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Mulher de assessor da Conafer passa mal e chora em CPMI do INSS

Ingrid, mulher de um assessor da Confederação Nacional dos Agricultores Familiares (Conafer), passa mal e chora durante depoimento à CPMI do INSS em fevereiro de 2026. A cena expõe a dimensão emocional da investigação sobre descontos suspeitos que podem ter desviado cerca de R$ 100 milhões da Previdência.

Depoimento tenso em meio à investigação de R$ 100 milhões

O clima na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito que investiga irregularidades no INSS muda quando Ingrid começa a relatar sua ligação com a Conafer. Ela é mulher de um assessor da entidade, apontada por parlamentares como beneficiária de descontos automáticos em benefícios previdenciários de aposentados e pensionistas, sem autorização clara dos segurados.

Ao responder a perguntas sobre a rotina do marido e sobre a relação da família com a confederação, Ingrid demonstra nervosismo crescente. A certa altura, a voz falha, ela interrompe a fala, leva a mão ao rosto e chora. Assessores da CPMI oferecem água, e a sessão é brevemente pausada enquanto médicos do Congresso são acionados para avaliar o mal-estar.

A comissão apura se a Conafer recebeu cerca de R$ 100 milhões em descontos vinculados a contribuições associativas e serviços supostamente prestados a beneficiários do INSS. A suspeita é de que parte desses valores tenha sido debitada sem autorização expressa, em contrariedade às regras de transparência exigidas para descontos em folha e benefícios.

Parlamentares usam o episódio para reforçar o tom de gravidade do inquérito. Um integrante da CPMI resume, em reservado, a leitura feita por parte da cúpula do colegiado: “O depoimento mostra que não estamos falando só de números, mas de famílias inteiras pressionadas por esse sistema”.

Fraudes, descontos e a disputa por recursos da Previdência

O caso da Conafer entra no radar do Congresso após uma enxurrada de queixas de aposentados sobre descontos misteriosos em extratos do INSS. Em muitos casos, as cobranças ficam na faixa de R$ 30 a R$ 80 por mês, valor modesto individualmente, mas expressivo quando somado a milhares de benefícios ao longo de vários anos.

As reclamações levam o governo a compartilhar dados com a CPMI, que passa a rastrear convênios, contratos e autorizações de desconto de entidades representativas junto à Previdência. Entre essas entidades, a Conafer aparece como um dos principais alvos. A suspeita de R$ 100 milhões em cobranças irregulares, acumuladas em período ainda em apuração, transforma a confederação em símbolo de um problema mais amplo: a captura silenciosa de parte da renda de aposentados por meio de mecanismos pouco transparentes.

Ingrid é convocada exatamente por estar na fronteira entre a vida privada de um assessor e o centro do esquema sob investigação. A CPMI tenta entender se familiares de funcionários tiveram benefícios em seu nome ou se foram usados para movimentar recursos. Diante dos questionamentos, ela insiste, em tom emocionado: “Eu não participei de nada irregular. Só quero que a verdade apareça”.

A investigação não se limita à responsabilidade da Conafer. A CPMI discute também a atuação de bancos, correspondentes financeiros e sistemas internos do INSS que permitem a inclusão de descontos com poucos mecanismos de checagem. Integrantes do colegiado defendem mudanças urgentes nas regras de convênios e no controle dos chamados “consignados” e taxas associativas, que hoje podem comprometer até 45% do benefício em alguns casos, somando empréstimos e contribuições.

O abalo de Ingrid se torna, para parlamentares e especialistas, um retrato do impacto humano desse modelo. Enquanto o debate costuma girar em torno de cifras bilionárias e gráficos de déficit previdenciário, a cena de uma depoente em lágrimas diante de senadores e deputados recoloca no centro a figura do segurado, muitas vezes idoso, que descobre apenas no fim do mês que recebeu menos do que esperava.

Pressão por transparência e próximos passos da CPMI

A repercussão do depoimento reforça o argumento de entidades de defesa do consumidor e de aposentados, que cobram uma revisão profunda nos mecanismos de desconto em benefícios. Organizações do setor sugerem que qualquer débito permanente só possa ocorrer com autorização renovada periodicamente, de preferência por meio digital rastreável, com confirmação em duas etapas. O objetivo é impedir que associações se escondam atrás de contratos genéricos ou letras miúdas.

Parlamentares da CPMI discutem a apresentação de um pacote de recomendações ao Executivo e ao INSS ainda no primeiro semestre de 2026. As propostas em estudo incluem a revisão de convênios com entidades representativas, a criação de um extrato unificado e detalhado de descontos acessível por aplicativo e a obrigação de envio de aviso prévio por SMS ou carta sempre que um novo débito for incluído no benefício.

No campo político, o episódio amplia a pressão sobre a direção do INSS e sobre o Ministério da Previdência para que apresentem resultados concretos. Integrantes do governo defendem que parte da solução passa por uma cruzada contra fraudes, com auditorias periódicas nos contratos e uma força-tarefa para revisar débitos suspeitos dos últimos cinco anos. Em paralelo, a base aliada tenta blindar o Palácio do Planalto de acusações de omissão, argumentando que o problema se arrasta por diferentes gestões.

A CPMI aposta em quebras de sigilo bancário e fiscal de pessoas ligadas à Conafer para rastrear o destino dos recursos. As quebras, se aprovadas, podem redesenhar o mapa de responsabilidades e levar o caso para o Ministério Público e para a Polícia Federal. Advogados que acompanham o inquérito avaliam que, confirmado o desvio, os envolvidos podem responder por estelionato, associação criminosa e improbidade administrativa.

O choro de Ingrid não encerra nenhuma etapa da investigação, mas marca um ponto de inflexão na narrativa política em torno da CPMI. A partir de agora, deputados e senadores são cobrados não apenas a identificar responsáveis, mas a propor medidas capazes de evitar que novos descontos indevidos corroam a renda de aposentados. A comissão entra em fase decisiva com uma pergunta ainda sem resposta: quem, afinal, vai devolver o dinheiro e garantir que o sistema previdenciário volte a trabalhar a favor, e não contra, seus segurados?

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