, soam hoje quase improvisados diante do que a agência projeta.

Jack Kiraly, diretor de relações governamentais da Sociedade Planetária, resume a diferença. Para ele, as viagens do fim dos anos 1960 e início dos 1970 eram “viagens de acampamento”, com estadias curtas e infraestrutura mínima. Os sistemas que a Nasa coloca agora na prancheta são descritos como “enormes em comparação com o Apollo”, tanto em volume quanto em capacidade de carga.

Risco tecnológico e corrida geopolítica

O salto de escala tem um preço em complexidade. Para enviar naves gigantes a cerca de 400 mil quilômetros da Terra, SpaceX e Blue Origin precisam dominar o reabastecimento em órbita, uma manobra em que tanques de combustível são transferidos de uma espaçonave a outra no espaço. A técnica, comum em filmes de ficção, ainda não é rotina na vida real e concentra boa parte das dúvidas de engenheiros e analistas.

Após o lançamento do módulo lunar, outros foguetes terão de decolar em sequência para levar o combustível necessário à viagem de ida e volta. Só então a nave poderá seguir para a órbita da Lua e encontrar a cápsula Orion com a tripulação. O encadeamento de lançamentos, acoplamentos e reabastecimentos amplia as chances de falha em cada etapa e obriga a Nasa a desenhar planos de contingência detalhados.

Chojnacki insiste que a agência não está avançando no escuro. “Temos um plano”, diz. A Nasa prevê uma campanha intensa em 2027, com encontros em órbita entre a nave espacial e um ou dois módulos de pouso, testes de reabastecimento em voo e o envio de um módulo lunar não tripulado à superfície para demonstrar segurança. Só depois dessa sequência, se bem-sucedida, virá a missão com astronautas, em um intervalo de cerca de dois anos.

A pressão aumenta à medida que atrasos se acumulam, sobretudo no cronograma da SpaceX, escolhida inicialmente como primeira fornecedora do módulo de pouso. Em setembro, três ex-funcionários da Nasa soaram o alarme em artigo na revista especializada SpaceNews: “Mais uma vez estamos prestes a perder a Lua”, escreveram, em referência ao risco de a agência ficar para trás em relação a rivais internacionais.

O principal concorrente é a China, que declara a intenção de levar humanos à Lua até 2030. Pequim financia um programa robusto, com missões robóticas recorrentes, planos para sua própria estação lunar e uma parceria estreita com a Rússia. Em Washington, o avanço chinês funciona como combustível político para defender orçamentos bilionários e acelerar decisões técnicas.

A resposta da Nasa passa por ampliar apostas no setor privado. A agência já delega a empresas europeias a construção do módulo de propulsão da Orion e sinaliza que pode reabrir contratos se necessário. No ano passado, diante dos atrasos, executivos discutem internamente a possibilidade de antecipar o uso do módulo da Blue Origin, mesmo com a SpaceX ainda no jogo. As duas empresas, por sua vez, anunciam ajustes de rota para priorizar o projeto lunar e manter contratos considerados estratégicos.

Economia espacial, bases lunares e o que vem depois

A nova rodada de pousos não mira apenas bandeiras e fotos históricas. A Nasa fala em presença humana contínua na Lua, com bases capazes de abrigar equipes por meses, gerar energia e apoiar experimentos científicos. A diferença em relação às missões Apollo está no horizonte: a Lua deixa de ser um destino ocasional e passa a funcionar como plataforma de pesquisa e teste de tecnologia para viagens mais distantes, como Marte.

O esforço movimenta a chamada economia espacial. Contratos com SpaceX, Blue Origin e fornecedores europeus e asiáticos impulsionam cadeias industriais de alta tecnologia, da fabricação de materiais avançados ao desenvolvimento de sistemas de suporte à vida. Cada módulo lunar, cada teste de reabastecimento, representa empregos altamente especializados e investimentos em universidades e centros de pesquisa.

Se o plano avança, setores como telecomunicações, mineração e energia também podem ser transformados. Pesquisadores discutem a possibilidade de extrair recursos do solo lunar, como gelo de água para produzir combustível, e instalar usinas de energia solar no espaço para abastecer a Terra. Ideias que hoje parecem distantes ganham tração quando a presença na Lua deixa de ser episódica.

A cooperação com empresas privadas redefine ainda a forma como programas espaciais são conduzidos. Em vez de um modelo puramente estatal, a Nasa atua como cliente e articuladora, enquanto companhias disputam contratos e trazem capital próprio. Esse arranjo pode servir de modelo para iniciativas de outros países, inclusive em projetos de exploração de asteroides e de missões tripuladas além da órbita lunar.

O caminho até lá continua cercado por incertezas técnicas, políticas e orçamentárias. A Artemis II entrega à Nasa um raro momento de consenso interno, mas o cronograma até 2028 depende de decisões no Congresso americano, da disciplina das empresas e da ausência de grandes acidentes. A agência aposta que a combinação de urgência geopolítica, ambição tecnológica e pressão comercial será suficiente para manter o ritmo.

Enquanto o calendário avança e a China acelera seus próprios planos, a pergunta que orienta engenheiros, astronautas e políticos permanece a mesma: desta vez, os Estados Unidos conseguem transformar a Lua em um endereço estável, e não apenas em um ponto de visita?

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