Ciencia e Tecnologia

Motorola lança celular ultrapremium e mira contrabando de 20% do mercado

A Motorola entra em março de 2026 no segmento de smartphones ultrapremium no Brasil e mira um alvo além da Samsung: o comércio ilegal de celulares, que já responde por 20% do mercado nacional. À frente da estratégia, o CEO da Motorola Brasil, Rodrigo Vidigal, defende que não há competição saudável possível enquanto um em cada cinco aparelhos circula fora das regras fiscais e de segurança.

Entrada no topo do mercado em meio a distorções

O novo smartphone, pensado para disputar espaço na faixa mais cara do mercado, marca uma guinada na atuação da empresa no país. A Motorola quer falar com o consumidor disposto a pagar mais de R$ 7 mil por um aparelho, faixa hoje dominada por modelos da linha Galaxy, da Samsung, e por importados de alto padrão. Esse movimento ocorre num ambiente em que, segundo executivos do setor, cerca de 20% dos celulares em uso no Brasil entram por canais paralelos, sem recolhimento de impostos.

Rodrigo Vidigal enxerga a combinação entre o lançamento e o enfrentamento ao comércio ilegal como duas faces da mesma disputa. “Não faz sentido investir em tecnologia de ponta, em fábrica e em rede de assistência se o mercado continua tolerando aparelhos que chegam sem nota, sem garantia e sem qualquer controle”, afirma. Para ele, a presença massiva de produtos irregulares impede que marcas dispostas a produzir localmente consigam competir apenas com preço e inovação.

Competição com Samsung e o peso do mercado cinza

O segmento ultrapremium cresce em valor mesmo com o consumo pressionado. Em 2025, segundo estimativas de consultorias do setor, os aparelhos acima de R$ 6 mil já concentram perto de 10% da receita total em smartphones no país, embora representem uma parcela bem menor em volume. É nessa faixa que a Samsung construiu uma liderança confortável, aproveitando o apelo de telas dobráveis, câmeras avançadas e integração com outros dispositivos.

Ao decidir subir a aposta, a Motorola tenta reocupar um espaço que já teve em gerações passadas de topo de linha, mas que perdeu ao focar intermediários e modelos de entrada. O salto agora vem acompanhado de discurso mais duro contra o comércio ilegal. “Quando um celular entra sem pagar imposto, ele carrega uma vantagem de 30% a 40% no preço final”, afirma um executivo do setor ouvido pela reportagem. “É uma concorrência que nenhum fabricante instalado aqui consegue enfrentar sozinho.” Na prática, essa diferença empurra parte do consumidor para o mercado cinza, especialmente em regiões de fronteira e no comércio online menos fiscalizado.

Impacto para indústria, governo e consumidor

O avanço do contrabando corrói a base sobre a qual empresas como a Motorola planejam investimentos de longo prazo. Fábricas instaladas em Estados como São Paulo e Manaus operam com margens apertadas e dependem de previsibilidade fiscal para ampliar linhas de produção, contratar e desenvolver fornecedores locais. Cada aparelho vendido sem nota significa menos arrecadação de ICMS, IPI e contribuições federais, além de esvaziar fundos regionais que financiam pesquisa e infraestrutura.

Para o consumidor, o efeito imediato costuma ser o preço menor. A conta, porém, aparece em outras frentes: ausência de garantia formal, dificuldade de acesso a assistência técnica e maior exposição a aparelhos sem certificação de segurança elétrica ou de radiofrequência. Em um segmento ultrapremium, em que um smartphone pode custar o equivalente a mais de dois salários mínimos, o risco de perder o investimento em um defeito sem cobertura pesa mais. É esse argumento que a Motorola pretende explorar em sua comunicação, ao associar o novo modelo a uma experiência de pós-venda robusta e suporte de software por vários anos.

Luta contra o contrabando e próximos passos

O movimento de Rodrigo Vidigal ocorre num momento em que associações da indústria pressionam por medidas mais duras contra o contrabando. Entre as propostas em discussão estão o reforço da fiscalização em fronteiras, cruzamento de dados de importação com vendas em marketplaces e campanhas de esclarecimento sobre o impacto econômico dos aparelhos ilegais. O setor estima que a fatia de 20% em celulares ilegais represente, por ano, uma perda bilionária em impostos e em receita para fabricantes formais.

A aposta da Motorola no topo da prateleira testa até que ponto o consumidor brasileiro está disposto a pagar mais por um aparelho de origem rastreada, garantia clara e atualização constante. Se der certo, o movimento pode elevar o patamar tecnológico dos modelos produzidos ou montados no país e forçar rivais, incluindo a Samsung, a acelerar inovações e estratégias de fidelização. Se o contrabando continuar ocupando um quinto do mercado, porém, o esforço de subir o nível da competição pode esbarrar em um limite estrutural. A partir deste lançamento, a resposta não virá apenas das vitrines, mas também das fronteiras, dos gabinetes em Brasília e das escolhas de compra feitas a cada novo smartphone levado para casa.

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