Mudanças no campo magnético da Via Láctea intriga astrônomos
Astrônomos detectam mudanças inesperadas no campo magnético da Via Láctea em dados consolidados até 2026. As medições, feitas com radiotelescópios de última geração, redesenham a forma como a ciência enxerga a dinâmica da nossa galáxia.
Mapa invisível da galáxia ganha contornos inéditos
Os novos resultados, obtidos a partir de observações em rádio realizadas ao longo dos últimos dez anos, indicam que a intensidade e a orientação do campo magnético galáctico não são estáticas, como muitos modelos sugerem. A equipe cruza dados de grandes redes de radiotelescópios, incluindo arranjos instalados no hemisfério Sul e projetos que antecipam o futuro telescópio SKA, previsto para entrar em operação parcial até 2029. O trabalho, divulgado agora em 2026 em uma revista científica internacional, combina mais de 1 milhão de medições de polarização de ondas de rádio emitidas por estrelas, pulsares e nuvens de gás.
Esse tipo de observação permite rastrear o “esqueleto magnético” da Via Láctea, uma estrutura invisível que permeia o disco galáctico e se estende por dezenas de milhares de anos-luz. A análise mostra mudanças graduais, mas consistentes, em regiões que se estendem a cerca de 20 mil anos-luz do centro da galáxia, com variações na força do campo estimadas em até 15% quando comparadas com mapas elaborados no início da década de 2010. Não se trata de uma inversão brusca, explicam os pesquisadores, mas de um rearranjo lento, associado à rotação da galáxia, a explosões de supernovas e a fluxos de gás interestelar.
Impacto direto na compreensão da evolução da Via Láctea
O campo magnético galáctico funciona como um andaime para processos que determinam o destino do gás e da poeira que darão origem a novas estrelas. Quando esse andaime muda, mesmo que devagar, a formação estelar também responde. Segundo os autores, as regiões em que o campo parece mais organizado exibem taxas de formação de estrelas até 20% maiores do que áreas com linhas magnéticas mais caóticas, um dado que ajuda a explicar por que alguns braços da galáxia são mais ativos que outros. “Estamos vendo o campo magnético não mais como pano de fundo, mas como protagonista da história da Via Láctea”, afirma um dos pesquisadores envolvidos no estudo.
As mudanças também afetam a forma como raios cósmicos, partículas altamente energéticas, se propagam pela galáxia. O campo atua como uma espécie de trilho, guiando essas partículas e definindo quanto tempo elas permanecem presas à Via Láctea antes de escapar para o espaço intergaláctico. Simulações indicam que uma alteração de 10% na configuração do campo pode mudar em até 30% o tempo de confinamento médio de certos tipos de raios cósmicos. Esse efeito repercute na quantidade de radiação de alta energia que atravessa regiões como a vizinhança do Sistema Solar, ponto que desperta atenção não apenas de astrônomos, mas também de físicos que estudam o clima espacial e seus impactos sobre satélites e astronautas.
Próximos passos e novas janelas para a galáxia
O estudo consolida uma década de observações, mas funciona mais como ponto de partida do que como ponto final. A partir de 2026, grandes colaborações internacionais preparam campanhas de monitoramento contínuo do campo magnético da Via Láctea, com revisões de mapas a cada três ou quatro anos. O objetivo é acompanhar a evolução em tempo quase real e testar modelos que preveem ciclos magnéticos galácticos que se estenderiam por centenas de milhões de anos, algo análogo, em escala muito maior, ao ciclo de 11 anos observado no Sol. A expectativa é que, até 2030, o volume de dados disponíveis cresça ao menos cinco vezes, permitindo enxergar detalhes hoje invisíveis.
A nova cartografia magnética da galáxia também reordena prioridades na agenda de investimentos em radiotelescópios e supercomputadores. Projetos nacionais e internacionais disputam recursos para processar petabytes de informação por ano e refinar modelos capazes de conectar fenômenos microscópicos, como o movimento de partículas carregadas, a estruturas que atravessam 100 mil anos-luz. Ao mesmo tempo, o tema ganha espaço no debate público e nas políticas de ciência, com pesquisadores defendendo que entender o ambiente magnético da Via Láctea é parte de compreender o próprio endereço cósmico da humanidade. A resposta para quanto o campo magnético da nossa galáxia ainda pode mudar permanece em aberto, mas a nova geração de instrumentos já começa a encurtar essa distância.
