Nasa adia Artemis 2 e freia volta de astronautas à Lua para 2026
A Nasa adia para, no mínimo, abril de 2026 o lançamento da Artemis 2, missão que marca a volta de astronautas à órbita da Lua após mais de 50 anos. Problemas no sistema de hélio do foguete SLS forçam o retorno do veículo ao hangar no Centro Espacial Kennedy, na Flórida, e expõem a delicada engenharia por trás do principal programa lunar dos Estados Unidos.
Do sonho à revisão técnica
O adiamento interrompe um cronograma já apertado. A Artemis 2 seria o primeiro voo tripulado do programa Artemis e tinha lançamento previsto para o primeiro semestre de 2026. Em Cabo Canaveral, o gigantesco foguete SLS deixa a plataforma de lançamento de volta ao prédio de montagem, a 6,4 quilômetros de distância, numa lenta travessia que simboliza o recuo involuntário da agência.
Os engenheiros comemoram na quinta-feira, 19, o resultado de um novo teste de abastecimento. Vazamentos de hidrogênio líquido, que já tinham forçado atrasos anteriores, parecem enfim sob controle. A equipe crava uma nova data, 6 de março, um mês além do calendário mais recente. Menos de 24 horas depois, o sistema de hélio do estágio superior apresenta falha e derruba o plano.
O hélio serve para purgar os motores e pressurizar os tanques de combustível, funções vitais para a segurança da decolagem. Ao detectar a interrupção do fluxo para o topo do foguete, a Nasa suspende os preparativos e opta por uma revisão completa. “É necessário retornar ao prédio de montagem de veículos em Kennedy para determinar a causa do problema e corrigi-lo”, afirma a agência em comunicado.
A decisão preserva a margem para um novo alvo em abril de 2026, mas sem garantias. A Nasa trabalha com janelas estreitas de lançamento, de apenas alguns dias por mês, alinhadas à órbita da Lua e às condições de reentrada na Terra. Qualquer correção extensa nos sistemas de hélio ou combustível empurra o cronograma e repercute em toda a cadeia do programa Artemis.
Enquanto engenheiros desmontam painéis e revisam válvulas dentro do hangar, a tripulação permanece em prontidão em Houston. Três astronautas americanos e um canadense treinam diariamente em simuladores e câmaras de sobrevivência. Eles serão os primeiros humanos a se aproximar da Lua desde o fim do programa Apollo, que levou 24 astronautas ao espaço entre 1968 e 1972.
Pressão sobre o programa Artemis
O atraso aumenta a pressão sobre o programa Artemis, concebido para recolocar os Estados Unidos na liderança da exploração lunar e abrir caminho para uma presença humana sustentável na superfície. A Artemis 2 não pousa na Lua, mas funciona como prova de fogo. Leva a cápsula Orion com quatro tripulantes em um voo de cerca de dez dias ao redor do satélite natural, testando sistemas de suporte à vida, navegação e comunicação em regime real.
Cada mês acrescentado ao calendário custa dinheiro e capital político. O SLS, desenvolvido há mais de uma década, já consome dezenas de bilhões de dólares do orçamento da Nasa, em meio a disputas no Congresso e à concorrência de foguetes comerciais. A Artemis 3, planejada para levar a próxima dupla de astronautas à superfície lunar, depende diretamente do sucesso da Artemis 2. Se o voo orbital escorrega para o fim de 2026, o pouso, hoje projetado para a segunda metade da década, também tende a deslizar.
A agência sustenta que a prioridade é a segurança. Em comunicados recentes, executivos da Nasa repetem que não haverá “atalhos” para levar humanos de volta à Lua. Um acidente agora seria devastador não apenas para o programa, mas para a confiança pública na exploração espacial tripulada. A lembrança dos acidentes do Challenger, em 1986, e do Columbia, em 2003, ainda orienta decisões conservadoras sempre que um sistema crítico apresenta falhas.
O impacto científico imediato é limitado, mas cumulativo. Experimentos planejados para voos subsequentes, incluindo estudos sobre radiação, uso de recursos lunares e testes de tecnologias que podem viabilizar viagens a Marte, ficam em compasso de espera. Universidades e empresas parceiras ajustam cronogramas, renegociam contratos e replanejam equipes à medida que a Nasa atualiza o calendário.
No cenário geopolítico, a Artemis 2 também funciona como vitrine. Os Estados Unidos usam o programa para atrair aliados para acordos internacionais de exploração pacífica. O Canadá, parceiro histórico, garante lugar para um de seus astronautas a bordo deste primeiro voo. Cada adiamento prolonga a expectativa e cria espaço para avanços paralelos de China, Rússia e outros atores que planejam suas próprias missões lunares.
Risco calculado e próximos passos
O retorno do SLS ao hangar abre uma janela rara para inspeções detalhadas. Equipes verificam não apenas o sistema de hélio, mas também linhas de combustível, softwares de controle e componentes que sofreram estresse durante os testes recentes. Qualquer ajuste de projeto precisa ser validado em solo com nova bateria de ensaios, repetindo o abastecimento de hidrogênio líquido e a pressurização completa antes de uma nova tentativa de colocar o foguete na plataforma.
Os próximos meses definem se abril de 2026 permanece um objetivo realista ou apenas um marco político no papel. Se os reparos se mostrarem simples, a Artemis 2 pode manter uma trajetória de atrasos contidos. Se novos problemas surgirem nas verificações, a Nasa terá de redesenhar o cronograma do programa e admitir um hiato ainda maior entre o discurso de retorno à Lua e a decolagem efetiva.
A cada revisão, o projeto amadurece e se afasta da margem de risco, mas o preço aparece em tempo e orçamento. A agência aposta que, quando o SLS voltar a cruzar o caminho de 6,4 quilômetros até a plataforma em Cabo Canaveral, o foguete estará pronto para um voo que não admite erro. A pergunta que permanece, em meio a vazamentos, válvulas e prazos elásticos, é quanto o mundo está disposto a esperar pela próxima fotografia da Terra vista da vizinhança lunar.
