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Muro desaba em BH e expõe risco de obra vizinha no Sagrada Família

O muro de uma casa desaba na madrugada desta sexta-feira (23/1) na Rua João Gualberto Filho, no Bairro Sagrada Família, Região Leste de Belo Horizonte. Moradores acordam com o estrondo, perdem bens e cobram responsabilidade da construtora que ergue um condomínio ao lado.

Noite de rachaduras, estalos e medo

O relógio marca pouco depois de meia-noite quando os primeiros estalos acordam parte da família. As rachaduras, que já incomodam há dias, começam a crescer mais rápido. Às 2h, o muro de contenção cede de vez, em um barulho que atravessa a madrugada e muda a rotina de uma casa inteira no Sagrada Família.

“Era meia-noite e meia quando o muro começou a cair. Daí às 2h ou 3h, caiu tudo. Foi um barulhão. Eu e meu sogro acordamos na hora”, conta Denis de Oliveira, 25 anos, um dos moradores do imóvel. O desabamento atinge a área externa da casa, onde ficam varanda e depósito, e espalha entulho por cerca de 60 metros de extensão.

O inquilino, o cirurgião-dentista aposentado Lourenço Freire, 73, acompanha cada som da estrutura cedendo. Ele percebe a rachadura aumentar, pedaço por pedaço. “Começou a estalar, meia-noite caiu um pedacinho, depois caiu mais um, e aí a rachadura foi aumentando. Eram 2h quando caiu o muro todo de uma vez. Havia móveis, coisas aqui, 60 metros de mangueira. Um prejuízo violento”, relata.

Sete cachorros e dois gatos estão na varanda quando o muro dá sinais de que não resiste por muito tempo. A família corre e consegue retirar todos os animais antes do colapso. Ninguém se fere, mas o susto toma o lugar do sono. “Estou sem dormir até agora. Agora só falta a Defesa Civil vir pra eu poder dormir em paz”, diz Lourenço, em voz embargada.

Obra de condomínio e talude em risco

No lote vizinho à casa, uma obra de condomínio de apartamentos avança há dois anos. O terreno é em desnível e depende de taludes estabilizados para segurar a terra, algo que, na prática, funciona como um grande apoio ao solo. A suspeita dos moradores é direta: a movimentação da construção teria comprometido a estrutura de contenção do muro e do barranco.

A Defesa Civil de Belo Horizonte chega ao endereço ao longo do dia e confirma, em nota, que o muro que desabou é de contenção e fechamento do imóvel. Os técnicos identificam também o deslizamento de um talude no lote vizinho, apontado como ponto crítico de risco. O responsável pelo terreno, porém, não é localizado na primeira tentativa de notificação.

Os agentes orientam o isolamento preventivo de áreas vulneráveis e notificam proprietários de imóveis no entorno. A recomendação é clara: manter distância do barranco, evitar circulação nas áreas afetadas e aguardar nova avaliação. A cena de entulho e terra solta reforça o medo de quem vive ali de que o problema ainda não terminou.

“Sem minha casa, fico sem teto, sem ter para onde fugir, nem parente para me acolher. Me sinto um estranho no ninho”, desabafa o inquilino. Ele lembra dos móveis, das mangueiras, de objetos acumulados ao longo de anos agora cobertos por restos de concreto. “Preciso dormir e de sossego e descanso, porque foi uma noite de terror. Sexta-feira do terror. Terror, barulheira, medo, desespero. Para onde eu vou?”, pergunta.

Segundo apuração no local, a construtora responsável pelo condomínio, a SPE Darci, instala lonas sobre a encosta, coloca fitas de isolamento e reforça parte do telhado da casa afetada. As medidas são emergenciais e não resolvem, por enquanto, a questão central: quem arca com o prejuízo da família e com a recuperação definitiva da área.

Responsabilidade em disputa e pressão por fiscalização

O episódio expõe uma tensão antiga em bairros de encosta de Belo Horizonte: o avanço de obras privadas em terrenos íngremes e a segurança das casas vizinhas. A cada verão chuvoso, multiplicam-se alertas de deslizamento na capital e na Grande BH, enquanto frentes de construção pressionam limites de taludes e muros de contenção.

No Sagrada Família, a queda do muro se torna símbolo desse conflito. De um lado, moradores que relatam perda material e medo de um novo desabamento. Do outro, uma obra que segue em andamento e que, até o momento, não se responsabiliza publicamente pelos danos. “Espero que eles banquem esse prejuízo porque é demais”, afirma Lourenço, à espera de uma posição formal da empresa.

A construtora é procurada pela reportagem, mas não responde até a publicação desta matéria. A Polícia Civil informa, em nota, que apura as circunstâncias do caso. A investigação deve ouvir moradores, responsáveis pela obra e técnicos da Defesa Civil, além de analisar laudos estruturais e registros de licenciamento.

Moradores da rua relatam receio de que novas chuvas agravem o quadro, sobretudo após a constatação do deslizamento do talude vizinho. A recomendação de isolamento afeta o uso de quintais, garagens e áreas comuns de pelo menos parte das casas próximas, o que altera a rotina e impõe uma convivência diária com o risco.

O debate sobre responsabilidade civil volta ao centro da conversa entre vizinhos, advogados e técnicos. Em situações como essa, construtoras podem ser responsabilizadas por danos causados a imóveis lindeiros se comprovado o nexo entre a obra e o colapso da estrutura. O caminho, porém, costuma ser longo, com perícias, disputas judiciais e acordos extrajudiciais.

Monitoramento, cobrança e incerteza para os moradores

A Defesa Civil municipal informa que seguirá monitorando o imóvel e o talude do terreno vizinho. Novas tentativas de notificação do responsável pela área instável são prometidas. O órgão reforça que todos os donos de imóveis no entorno já foram formalmente avisados sobre a necessidade de isolamento de áreas de risco.

A comunidade se organiza para acompanhar de perto os próximos passos de construtora e autoridades. Vizinhos discutem registrar queixas formais, buscar atendimento jurídico e pressionar por uma solução definitiva antes do período mais intenso das chuvas. Na prática, o desabamento do muro transforma um problema estrutural em pauta pública sobre direitos de moradores e deveres de empreendimentos imobiliários.

Enquanto isso, Lourenço e a família contam prejuízos e tentam reorganizar o dia a dia em meio ao cenário de concreto quebrado e terra exposta. Sem resposta da empresa e ainda dependente de laudos oficiais, o aposentado vive entre a necessidade de sair de casa e o desejo de permanecer no endereço que construiu ao longo de décadas. A pergunta que ecoa na rua, na casa e nos grupos de mensagem é a mesma: quem vai assumir a conta do risco que agora é visível no fundo do quintal?

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