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Mourinho minimiza denúncia de racismo de Vini Jr. e mira em comemoração

José Mourinho minimiza, em 17 de fevereiro de 2026, a denúncia de racismo feita por Vinicius Junior contra Gianluca Prestianni após Benfica x Real Madrid, e desloca o foco para a comemoração de gol do brasileiro. A fala do técnico português provoca reação imediata no debate sobre racismo no futebol europeu.

Coletiva pós-jogo muda o foco da denúncia

O jogo de ida das oitavas da Champions League em Lisboa termina com vitória do Real Madrid e mais um capítulo na trajetória de Vinicius Junior contra o racismo. No segundo tempo, o camisa 7 aponta Gianluca Prestianni, de 18 anos, atacante do Benfica, como autor de insultos racistas. Kylian Mbappé apoia o companheiro de ataque e diz ao árbitro que ouviu ofensas dirigidas ao brasileiro.

O juiz aciona o protocolo antirracismo da Uefa, previsto para casos de discriminação em campo, e interrompe a partida por alguns minutos. Jogadores se reúnem, a arbitragem conversa com capitães e comissários, mas o jogo recomeça sem identificação pública de responsáveis ou anúncio de medidas concretas. Nas redes, o episódio passa a ser tratado como mais um caso em uma série que se arrasta desde 2021, quando Vini Jr. se torna alvo recorrente em estádios da Espanha.

A expectativa recai sobre Mourinho, treinador do Benfica desde meados de 2025 e personagem central em qualquer noite de Champions. O português de 63 anos, dono de três títulos europeus como técnico, chega à sala de imprensa após a derrota e é questionado sobre a acusação feita por Vinicius. Em vez de um posicionamento firme, oferece distância: “Uma coisa é o que Vinicius diz, outra coisa é o que diz o Prestianni. São coisas completamente diferentes”. Não há palavra clara de condenação ao racismo, nem sinal de apoio à investigação do caso.

O treinador aproveita a resposta para inverter o foco. Lembra o golaço de Vini Jr., marcado pouco depois da metade do segundo tempo, e critica a comemoração do brasileiro, que dança na bandeirinha de escanteio diante de uma Luz lotada, com mais de 60 mil torcedores. Diz que o atacante “acabou com o jogo” e sugere que atitudes assim ajudam a “disparar situações” que se repetem em estádios pelo mundo.

Relativização alimenta narrativas contra a vítima

A estratégia não é nova na carreira de Mourinho. Desde Porto, Chelsea e Inter, nos anos 2000, o técnico cultiva o papel de antagonista. Usa declarações fortes para dominar o noticiário, proteger seus elencos ou desviar a atenção de derrotas e atuações ruins. Agora, porém, aplica o mesmo roteiro a uma denúncia de racismo em pleno palco principal do futebol europeu em 2026.

Ao associar a dança de Vini Jr. à escalada de tensões em campo, o treinador sugere uma espécie de relação de causa e efeito. A leitura encontra eco em parte da imprensa europeia e em torcedores que já veem o brasileiro como provocador, menos de três anos depois de episódios de ofensas racistas em Valência, Barcelona e outras cidades espanholas. A narrativa se consolida em camadas: primeiro se discute o gesto, depois se dilui a gravidade da ofensa.

Especialistas em combate ao racismo no esporte insistem em um ponto central, repetido também por jogadores negros em diversas ligas: não existe provocação que justifique uma ofensa racial. O gatilho do racismo é o racista. Quando uma figura com o peso simbólico de Mourinho relativiza a denúncia e desloca o debate para a comemoração, abre espaço para que agressões do tipo sejam tratadas como reação de torcidas e atletas a comportamentos “exagerados” em campo.

A fala também contrasta com expectativas mínimas de responsabilidade social atribuídas a treinadores e clubes, em um cenário em que ligas e federações anunciam campanhas anuais contra o racismo, exibem faixas, slogans e números de telefone para denúncia. Na prática, o episódio em Lisboa mostra um abismo entre discurso institucional e comportamento concreto. O protocolo da Uefa é acionado, a partida para, mas nada de fato acontece além da formalidade.

Para Vinicius, o episódio soma uma nova camada à imagem construída nos últimos anos. O atacante acumula gols, títulos e prêmios individuais, mas também episódios de hostilidade em arquibancadas, decisões judiciais em andamento e uma cobrança permanente para que modere reações em campo. A cada novo caso, cresce a pressão para que ele ajuste a própria postura, enquanto o foco se afasta do agressor.

Pressão sobre clubes e próximos movimentos

A repercussão tende a aumentar nas próximas semanas, conforme Uefa, Real Madrid e Benfica são pressionados por entidades antirracismo e por atletas a assumir posições mais claras. Grupos que atuam na Espanha e em Portugal já cobram, em comunicados públicos, punições esportivas mais duras, como perda de mando de campo e multas progressivas para clubes reincidentes. O tempo entre o jogo de 17 de fevereiro e o confronto de volta, marcado para início de março, vira janela para decisões políticas e disciplinares.

Dentro do vestiário, jogadores observam o comportamento de técnicos e dirigentes para medir até onde podem ir quando denunciam agressões. Uma resposta titubeante tem efeito pedagógico ao contrário: sinaliza que o sistema tolera a dúvida sempre que o assunto é racismo. No curto prazo, isso pode inibir novas denúncias em campo. No médio prazo, alimenta a sensação de impunidade entre quem comete o ato discriminatório.

Para Mourinho, a entrevista em Lisboa reforça o personagem que constrói há mais de duas décadas, mas cobra um preço diferente. Em um ambiente em que atletas se posicionam mais, patrocinadores monitoram reputações e ligas defendem agendas de diversidade, relativizar um caso de racismo já não é apenas uma frase de efeito. É um gesto político, com impacto direto sobre a credibilidade de clubes e competições.

O caso expõe um dilema que ultrapassa as quatro linhas: até que ponto o futebol está disposto a rever hierarquias e papéis para enfrentar o racismo com a mesma seriedade que dedica a esquemas táticos e contratações milionárias. Enquanto a resposta não vem de forma contundente, a cena se repete. O protocolo é acionado, o jogo para por alguns minutos, o apito soa de novo e a bola volta a rolar como se nada tivesse acontecido.

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