Na Índia, Lula aposta em IA, comércio e defesa e dribla Mercosul-UE
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva realiza três reuniões bilaterais na Índia, em fevereiro de 2026, e concentra a agenda em inteligência artificial, comércio e defesa. O acordo Mercosul-União Europeia, alvo de críticas da França, fica de fora das conversas.
Lula mira tecnologia e negócios, não impasses
Lula desembarca na cúpula internacional na Índia sob pressão para responder às críticas francesas ao acordo entre Mercosul e União Europeia, em discussão há mais de 20 anos. O presidente opta por outro caminho: usa o palco global para reforçar a imagem do Brasil como parceiro pragmático, capaz de falar de futuro digital, segurança e abertura de mercados sem reabrir feridas comerciais.
Ao longo de um dia de agenda intensa, o Planalto costura três encontros bilaterais com representantes da França, da Croácia e do Sri Lanka. As reuniões somam algumas horas de conversas reservadas em Nova Déli, entre plenárias e eventos paralelos da cúpula, que reúne líderes de mais de 20 países. Em todas elas, assessores de Lula repetem a mesma orientação: foco em inteligência artificial, comércio e defesa; nada de Mercosul-UE.
A França carrega o maior peso político do grupo. O presidente Emmanuel Macron critica abertamente o desenho atual do acordo, afirma que o texto é “incompatível” com a transição verde europeia e pressiona por salvaguardas ao agronegócio francês. Mesmo assim, na Índia, o tema não entra na sala. O governo brasileiro considera que insistir na divergência, neste momento, apenas cristalizaria um impasse que já paralisa as negociações desde 2019.
Interlocutores da área econômica defendem que a prioridade imediata é evitar novos ruídos com Bruxelas e com Paris, em um cenário de comércio global mais lento, com crescimento abaixo de 3% ao ano. Para eles, somar aliados em tecnologia e cadeias de produção é mais urgente do que forçar uma resposta sobre o acordo birregional, que ainda depende de ajustes ambientais, agrícolas e industriais dos dois lados.
IA, comércio e defesa ganham espaço na agenda
A conversa com a delegação francesa se concentra em inteligência artificial e segurança. O Planalto explora o interesse europeu em regras globais para algoritmos, uso de dados e sistemas automatizados em serviços públicos. A equipe de Lula busca associar o Brasil a iniciativas de regulação responsável da IA, tema que movimenta bilhões de dólares em investimentos em pesquisa e infraestrutura até 2030.
Nos bastidores, auxiliares descrevem o encontro como uma tentativa de “desarmar o ambiente” com Paris. O Itamaraty aposta que a construção de pontes em áreas de alta tecnologia e defesa pode criar confiança para, mais adiante, destravar o nó Mercosul-UE. A avaliação é que nenhuma das partes quer enterrar publicamente um acordo que promete ampliar o acesso de cerca de 780 milhões de consumidores a novos mercados.
Com a Croácia, país que integra a União Europeia desde 2013, o tom é mais econômico. Lula coloca na mesa oportunidades em energia, infraestrutura e turismo, setores que movimentam mais de 7% do PIB brasileiro. Interessa a Brasília atrair investimentos para projetos de transição energética e logística, em um momento em que o país promete zerar o desmatamento ilegal até 2030 e consolidar-se como fornecedor estável de alimentos e energia limpa.
O diálogo com o Sri Lanka abre uma frente diferente. O país asiático, que atravessa crise econômica profunda desde 2022, busca parceiros para aliviar a dependência de poucos fornecedores e diversificar exportações. O governo brasileiro enxerga espaço para ampliar vendas de alimentos, fertilizantes e tecnologia agrícola, além de cooperação em defesa marítima no Oceano Índico, rota que concentra mais de 30% do comércio marítimo global.
Brasil testa papel de mediador pragmático
As escolhas feitas na Índia têm efeitos além da foto oficial. Ao evitar o confronto direto sobre o Mercosul-UE, Lula tenta preservar margem de manobra para negociações discretas nos próximos meses. A estratégia incomoda uma parte do agronegócio, que cobra um cronograma claro para a abertura do mercado europeu a carne, soja e etanol brasileiros, mas agrada setores industriais e diplomatas que temem retaliações não tarifárias.
Para empresários de tecnologia, a ênfase em inteligência artificial e digitalização pesa mais. A estimativa é que, até 2028, o uso de sistemas de IA em serviços públicos, bancos e comércio eletrônico possa acrescentar até 1 ponto percentual ao PIB brasileiro, se o país atrair investimentos e garantir regras estáveis. “Sem previsibilidade regulatória, os grandes grupos não colocam dinheiro”, resume um executivo que acompanha as conversas em Nova Déli.
No campo da defesa, a aposta é consolidar o Brasil como fornecedor e parceiro em projetos de vigilância, cibernética e indústria bélica de médio porte. A Embraer e outras empresas acompanham a movimentação, de olho em contratos de aviação militar, drones e sistemas de monitoramento de fronteiras. Cada acordo fechado na Ásia ou na Europa Oriental tem potencial de injetar dezenas de milhões de dólares em encomendas ao longo de alguns anos.
A diplomacia brasileira tenta equilibrar esse avanço com preocupações ambientais e trabalhistas, que hoje pautam parte central da agenda europeia. A tarefa é dupla: mostrar que o país reduz desmatamento e emissões de gases de efeito estufa, enquanto pressiona por regras que não funcionem como barreiras disfarçadas a produtos agropecuários e industriais brasileiros.
Negociações seguem em paralelo ao impasse
Os próximos meses indicam um roteiro de conversas discretas, tanto em Brasília quanto em capitais europeias. O governo trabalha com a possibilidade de uma nova rodada de alto nível sobre o Mercosul-UE antes do fim de 2026, mas sem datas anunciadas. Até lá, a ordem é acumular resultados em outras frentes, como acordos setoriais em tecnologia, energia limpa e defesa.
Na prática, Lula tenta consolidar a imagem do Brasil como mediador confiável, capaz de conversar com países em crise, potências regionais e membros da União Europeia, mesmo diante de divergências sensíveis. O sucesso dessa estratégia depende de dois movimentos ainda em aberto: a disposição de Paris para flexibilizar sua resistência ao acordo e a capacidade do governo brasileiro de transformar promessas em investimentos concretos. Enquanto nada disso se resolve, a Índia marca um capítulo em que o Planalto escolhe, deliberadamente, falar de futuro e deixar o impasse para depois.
