Morte de PM em SP expõe suspeita de feminicídio dentro da corporação
A policial militar Gisele Alves Santana, 32, é encontrada morta com um tiro na cabeça no apartamento onde mora com o marido, no Brás, em 18 de fevereiro de 2026. A investigação, antes tratada como suicídio, passa a apurar suspeita de homicídio ou feminicídio, em meio a relatos de relacionamento abusivo e pedidos de socorro feitos pela vítima.
Relacionamento abusivo, briga e versão contestada
Gisele vive em um apartamento simples na região central de São Paulo com o tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto, com quem se casa em 2024. Na noite de quarta-feira, vizinhos ouvem discussão e, em seguida, um disparo. Minutos depois, a policial é socorrida com um ferimento na cabeça e levada ao Hospital das Clínicas, mas não resiste.
O primeiro registro da morte, feito no 8º Distrito Policial, no Brás, classifica o caso como “suicídio consumado”. A versão não convence a família da policial, nem parte dos investigadores. Dias antes de morrer, Gisele envia mensagens a parentes pedindo ajuda e relatando que não suporta mais o clima dentro de casa. “Pai, vem me buscar porque eu não aguento mais”, escreve, segundo relatos exibidos pelo programa Fantástico, da TV Globo.
A mãe, Marinalva Vieira Alves Santana, descreve uma filha apaixonada pela própria rotina, pela farda e, sobretudo, pela menina de 7 anos que cria de um relacionamento anterior. “O sonho dela era viver e dar o melhor para a filha”, diz. A criança, hoje órfã de mãe, vive com a família materna enquanto a Justiça decide sobre a guarda definitiva.
Geraldo, oficial de alta patente da corporação, afirma em depoimento que Gisele se mata após uma discussão sobre o divórcio. Segundo o relato, ele comunica à mulher que quer a separação, vai tomar banho e escuta um barulho que julga ser uma porta batendo. Ao sair do banheiro, diz encontrar a esposa já ferida, com a arma na mão. A pistola usada no disparo pertence ao próprio tenente-coronel.
O inquérito, porém, esbarra em contradições e indícios que fragilizam a hipótese de suicídio. Não há carta de despedida. Gisele planeja sair de casa, busca apoio da família e mantém rotina com a filha. “Ela amava viver”, reforça a mãe. A descrição destoa de um perfil suicida clássico e reforça a suspeita de violência doméstica escalando até um possível feminicídio.
Pressão, controle e alerta ignorado
Marinalva lembra que acompanha de perto a trajetória da filha na PM, iniciada em 2014. Apoia a decisão de Gisele de entrar na corporação e comemora cada avanço na carreira. “Ela ficou muito feliz com a conquista”, afirma. O brilho, segundo a família, começa a se apagar quando o relacionamento com o tenente-coronel se consolida. “Ela era uma menina feliz. Só que depois que ela ficou com ele, a alegria dela a gente viu que se apagou”, relata uma tia ao Fantástico.
O controle atinge até detalhes da vaidade. A mãe conta que o marido impede a policial de usar batom e salto alto. Perfume, só escondido no quartel, para não despertar ciúmes. Amigas descrevem o comportamento do oficial como ríspido e distante. “Ele não tinha contato visual com a gente, ele não fazia o mínimo esforço de empatia, de diálogo, de cordialidade”, afirma Cynthia Ornellas, amiga de Gisele. Ela define a morte como “tragédia anunciada”.
A própria Gisele se refere ao marido como “louco” em conversas com pessoas próximas. Questionada se tem medo dele, hesita. Amigos e parentes enxergam um ciclo de violência emocional, típico de relacionamentos abusivos: controle, isolamento, desqualificação, medo. O pedido de socorro por mensagem, revelado poucos dias antes do crime, dá contornos de urgência ao risco que ela corre.
A mudança de classificação do caso, de suicídio para “morte suspeita”, ocorre após análise inicial da cena, oitivas de familiares e a divulgação das mensagens. A nova tipificação permite ao delegado responsável apurar com mais amplitude e incluir a possibilidade de homicídio qualificado por feminicídio, crime previsto desde 2015 no Código Penal.
Organizações de direitos humanos e coletivos de mulheres policiais cobram transparência nas investigações e questionam o tratamento dado ao tenente-coronel. No velório, realizado em 20 de fevereiro, a mãe de Gisele resume a desconfiança com o sistema de Justiça criminal e com a própria corporação. “A única coisa que a gente espera é que uma patente não fale mais alto do que a justiça. Porque se fosse um praça, pode ter certeza que já estaria preso”, afirma.
Feminicídio na polícia e pressão por respostas
A morte de Gisele expõe uma fratura sensível nas forças de segurança: a violência doméstica que acontece dentro de casas de policiais, muitas vezes armados e protegidos por estruturas hierárquicas fechadas. Dados nacionais indicam que, em 2023, o Brasil registra ao menos um caso de feminicídio consumado a cada 6 horas, segundo levantamento de órgãos de segurança pública e entidades independentes. Entre as vítimas, há servidoras da própria área, como policiais civis e militares.
Especialistas em violência de gênero apontam três fatores de risco no caso: a presença de arma de fogo em casa, o histórico de comportamento controlador do parceiro e os pedidos explícitos de ajuda feitos pela vítima. A combinação, que deveria acionar mecanismos de proteção, passa despercebida pela rede de apoio formal. Não há registro público de medida protetiva de urgência pedida por Gisele contra o marido até a data da morte.
Entidades que acompanham o caso defendem mudanças internas na Polícia Militar paulista. Entre as propostas, estão protocolos específicos para apurar denúncias de violência doméstica envolvendo policiais, suspensão cautelar de porte de arma em casos de risco e monitoramento psicológico contínuo de casais em conflito. O episódio também reacende a discussão sobre canais de denúncia seguros para mulheres que vivem com agentes armados.
A repercussão quebra a barreira dos quartéis e se espalha pelas redes sociais. Hashtags pedem justiça por Gisele e cobram investigação independente, sem interferência da hierarquia militar. Grupos feministas lembram que a Lei Maria da Penha, em vigor desde 2006, prevê medidas protetivas rápidas, mas depende de que a vítima consiga romper o silêncio e tenha confiança nas instituições.
Investigações em curso e cobrança por justiça
O inquérito segue em andamento no 8º DP, com apoio de perícias complementares e novas oitivas de testemunhas. Vizinhos que relatam ter ouvido discussão pouco antes do disparo voltam a ser chamados para detalhar horários, barulhos e eventual movimentação estranha no prédio. A perícia balística deve esclarecer distância do tiro, posição do corpo e dinâmica do disparo.
O Ministério Público acompanha o caso e pode oferecer denúncia por homicídio qualificado por feminicídio contra o tenente-coronel, caso considere que as evidências apontam para autoria e intenção. A defesa do oficial sustenta a tese de suicídio e afirma colaborar com as autoridades. A corporação abre procedimento interno para apurar a conduta do militar e aguarda o desfecho criminal para definir eventuais sanções disciplinares.
Familiares de Gisele cobram celeridade. A mãe, que a incentiva a entrar na PM aos 20 e poucos anos, agora se agarra à memória da filha para pressionar as autoridades. “Minha filha era muito amorosa. Só tinha amor”, diz. Amigos repetem que avisos não faltam e que o Estado falha em reconhecer o perigo que ela corre.
A morte da policial militar, em um apartamento no centro de São Paulo, não encerra apenas uma carreira iniciada em 2014. Expõe as brechas de um sistema que ainda falha em proteger mulheres, mesmo quando elas vestem a farda do Estado e têm acesso a mecanismos legais de proteção. O desfecho do inquérito, esperado para as próximas semanas, dirá se a Justiça enxerga na cena do crime um suicídio isolado ou mais um capítulo de um padrão de violência contra mulheres que o país ainda não consegue interromper.
