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Na CPAC, Eduardo Bolsonaro defende impeachment de Moraes e lança Flávio

Eduardo Bolsonaro ataca o ministro Alexandre de Moraes, defende o impeachment do magistrado e lança o irmão, senador Flávio Bolsonaro (PL), como “próximo presidente do Brasil” durante discurso na CPAC, nos Estados Unidos, neste 28 de março de 2026. Da plateia, líderes conservadores americanos ouvem o ex-deputado prometer anistia a Jair Bolsonaro e convocar aliados externos a pressionar as instituições brasileiras.

Discurso em palco internacional acirra embate com o STF

No palco da Conservative Political Action Conference, principal vitrine do conservadorismo americano, o ex-deputado brasileiro usa pouco mais de 20 minutos para condensar queixas pessoais, agenda eleitoral e ataques diretos ao Supremo Tribunal Federal. Mora nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025 e transforma a plateia estrangeira em tribunal político de sua disputa com o ministro Alexandre de Moraes.

Eduardo apresenta Flávio como herdeiro do projeto iniciado por Jair Bolsonaro em 2019. “Existe um prognóstico que vamos ter a maioria no Senado”, afirma. Na sequência, descreve um roteiro para um eventual retorno da direita ao poder. “Os futuros senadores vão ‘impichar’ o Alexandre de Moraes. Vamos chutar para fora esses juízes corruptos”, diz, sob aplausos de parte do público.

O ex-parlamentar não se limita à promessa de afastar o ministro. Ele promete um contra-ataque imediato. “No dia seguinte, eu vou processar ele pela prisão, pelos crimes que ele cometeu e por quando ele me processou por crimes que eu não cometi”, declara. A referência é à série de inquéritos conduzidos por Moraes desde 2019, que atingem aliados do bolsonarismo por ataques ao sistema eleitoral e às instituições.

Ao longo do discurso, Eduardo mistura narrativa pessoal e estratégia política. Conta que teve contas bancárias bloqueadas, relata a apreensão do passaporte e diz ter perdido o mandato de deputado federal por faltas após deixar o Brasil. Apresenta esses episódios como prova de perseguição, sem citar decisões específicas ou fundamentos jurídicos. A plateia reage com manifestações de solidariedade e gritos contra o STF.

A situação do ex-presidente Jair Bolsonaro, preso desde o ano anterior, ocupa parte central da fala. Eduardo afirma que o pai é alvo de injustiça e promete trabalhar por uma anistia, caso o campo conservador volte ao poder. “Não temos medo de você, Alexandre de Moraes. Vamos vencer essas eleições, vamos perdoar Jair Bolsonaro, e os EUA vão ter o maior aliado no Brasil no ano que vem”, afirma, mirando diretamente as câmeras.

Plano conservador mira Senado, STF e anistia a Jair Bolsonaro

O roteiro desenhado por Eduardo depende de uma combinação de fatores políticos ainda incertos. O primeiro é a conquista de maioria no Senado a partir de 2027, condição para deflagrar um processo de impeachment contra ministros do STF. O segundo é a vitória de um presidente alinhado ao bolsonarismo, no caso o próprio Flávio, para chancelar uma agenda que inclui anistia a Jair Bolsonaro, revisão de decisões judiciais e enfraquecimento do atual desenho do Judiciário.

Na CPAC, o ex-deputado fala como articulador informal desse plano. Ao apresentar o irmão como “próximo presidente do Brasil”, antecipa um movimento que ainda não passa por qualquer anúncio oficial de candidatura. Seu discurso, porém, ecoa uma estratégia delineada desde 2022: concentrar força no Senado, onde tramitam indicações para o STF, pedidos de impeachment de ministros e projetos que alteram o funcionamento da Corte.

O ataque direto a Moraes serve como fio condutor dessa narrativa. Desde 2020, o ministro conduz investigações sobre suposta tentativa de golpe de Estado, disseminação coordenada de notícias falsas e ataques a urnas eletrônicas. Eduardo e outros aliados de Jair Bolsonaro argumentam que o Supremo extrapola funções ao abrir inquéritos de ofício e impor medidas cautelares duras, como bloqueio de bens, quebras de sigilo e prisões preventivas.

Na fala em Washington, esses embates vêm condensados em frases de efeito. Eduardo se diz vítima de “injustiças” e afirma que o Brasil vive um “estado de exceção informal”. Não apresenta números, mas menciona dezenas de aliados investigados e cita a retirada de seu passaporte como símbolo de uma suposta perseguição coordenada. Ao narrar a perda do mandato por ausências, afirma que foi “expulso” da Câmara, sem mencionar o rito previsto na Constituição.

A escolha da CPAC para essa mensagem não é acidental. O evento, que nasceu em 1974 e hoje reúne milhares de ativistas, parlamentares e pré-candidatos nos Estados Unidos, funciona como vitrine internacional para causas conservadoras. Eduardo tenta inserir a crise política brasileira na narrativa global de suposta censura a vozes de direita e pede apoio explícito de congressistas e doadores americanos.

Pressão internacional, tensão institucional e próximos capítulos

O apelo a aliados estrangeiros é uma das partes mais sensíveis do discurso. Ao prometer que os Estados Unidos terão “o maior aliado no Brasil no ano que vem” caso a direita volte ao Planalto, Eduardo sugere uma articulação transnacional para influenciar o cenário político brasileiro. Em 2022, o TSE já reage a declarações de observadores internacionais e reforça que não admite tutela externa sobre o processo eleitoral.

A nova ofensiva verbal tende a alimentar a tensão entre o bolsonarismo e o STF, em especial o gabinete de Moraes. A promessa pública de impeachment e de ações judiciais pessoais contra o ministro deve provocar reações dentro da Corte e no Congresso, onde qualquer pedido dessa natureza depende do filtro político da presidência do Senado. A escalada também coloca pressão sobre partidos de centro, que tentam se manter afastados da retórica de confrontação direta com o Judiciário.

A defesa de anistia para Jair Bolsonaro reacende outro debate sensível. Desde a prisão do ex-presidente, em 2025, projetos com esse objetivo surgem esporadicamente no Congresso, mas não avançam. Ao vincular a medida a uma vitória eleitoral em 2026, Eduardo transforma a pauta em promessa de campanha, o que pode mobilizar a base mais fiel e, ao mesmo tempo, afastar eleitores moderados preocupados com impunidade em casos de tentativa de ruptura institucional.

Os próximos meses devem mostrar se o projeto de transformar Flávio em candidato consolidado ganha tração dentro da direita e se o discurso da CPAC vira linha oficial do bolsonarismo. A resposta do STF, do governo federal e de partidos de centro indicará o grau de resistência institucional ao plano de impeachment de Moraes e de revisão de decisões tomadas desde 2019. A dúvida que se impõe, a partir de agora, é até onde essa retórica de confronto avança do palco da conferência para o cotidiano das instituições brasileiras.

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