Mulher tem convulsões durante menstruação e médicos suspeitam de endometriose cerebral
Paciente apresentou crises epilépticas por anos, e exames revelaram lesão no cérebro; tratamento hormonal interrompeu os episódios, mas diagnóstico permanece sem confirmação.

Uma mulher que apresentava convulsões exclusivamente durante a menstruação levou médicos a investigar uma possível endometriose no cérebro, manifestação extremamente rara da doença. A paciente começou a sofrer crises epilépticas aos 41 anos, em 2019, e exames identificaram uma lesão no hipocampo, região cerebral ligada à memória. Após iniciar tratamento hormonal, as convulsões desapareceram, e uma ressonância realizada em março de 2026 mostrou regressão acentuada ou desaparecimento da alteração.
O caso foi descrito por pesquisadores da Universidade de Medicina e Farmácia Grigore T. Popa, na Romênia, em um estudo publicado em 11 de setembro de 2026 no Journal of Clinical Medicine. Atualmente com 48 anos, a paciente foi acompanhada durante sete anos. O que despertou a suspeita dos especialistas foi a coincidência entre os episódios neurológicos e o período menstrual, mesmo sem sintomas típicos de endometriose, como cólicas intensas e dores pélvicas.
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Apesar da melhora, os médicos não conseguiram confirmar que a lesão era causada pela endometriose. A retirada de uma amostra do tecido cerebral foi considerada arriscada, e outras explicações continuam possíveis. Por isso, o diagnóstico foi classificado como presumido, e os pesquisadores ressaltam que convulsões durante a menstruação não significam necessariamente a presença da doença no cérebro.
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Convulsões aconteciam apenas durante a menstruação
As primeiras crises ocorreram em fevereiro de 2019. Durante os episódios, a mulher apresentava perda parcial ou completa da consciência, permanecia com o olhar fixo e, depois, ficava confusa, com dificuldades para recordar acontecimentos recentes.
Ela não tinha histórico de epilepsia entre parentes de primeiro grau e mantinha ciclos menstruais regulares. Também não relatava dores pélvicas, cólicas menstruais incapacitantes ou desconforto durante as relações sexuais, manifestações frequentemente associadas à endometriose.
A paciente procurou avaliação neurológica aproximadamente seis meses depois do início das convulsões.

Durante a investigação, passou a registrar em um diário as datas das crises e os dias em que menstruava. Após seis meses de acompanhamento, os médicos identificaram um padrão: todos os episódios registrados aconteciam durante o sangramento menstrual.
A descoberta levantou a possibilidade de epilepsia catamenial, condição caracterizada pela relação entre crises epilépticas e determinadas fases do ciclo menstrual.
Exames revelaram lesão em região do cérebro ligada à memória
Em agosto de 2019, uma ressonância magnética identificou uma alteração no hipocampo direito, estrutura cerebral importante para a formação de memórias e que também participa de circuitos relacionados à epilepsia.
Inicialmente, os médicos consideraram diferentes explicações para a lesão, incluindo uma malformação cerebral, infecção ou tumor.
Um eletroencefalograma, exame que registra a atividade elétrica do cérebro, não identificou descargas típicas de epilepsia. Entretanto, o procedimento foi realizado fora das crises, o que não permitia descartar a condição.
A mulher começou a utilizar medicamentos antiepilépticos, mas os episódios continuaram acontecendo.
Em 2020, uma nova ressonância revelou uma alteração semelhante a um pequeno nódulo, com aproximadamente um centímetro, na região posterior do hipocampo.
As imagens também mostraram um ponto que poderia representar cálcio ou resíduos de ferro associados a um sangramento antigo.
Esse detalhe, combinado com a relação entre as convulsões e a menstruação, levou os especialistas a considerar uma hipótese incomum: a presença de tecido semelhante ao endométrio no cérebro.
O que é endometriose cerebral?
A endometriose é uma doença crônica e inflamatória caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio, camada que reveste o interior do útero, em outras partes do organismo.
Normalmente, a condição atinge estruturas da região pélvica, como ovários, trompas e intestino. Dependendo da localização, pode provocar cólicas intensas, dor durante as relações sexuais, alterações intestinais e dificuldades para engravidar.
Entretanto, existem manifestações fora da pelve, chamadas de endometriose extrapélvica.
A endometriose cerebral é uma dessas possibilidades, mas sua ocorrência é excepcionalmente rara.
Na revisão científica apresentada pelos pesquisadores romenos, foram encontrados apenas oito relatos anteriores de endometriose cerebral na literatura médica.
Os autores também destacaram que não identificaram, entre os casos revisados, outro com uma lesão claramente descrita no hipocampo.
Ainda não existe uma explicação definitiva sobre como tecido semelhante ao endométrio poderia chegar ao cérebro.
Entre as hipóteses estudadas estão a disseminação de células pela circulação sanguínea ou linfática, a transformação de células de outros tecidos e alterações relacionadas ao desenvolvimento embrionário.
Essas possibilidades continuam sendo investigadas e não foram comprovadas no caso da paciente.
Por que a menstruação pode desencadear convulsões?
A relação entre o ciclo menstrual e as crises epilépticas é conhecida pela medicina e recebe o nome de epilepsia catamenial.
Nesse quadro, as oscilações hormonais podem influenciar a atividade elétrica dos neurônios, aumentando a frequência das crises em determinados períodos.
O estrogênio pode favorecer a excitabilidade neuronal, enquanto a progesterona e alguns de seus derivados exercem efeitos que ajudam a reduzir essa atividade.
Nos dias próximos à menstruação, os níveis de progesterona diminuem. Em mulheres predispostas, essa mudança pode contribuir para o aparecimento ou aumento das convulsões.
Segundo a literatura científica reunida pelos autores, padrões de epilepsia catamenial podem ocorrer em aproximadamente um terço a metade das mulheres em idade reprodutiva que têm epilepsia, dependendo dos critérios utilizados.
Isso não significa que essas pacientes tenham endometriose cerebral.
Na maioria das situações, a relação entre convulsões e menstruação pode ser explicada pelas próprias oscilações hormonais, sem a presença de tecido semelhante ao endométrio no sistema nervoso central.
No caso estudado, a suspeita de endometriose surgiu porque os médicos identificaram tanto a associação com o ciclo menstrual quanto uma lesão cerebral de origem desconhecida.
Tratamento hormonal interrompeu as crises epilépticas
Em 2021, após aproximadamente dois anos de investigação e tentativas de controle das convulsões com medicamentos antiepilépticos, os médicos iniciaram um tratamento hormonal.
A paciente recebeu desogestrel e dienogeste, medicamentos com ação semelhante à progesterona, utilizados em determinadas estratégias de controle da endometriose.
Segundo os pesquisadores, as convulsões e os demais sintomas neurológicos desapareceram após o início da terapia.
Três meses depois, os medicamentos antiepilépticos foram suspensos, enquanto o tratamento hormonal continuou.
A mulher permaneceu sem novas crises durante o acompanhamento.
Em setembro de 2025, após a última menstruação relatada, o tratamento hormonal também foi interrompido.
Mesmo sem os medicamentos, os episódios não voltaram a ocorrer.
Uma ressonância magnética realizada em março de 2026 mostrou que a alteração anteriormente identificada no hipocampo havia regredido significativamente ou deixado de ser visível nas imagens.
Para os pesquisadores, a melhora clínica e a evolução dos exames são compatíveis com a hipótese de uma lesão sensível às alterações hormonais.
Entretanto, esses resultados não comprovam que havia endometriose no cérebro.
Por que os médicos não confirmaram o diagnóstico?
A principal dificuldade foi a impossibilidade de analisar diretamente o tecido da lesão.
Para confirmar que a alteração cerebral era causada por endometriose, seria necessário identificar células compatíveis com a doença em uma amostra retirada da região afetada.
Como a lesão estava localizada no hipocampo, estrutura importante para a memória e outras funções neurológicas, os médicos consideraram que uma biópsia apresentaria riscos.
Sem essa análise, o diagnóstico permaneceu presumido.
Além disso, os pesquisadores reconheceram que outras condições poderiam explicar as alterações observadas nos exames.
Entre elas estão processos inflamatórios, alterações relacionadas às próprias crises epilépticas e determinadas lesões cerebrais de crescimento lento.
A melhora após o tratamento hormonal também não é suficiente para confirmar a endometriose, porque a redução das oscilações hormonais pode controlar convulsões catameniais mesmo quando não existe tecido endometrial no cérebro.
Por isso, os autores não afirmam que a paciente tinha endometriose cerebral comprovada, nem que o tratamento utilizado representa uma solução estabelecida para outros casos semelhantes.
Quais sintomas da endometriose merecem atenção?
Embora a paciente não apresentasse as manifestações ginecológicas mais comuns, a endometriose geralmente está associada a sintomas que podem interferir significativamente na qualidade de vida.
Entre os sinais que merecem avaliação médica estão:
Cólicas menstruais intensas, especialmente quando impedem atividades cotidianas.
Dor pélvica persistente ou recorrente.
Dor durante ou após as relações sexuais.
Alterações intestinais ou urinárias relacionadas ao período menstrual.
Dificuldade para engravidar.
Sangramentos menstruais intensos ou alterações do ciclo, que também podem ter outras causas.
A ausência desses sintomas não exclui completamente a doença, já que algumas pacientes podem apresentar manifestações discretas ou não perceber alterações importantes.
Entretanto, é fundamental destacar que convulsões não são um sintoma habitual da endometriose.
A suspeita de uma manifestação cerebral só deve ser considerada em situações específicas, após avaliação especializada e investigação de causas neurológicas mais comuns.
Quando procurar atendimento médico?
Qualquer pessoa que apresente uma primeira convulsão precisa de avaliação médica, independentemente de o episódio acontecer durante a menstruação ou em outro período.
Durante uma crise, é importante afastar objetos que possam causar ferimentos, proteger a cabeça da pessoa e, quando possível, posicioná-la de lado.
Não se deve tentar conter os movimentos à força nem colocar objetos ou dedos dentro da boca.
Se a convulsão durar mais de cinco minutos, se ocorrerem crises sucessivas sem recuperação da consciência ou se houver dificuldade para respirar, é necessário acionar o atendimento de emergência.
No Brasil, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) pode ser chamado pelo número 192.
Para pacientes que já convivem com epilepsia e percebem uma relação entre as crises e o ciclo menstrual, registrar as datas dos episódios pode ajudar o neurologista a identificar padrões.
A avaliação conjunta com um ginecologista também pode ser necessária, dependendo dos sintomas e dos resultados dos exames.
Medicamentos hormonais ou antiepilépticos não devem ser iniciados, modificados ou interrompidos sem orientação médica.
O que o caso pode mudar na investigação médica?
O relato publicado no Journal of Clinical Medicine reforça a importância de investigar a relação entre alterações neurológicas e o ciclo menstrual, especialmente quando as convulsões se repetem em períodos específicos e os exames não esclarecem sua origem.
Os pesquisadores destacam que a observação dos sintomas, o acompanhamento por ressonância magnética e a atuação conjunta de diferentes especialidades podem contribuir para a investigação de casos complexos.
Ao mesmo tempo, o estudo apresenta limitações importantes: descreve apenas uma paciente, não houve confirmação da lesão por biópsia e não é possível determinar com certeza se o tratamento hormonal foi responsável por todas as alterações observadas.
A endometriose cerebral continua sendo considerada extremamente rara, e o caso não indica que mulheres com convulsões durante a menstruação tenham necessariamente essa condição.
A principal contribuição da pesquisa é mostrar que o ciclo menstrual pode oferecer pistas relevantes durante uma investigação neurológica, mesmo quando a paciente não apresenta os sintomas ginecológicos mais conhecidos da endometriose.


