Ciencia e Tecnologia

Mudança climática torna os dias mais longos ao frear rotação da Terra

A mudança climática começa a alongar, literalmente, os dias na Terra. Estudo divulgado nesta sexta-feira (13) mostra que o derretimento global do gelo desacelera a rotação do planeta.

Gelo derrete, mares sobem e o relógio do planeta atrasa

O trabalho, assinado por um grupo internacional de geocientistas e climatologistas, reúne observações de satélite, dados oceânicos e modelos físicos atualizados até 2026. A conclusão é direta: à medida que gelo de calotas polares e geleiras derrete, a água se redistribui pelos oceanos, altera o equilíbrio de massas na superfície da Terra e freia, ainda que muito pouco, o giro do planeta em torno do próprio eixo.

Os pesquisadores comparam o efeito a um patinador artístico que abre os braços para girar mais devagar. “Quando a massa de água se espalha pelos oceanos, o momento de inércia da Terra aumenta e a rotação perde velocidade”, explica, em nota, um dos autores do estudo. O fenômeno já era conhecido em teoria, mas o novo levantamento mostra que, pela primeira vez desde o Plioceno tardio, há cerca de 3 milhões de anos, a influência do derretimento atual supera outras forças naturais que costumam acelerar ou desacelerar o planeta, como movimentos no interior do núcleo terrestre.

Os cientistas estimam que o aquecimento global responda hoje por uma fração mensurável do alongamento do dia, da ordem de microssegundos por ano. O valor parece irrelevante para a rotina, mas representa mudança profunda no balanço de forças que comanda a dinâmica terrestre. A rotação da Terra não é constante desde sempre: ao longo de bilhões de anos, o atrito com a Lua já alongou o dia de poucas horas para as atuais 24. A novidade é que a atividade humana entra nesse jogo, interferindo em uma engrenagem que parecia intocável.

Quando o clima mexe com marés, calendários e ciclos naturais

A redistribuição de água não afeta apenas o relógio abstrato dos físicos. Ela altera o comportamento dos oceanos e, por tabela, dos sistemas naturais que dependem dos ciclos de dia e noite. “O impacto imediato é pequeno, mas o sinal é inequívoco: o clima está escrevendo sua assinatura até na rotação do planeta”, afirma outro pesquisador ouvido pela reportagem. Marés, correntes marinhas e até a oscilação da crosta podem sofrer ajustes finos com o novo padrão de distribuição de massa.

A rotação mais lenta exige correções delicadas nos sistemas que dependem de tempo ultra preciso, como GPS, telecomunicações e redes elétricas. Desde a década de 1970, organismos internacionais inserem ou retiram “segundos bissextos” para manter os relógios atômicos alinhados com a rotação real da Terra. Com a influência crescente do derretimento de gelo, o calendário dessas correções pode precisar ser revisto nas próximas décadas. O estudo indica que, se o ritmo atual de perda de gelo se mantiver até 2050, a contribuição climática para o alongamento do dia pode superar em até 50% a de processos internos do planeta, como variações no núcleo líquido.

As mudanças também ecoam em escalas biológicas. Muitas espécies regulam ciclos de sono, reprodução e migração pela combinação de luminosidade e duração do dia. Uma alteração de poucos microssegundos anuais não muda comportamentos de imediato, mas expõe a sensibilidade do sistema Terra. “Quando enxergamos um efeito climático na rotação, entendemos que o problema deixou de ser apenas a temperatura média ou uma onda de calor extrema”, resume o estudo. A pesquisa reforça que o aquecimento global reorganiza, ao mesmo tempo, sistemas climáticos, geofísicos e biológicos.

Novas pesquisas, mais monitoramento e uma pergunta em aberto

Os autores defendem a ampliação da rede de satélites, marégrafos e estações geodésicas capazes de medir, com precisão de milímetros e microssegundos, a resposta do planeta ao aquecimento. O estudo divulgado em 13 de março de 2026 já se apoia em séries temporais de mais de 30 anos, mas os pesquisadores consideram esse período curto diante de fenômenos que operam em escalas de séculos. A recomendação é clara: acompanhar ano a ano o avanço do derretimento, principalmente na Groenlândia e na Antártida, e integrar essas informações a modelos usados em previsões climáticas e em planejamento costeiro.

A descoberta estreia um novo capítulo no debate sobre políticas ambientais. A discussão deixa de tratar apenas de centímetros de elevação do nível do mar ou de porcentuais de redução de emissões e passa a incluir uma questão mais ampla: até onde a atividade humana pode alterar propriedades físicas básicas do planeta, como a duração do dia? A resposta parcial, oferecida pelo estudo, é desconfortável. O clima já começou a mexer no relógio da Terra. O tamanho dessa interferência, e por quanto tempo ela continuará a crescer, agora depende das decisões que governos, empresas e sociedade tomam nas próximas décadas.

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