Nasa adia pouso da Artemis para 2028 e reescreve volta à Lua
A Nasa decide adiar o primeiro pouso lunar tripulado do programa Artemis. O administrador Jared Isaacman anuncia nesta sexta (27) que a Artemis 3, prevista para 2027, deixa de tentar descer na Lua e vira missão de teste em órbita baixa da Terra. O pouso passa para a Artemis 4, planejada para o início de 2028.
Novo rumo para a volta à Lua
O recuo marca uma revisão profunda do plano de retorno humano à superfície lunar, mais de meio século após a Apollo 17, em 1972. Em vez de arriscar um pouso logo após o primeiro voo tripulado do programa, a Nasa decide inserir uma etapa intermediária para testar, com astronautas a bordo, a integração entre a cápsula Orion e os módulos de pouso em órbita da Terra.
Isaacman admite que a agência já sabe, há algum tempo, que o cronograma atual é irrealista. Ele critica a lógica de espaçar lançamentos em anos e alternar objetivos distantes demais entre si, como um simples sobrevoo da Lua seguido de um pouso. “A Nasa vem trabalhando nesses planos sabendo que essa não é a abordagem correta”, afirma. “Não fomos direto à Apollo 11. Chegamos lá passando por Mercury, Gemini e muitas missões Apollo, com uma cadência de lançamentos a cada três meses.”
A nova configuração transforma a Artemis 3 em um grande ensaio em órbita baixa. A Orion, construída pela Lockheed Martin, decola no foguete SLS, acopla em um ou em ambos os módulos de pouso desenvolvidos por SpaceX e Blue Origin e testa operações conjuntas por alguns dias. Só depois, com a Artemis 4, uma missão semelhante segue até a órbita lunar e tenta pousar na superfície.
Internamente, o movimento é tratado como um retorno ao básico. Isaacman recorre várias vezes à história da própria Nasa para defender a mudança. Ele lembra que, na década de 1960, o intervalo entre a amerissagem da Apollo 7 e o lançamento da Apollo 8 foi de apenas dois meses. Segundo ele, a cadência atual, com um grande voo a cada três anos, corrói a memória operacional das equipes e aumenta riscos.
Impactos no programa, na indústria e na corrida espacial
A decisão empurra o novo passo humano na Lua, agora prometido para 2028, mas não é apenas uma questão de calendário. A Nasa cancela a atualização do SLS, o foguete gigante que leva a Orion ao espaço, e abandona o plano de construir um estágio superior mais potente, contrato avaliado em cerca de US$ 2 bilhões com a Boeing. Em vez de investir em um SLS mais musculoso, a agência busca tornar o foguete mais frequente, e não mais complexo.
“O SLS é um veículo bem impressionante, não queremos tornar cada um deles em uma obra de arte”, diz Isaacman, em referência a alterações profundas a cada lançamento. Ele sustenta que mudanças constantes de configuração, como as previstas na evolução do SLS, aumentam a chance de problemas. A Nasa prefere padronizar o foguete e concentrar esforço em voos regulares, mesmo que isso signifique recuar em ambição tecnológica no curto prazo.
O ajuste atinge também a cadeia de parceiros privados que orbitam o Artemis. SpaceX, de Elon Musk, e Blue Origin, de Jeff Bezos, disputam a primazia de realizar o primeiro pouso para a Nasa com seus sistemas de pouso reutilizáveis. A etapa adicional em órbita baixa da Terra cria mais um campo de provas para as duas empresas, amplia o volume de dados de voo e pode redesenhar prazos de certificação. Quanto melhor se saírem nos encontros com a Orion, maior a chance de liderarem os pousos subsequentes.
Amit Kshatriya, administrador-associado da Nasa, reforça o discurso de redução de risco. “Isso reflete os ajustes que precisamos fazer para manter nosso cronograma confiável e nossas equipes focadas no que mais importa, que são missões seguras e realizáveis”, afirma. Ele lembra que a agência trabalha com o horizonte de presença permanente na Lua, com a construção de uma base no satélite natural, e não com visitas esporádicas como na era Apollo.
A mudança reacende a comparação com a China, que declara intenção de colocar taikonautas na superfície lunar até 2030. Isaacman diz ver a competição de forma positiva. “Acredito que seja uma ótima maneira de motivar nossa força de trabalho e parceiros a alcançar o quase impossível. A competição funcionou muito bem para nós na década de 1960”, afirma, em alusão à corrida com a então União Soviética.
O administrador é questionado sobre o impacto de cortes orçamentários na ciência durante o governo Donald Trump, frequentemente apontados como um dos fatores para a baixa cadência de lançamentos. Ele nega que tenha havido cortes na Nasa. As demissões de mais de 500 funcionários no Laboratório de Propulsão a Jato, porém, seguem documentadas em relatórios oficiais e relatórios de sindicatos.
Artemis 2 mantém foco e diversidade inédita
Enquanto o pouso se afasta, a próxima etapa concreta do programa continua em preparação. A Artemis 2, primeiro voo tripulado rumo à Lua desde 1972, permanece prevista para abril de 2026, após um pequeno atraso para reparos no SLS. A missão descreve uma trajetória em forma de oito ao redor do satélite e retorna à Terra em cerca de dez dias, sem tentativa de pouso.
A tripulação reúne Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen. Pela primeira vez, um homem negro, uma mulher e um astronauta não americano cruzam a órbita terrestre rumo à Lua. Nas missões Apollo, todos eram homens brancos e americanos. Kshatriya insiste que o redesenho do programa também é pensado para eles. “Quando subirem naquele foguete, eles precisam saber que estão fazendo isso como parte de uma etapa, como parte de um plano que vai funcionar”, afirma. “Eles disseram muitas vezes que estão fazendo essa missão para que seus colegas possam caminhar na Lua.”
Isaacman volta ao tema da cadência de voos ao falar da Artemis 2. Para ele, lançar a cada vários anos significa começar quase do zero a cada missão, com equipes que perdem reflexos e prática. “Tem que haver uma maneira melhor, alinhada com a nossa história”, diz. Na avaliação da liderança da agência, apenas um calendário anual de voos consegue sustentar a curva de aprendizado necessária para operar com segurança na órbita lunar e, mais adiante, em viagens a Marte.
A atualização do plano deixa perguntas em aberto. A Nasa ainda precisa mostrar como vai financiar uma cadência maior de lançamentos sem recorrer ao SLS mais potente, como vai equilibrar contratos com gigantes como Boeing e Northrop Grumman e como pretende coordenar a disputa entre SpaceX e Blue Origin sem atrasar ainda mais o cronograma. A Artemis 2, se sair do papel em abril, se torna o teste decisivo não só de hardware, mas da nova estratégia que a agência escolhe para voltar à Lua e, desta vez, tentar ficar.
