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Morte do cão Orelha leva polícia a cumprir mandados em Florianópolis

A Polícia Civil cumpre nesta segunda-feira (26) mandados de busca e apreensão contra suspeitos da morte de Orelha, cão comunitário da Praia Brava, em Florianópolis. A ofensiva mira ao menos dois adolescentes e um adulto identificados por câmeras de segurança e depoimentos de moradores.

Comunidade em luto e investigação em marcha

Orelha, também chamado de Preto, vive há mais de dez anos entre quiosques, casas e barcos de pescadores na Praia Brava, no Norte da ilha. O cachorro é adotado informalmente pelos moradores, que o alimentam, levam ao veterinário quando necessário e o tratam como parte da rotina do bairro.

Na madrugada de 15 de janeiro, o cão aparece gravemente ferido em uma área de mata próxima à faixa de areia. Moradores relatam que ele é atacado a pauladas, sofre múltiplos ferimentos e mal consegue se manter em pé. Levado às pressas a uma clínica veterinária particular, não resiste às lesões e acaba submetido à eutanásia, procedimento que os profissionais consideram a única alternativa diante da gravidade do quadro.

A morte do animal provoca reação imediata da vizinhança. Grupos de moradores organizam buscas por imagens de segurança, pressionam o poder público em redes sociais e cobram uma resposta rápida da polícia. Ativistas da causa animal começam a acompanhar o caso e a relatar episódios anteriores de violência contra cães e gatos de rua na região Norte de Florianópolis.

O avanço da investigação chega nesta semana às residências de três suspeitos, alvo dos mandados concedidos pela Justiça. As buscas são conduzidas pela Delegacia de Proteção Animal do Departamento de Investigação Criminal da Capital (DPA/DIC), que procura celulares, roupas, bastões e qualquer objeto que possa comprovar a participação no espancamento de Orelha.

De acordo com o delegado-geral da Polícia Civil de Santa Catarina, Ulisses Gabriel, ao menos quatro adolescentes aparecem como suspeitos de envolvimento direto na agressão. “Os investigados foram identificados com base em câmeras de segurança e relatos de testemunhas”, afirma o delegado, que acompanha as diligências na região.

Violência filmada e pressão por punição

Um dos relatos que mais acirram o clima no bairro vem de uma moradora da Praia Brava, que publica em rede social que o ataque teria sido filmado por um vigia. Segundo ela, o homem registra a agressão e compartilha o vídeo, mas acaba ameaçado pelos pais de alguns suspeitos após a divulgação das imagens. A gravação passa a ser tratada como peça-chave para a apuração.

A 10ª Promotoria de Justiça de Florianópolis informa que a investigação entra na fase de oitivas, momento em que o Ministério Público e a Polícia Civil coletam depoimentos formais de testemunhas e envolvidos. Diversas pessoas já falam com os investigadores, e novas escutas estão marcadas para os próximos dias, à medida que novas informações chegam.

A Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente, à Mulher e ao Idoso (Dpcami) é a responsável por ouvir os adolescentes apontados como autores das agressões. O núcleo especializado deve concluir esta etapa ainda em janeiro e remeter o procedimento ao Ministério Público para análise.

Em nota, o Ministério Público de Santa Catarina ressalta que o caso segue o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que define regras específicas para apurar atos infracionais cometidos por menores de 18 anos. “Os encaminhamentos observam o que está previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente, que estabelece procedimentos próprios para a apuração de atos infracionais e aplicação de medidas socioeducativas, sempre mediante análise técnica e decisão do sistema de Justiça, respeitando os princípios e garantias inerentes aos adolescentes em conflito com a lei”, informa o órgão.

A morte de Orelha reacende o debate sobre a eficácia da Lei Sansão, em vigor desde 2020, que prevê pena de dois a cinco anos de reclusão para maus-tratos a cães e gatos, além de multa e proibição de guarda. No caso de adolescentes, no entanto, a legislação penal não se aplica diretamente, e as sanções podem variar de advertência e prestação de serviços comunitários até internação em unidade socioeducativa.

Comoção vira pressão por políticas públicas

O episódio extrapola as fronteiras da Praia Brava e domina grupos de mensagens, perfis locais no Instagram e páginas de proteção animal em Santa Catarina. Em poucas horas, publicações sobre o caso acumulam milhares de compartilhamentos. Moradores passam a exigir ações concretas da prefeitura e do Estado para monitorar casos de crueldade contra animais e oferecer abrigo seguro a cães de rua.

Organizações de proteção animal defendem a criação de um protocolo permanente de atendimento a denúncias, com equipes treinadas para chegar rapidamente aos locais e garantir a coleta de provas. Integrantes desses grupos contam que, em muitos casos, os maus-tratos não chegam a virar inquérito por falta de flagrante, medo de testemunhas ou perda de evidências nos primeiros dias.

Na Praia Brava, comerciantes que convivem com Orelha há mais de uma década relatam um misto de revolta e sensação de perda. Pescadores que alimentam o cão por anos ajudam a pagar o atendimento veterinário e depois custeiam o enterro. Moradores organizam uma pequena homenagem na faixa de areia, com flores e cartazes pedindo “justiça para o Orelha”.

A percepção de que a violência contra animais cresce na região reforça a leitura de que o caso não é isolado. Delegados e promotores ouvidos ao longo dos últimos anos apontam que câmeras de segurança, redes sociais e maior mobilização das vítimas indiretas tornam esses episódios mais visíveis, mas não necessariamente mais frequentes. A diferença está na rapidez com que a indignação coletiva se converte em pressão institucional.

Próximos passos da investigação e legado do caso Orelha

Com a conclusão das oitivas pela Dpcami e o envio do inquérito ao Ministério Público, a expectativa é de que o caso tenha uma definição inicial ainda no primeiro trimestre de 2026. O órgão analisa se oferece representação por ato infracional contra os adolescentes e se denuncia o adulto identificado nas diligências, com base nas provas reunidas pelas polícias especializadas.

Se a Justiça confirmar a participação dos jovens na morte do cão, o processo corre em sigilo, como determina o ECA. Medidas socioeducativas podem incluir acompanhamento psicológico, restrição de liberdade e atividades obrigatórias em instituições indicadas pelo Juizado da Infância e Juventude. No caso do adulto, se houver denúncia e condenação, a pena prevista na Lei Sansão pode superar cinco anos quando há agravantes.

Na esfera política, vereadores de Florianópolis articulam propostas para reforçar a rede de proteção animal, com previsão de mais recursos para castração, identificação de cães comunitários e campanhas educativas nas escolas. Integrantes de conselhos municipais defendem que o nome de Orelha batize algum projeto de conscientização voltado a crianças e adolescentes, numa tentativa de transformar a violência em um alerta permanente.

Moradores da Praia Brava dizem que a memória do cão já altera pequenas rotinas: mais gente registra o dia a dia dos animais de rua, anota placas de carros suspeitos e compartilha informações com a polícia. A pergunta que ecoa na orla, entre quiosques e trilhas da região, é se a morte de um cachorro conhecido de todos será suficiente para, enfim, mudar a forma como a cidade lida com seus animais mais vulneráveis.

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