MP do Rio retoma investigação sobre suspeita de rachadinha de Carlos Bolsonaro
A Procuradoria-Geral de Justiça do Rio de Janeiro retoma a investigação sobre a suspeita de rachadinha no gabinete do ex-vereador Carlos Bolsonaro, em 24 de fevereiro de 2026. A decisão rejeita o arquivamento do caso e reacende a apuração sobre possível recolhimento irregular de salários de funcionários na Câmara Municipal do Rio.
Decisão interna reabre suspeitas no gabinete 02
O movimento do Ministério Público ocorre duas semanas depois de a Justiça do Rio determinar a devolução do inquérito à instituição. O Tribunal cobrou nova análise, após a denúncia apresentada pelo promotor Alexandre Graça atingir ex-funcionários do gabinete, mas deixar Carlos Bolsonaro fora do rol de acusados.
Ao negar o arquivamento, a cúpula do MP sinaliza que considera a apuração inconclusa. O procedimento é redistribuído a outra Promotoria, com ordem explícita para avaliar se faltaram diligências e se há elementos para aprofundar o suposto envolvimento do ex-vereador no recolhimento de parte dos salários de servidores nomeados por ele.
O caso ganha novo fôlego em um momento em que o clã Bolsonaro tenta reduzir seu passivo judicial. Investigações sobre rachadinha já atingiram o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), em um processo cuja denúncia acabou arquivada depois da anulação de provas. Agora, o foco volta ao irmão mais jovem, que exerceu mandato na Câmara do Rio por mais de duas décadas.
Em decisão do último dia 9, o subprocurador-geral de Justiça de Atribuição Originária, Marcelo Pereira Marques, classifica o arquivamento como prematuro. Ele afirma que a investigação desconsidera frentes de apuração usadas em outros casos da família, como o rastreamento de transações imobiliárias e o cruzamento de pagamentos de planos de saúde com a renda declarada.
Lacunas da apuração e disputa dentro do MP
A investigação sobre Carlos é aberta a partir de indícios de desvio sistemático de salários de assessores, prática conhecida como rachadinha. Em vez de avançar por caminhos já testados no caso de Flávio, como a verificação de compras de imóveis e o uso de dinheiro em espécie, o procedimento no Rio é encerrado sem essas etapas.
Relatórios internos mostram que o MP não chega a questionar operadoras de saúde sobre como boletos eram quitados, nem reconstrói a origem de pagamentos de alto valor. No inquérito do senador, esse tipo de cruzamento ajuda a apontar possível lavagem de dinheiro por meio de pagamentos em espécie, com valores incompatíveis com a renda formal.
No caso de Carlos, a apuração registra uma diferença importante de comportamento financeiro entre os irmãos. Enquanto Flávio faz poucas retiradas em dinheiro, o ex-vereador saca quase 90% do próprio salário, mês a mês. A movimentação intensa em espécie cria um rastro mais difícil de seguir e dificulta a identificação de eventuais repasses a terceiros.
Mesmo assim, o promotor Alexandre Graça conclui que não há irregularidade comprovada nas contas do filho 02 do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ao oferecer denúncia apenas contra ex-assessores, ele afirma que “as diligências que se fizeram necessárias foram realizadas” e reage às críticas internas: “o questionamento feito é fruto do desconhecimento da investigação”.
A reação da cúpula do MP expõe uma disputa de abordagem dentro da instituição. Ao mandar o caso para outra Promotoria, Marcelo Pereira Marques indica que, para um personagem com relevância política e longa atuação em cargo público, a exigência de esgotar as linhas de apuração precisa ser mais rigorosa.
Quando o arquivamento é noticiado, no ano passado, Carlos Bolsonaro diz receber a decisão “com tranquilidade” e se declara indignado com a denúncia contra os ex-servidores. “Confio em todos os meus funcionários e tenho absoluta certeza que todos os envolvidos demonstrarão a fragilidade da acusação e suas inocências”, afirma à época. Procurada novamente agora, sua defesa não se manifesta até a publicação deste texto.
Pressão política, imagem pública e transparência
A retomada da investigação mantém Carlos Bolsonaro sob o radar do Ministério Público, mesmo fora do mandato na Câmara, encerrado em 2024. O ex-vereador segue figura central no núcleo político e digital do bolsonarismo, o que amplia o alcance simbólico do caso. Cada movimento processual pode repercutir em futuros projetos eleitorais dele e do pai.
No plano prático, a decisão reforça a expectativa de que casos de rachadinha deixem de ser tratados como desvio menor e passem a integrar o rol de crimes ligados à corrupção. O modelo consiste em nomear servidores, muitas vezes sem trabalho claro, e reter parte do salário de forma clandestina. O dinheiro público pago como vencimento retorna em espécie para quem controla o gabinete.
Ao insistir na reabertura do caso, o MP do Rio tenta responder a críticas de seletividade e de leniência com políticos influentes. A comparação com o processo de Flávio, arquivado após a anulação de provas colhidas por quebras de sigilo consideradas irregulares, ainda pesa na opinião pública e entre integrantes da carreira.
Entidades de controle e especialistas em integridade veem na decisão um teste para a capacidade de o sistema de Justiça lidar com esquemas mais difusos, baseados em dinheiro vivo e em relações de lealdade pessoal. Sem rastros eletrônicos claros, a prova depende de cruzamento de dados, entrevistas longas e reconstrução minuciosa do fluxo de valores.
A forma como o caso de Carlos avança também pode influenciar investigações semelhantes em câmaras municipais e assembleias pelo país. Indícios de rachadinha já aparecem em apurações locais em diferentes estados, muitas vezes engavetadas diante da dificuldade de comprovar o retorno de valores ao agente político.
Próximos passos e incógnitas do caso
A nova Promotoria responsável deve decidir se pede diligências adicionais, como quebra de sigilo bancário mais ampla, análise de transações de imóveis e requisição detalhada de dados de planos de saúde. Também pode ouvir novamente ex-assessores e funcionários da Câmara, em busca de versões divergentes sobre a rotina de pagamentos no gabinete.
O prazo para esse reexame não é público, mas, na prática, a expectativa é que os próximos meses definam se Carlos passa de investigado a denunciado ou se o caso volta a caminhar para o arquivo. Uma eventual denúncia reacenderia o debate sobre a responsabilidade de agentes eleitos na montagem de estruturas informais de arrecadação em seus gabinetes.
Mesmo sem condenação, o simples fato de a investigação ser retomada mantém o ex-vereador associado a um tipo de prática que o Ministério Público anuncia combater há pelo menos uma década. A resposta institucional, agora, precisa mostrar se o histórico da família Bolsonaro com a Justiça será considerado um agravante político ou apenas pano de fundo.
Enquanto a nova equipe analisa planilhas, extratos e depoimentos, o caso deixa uma pergunta em aberto: até que ponto o sistema jurídico brasileiro está disposto a enfrentar a lógica da rachadinha quando ela envolve nomes com peso nacional?
