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Morte de Lô Borges completa um ano: relembre a trajetória do ícone do Clube da Esquina

Cantor e compositor mineiro morreu em 2 de novembro de 2025, aos 73 anos, e deixou uma obra que influenciou gerações de músicos brasileiros

Morte de Lô Borges completa um ano: relembre a trajetória do ícone do Clube da Esquina

A esquina das ruas Divinópolis e Paraisópolis, no bairro Santa Tereza, na região Leste de Belo Horizonte, entrou para a história da música brasileira nos anos 1960. Era ali que um grupo de jovens se reunia para conversar, tocar violão e compartilhar composições. Entre eles estava Salomão Borges Filho, o Lô Borges, que se tornaria um dos principais nomes do Clube da Esquina.

Ao lado de Milton Nascimento, Márcio Borges, Beto Guedes, Toninho Horta, Wagner Tiso e outros músicos, Lô participou da criação de uma sonoridade que combinava rock, jazz, bossa nova, psicodelia e elementos da música brasileira. O movimento ultrapassou as fronteiras de Minas Gerais e ganhou reconhecimento internacional, especialmente pelo álbum “Clube da Esquina”, lançado em 1972.

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Neste domingo, 2 de novembro, a morte de Lô Borges completa um ano. O cantor e compositor morreu aos 73 anos, em Belo Horizonte, depois de uma carreira que se estendeu por mais de cinco décadas. Autor de músicas como “O Trem Azul”, “Um Girassol da Cor de Seu Cabelo”, “Paisagem da Janela” e “Tudo Que Você Podia Ser”, o artista continuou produzindo novas composições até os últimos meses de vida.

Sua obra permanece presente em gravações, apresentações e homenagens realizadas por músicos de diferentes gerações. Em 2026, por exemplo, parte desse repertório voltou a ganhar destaque com lançamentos póstumos e projetos dedicados à sua trajetória.

A infância em BH e o encontro com Milton Nascimento

Nascido em Belo Horizonte, em 10 de janeiro de 1952, Lô Borges cresceu em uma família numerosa, na qual a música fazia parte do cotidiano. Era filho de Salomão Borges e Maria Fragoso Borges, conhecida como Dona Maricota, e irmão do compositor Márcio Borges, que se tornaria um de seus parceiros mais frequentes.

O encontro com Milton Nascimento ocorreu quando Lô ainda era criança. Em 1963, a família Borges morava no Edifício Levy, no Centro da capital mineira. Milton, que havia chegado de Três Pontas, também frequentava o prédio e começou a desenvolver uma amizade com os irmãos.

Em uma entrevista ao programa “Conversa com Bial”, da TV Globo, Lô contou que conheceu Milton enquanto descia as escadas do edifício para comprar pão e leite. Durante o trajeto, ouviu uma voz acompanhada por um violão e decidiu procurar de onde vinha a música. Ao chegar ao quinto andar, encontrou o futuro parceiro.

A convivência aproximou os dois e, com o passar dos anos, deu origem a uma parceria que se tornaria uma das mais conhecidas da música popular brasileira. Ainda na adolescência, Lô desenvolveu uma forte ligação com os Beatles. As guitarras, as harmonias vocais e as experimentações dos músicos britânicos influenciaram sua maneira de compor.

Em entrevista publicada pela revista Noize, em dezembro de 2024, o cantor recordou a importância daquele período e a liberdade criativa que encontrava na música. A relação com Milton, por sua vez, era marcada tanto pela admiração artística quanto pela amizade construída dentro da família Borges.

Como surgiu o Clube da Esquina?

O nome Clube da Esquina nasceu dos encontros de jovens músicos em Santa Tereza, especialmente no cruzamento das ruas Divinópolis e Paraisópolis.

Segundo um especial publicado pela Folha de S.Paulo, a expressão surgiu quando o grupo recusou o convite de um amigo para frequentar um clube mais sofisticado. A brincadeira era que eles já tinham o próprio clube, justamente naquela esquina.

O que começou como um ponto de encontro se transformou em uma rede de compositores e instrumentistas. O Clube da Esquina não era propriamente uma banda, mas um grupo de artistas que colaboravam entre si e compartilhavam referências musicais.

Na época, Milton Nascimento já começava a ganhar projeção nacional, enquanto Lô Borges ainda desenvolvia suas primeiras composições. Entre os demais integrantes estavam Beto Guedes, Toninho Horta, Wagner Tiso, Fernando Brant, Ronaldo Bastos, Nelson Angelo e Tavito.

A diversidade musical dos integrantes ajudou a construir uma identidade própria. Havia influência dos Beatles e de outros grupos de rock, mas também do jazz, da bossa nova e da tradição musical brasileira.

O grupo se consolidou durante a ditadura militar, período marcado pela censura e pela repressão política. Suas composições abordavam temas como liberdade, amizade, saudade e esperança, frequentemente por meio de letras poéticas e arranjos elaborados.

O álbum de 1972 que marcou a história da MPB

Em 1972, Milton Nascimento e Lô Borges lançaram “Clube da Esquina”, álbum duplo que se tornaria uma das principais referências da música brasileira.

O disco reuniu 21 faixas e contou com a participação de músicos ligados ao movimento mineiro. Entre as composições estavam “O Trem Azul”, “Um Girassol da Cor de Seu Cabelo”, “Tudo Que Você Podia Ser”, “Cais” e “Nada Será Como Antes”.

Com apenas 20 anos, Lô dividiu o protagonismo do projeto com Milton, que já havia alcançado reconhecimento como cantor e compositor.

As gravações reuniram músicos como Beto Guedes, Toninho Horta, Wagner Tiso, Robertinho Silva e Nelson Angelo, além das contribuições de letristas como Márcio Borges, Fernando Brant e Ronaldo Bastos.

A obra se destacou pela combinação de diferentes estilos musicais, com guitarras elétricas, instrumentos acústicos, arranjos vocais e harmonias que se afastavam das estruturas convencionais da música popular.

O reconhecimento internacional cresceu nas décadas seguintes. O álbum passou a ser estudado e revisitado por músicos e críticos, além de conquistar novos ouvintes fora do Brasil.

A publicação americana Pitchfork, especializada em música, dedicou uma análise ao disco em 2018, destacando a riqueza de suas composições e a colaboração entre os integrantes do movimento.

O “disco do tênis” e a primeira carreira solo

O mesmo ano de lançamento de “Clube da Esquina” marcou outro momento importante na carreira do cantor. Lô Borges lançou seu primeiro álbum solo, intitulado “Lô Borges”, que ficou conhecido como o “disco do tênis”. Na capa, fotografada por Cafi, aparecia um par de tênis usados sobre um fundo azul.

O trabalho surgiu depois que a gravadora Odeon ofereceu ao artista a oportunidade de gravar um disco próprio. O problema era que boa parte das músicas que ele havia composto recentemente já tinha sido utilizada no álbum com Milton Nascimento.

Com pouco tempo para preparar o repertório, Lô iniciou uma rotina intensa de composição e gravação. As influências dos Beatles, de Jimi Hendrix e do rock progressivo ficaram ainda mais evidentes nas novas canções.

O álbum apresentou faixas como “Calibre”, “Aos Barões” e “Eu Sou Como Você É”. Apesar de não alcançar grande repercussão comercial na época, ganhou reconhecimento nas décadas seguintes.

O trabalho também chegou ao repertório de referências de músicos estrangeiros. Alex Turner, vocalista do Arctic Monkeys, citou “Aos Barões” como uma das inspirações relacionadas à criação do álbum “Tranquility Base Hotel & Casino”, lançado em 2018.

Depois daquele período de intensa produção, Lô decidiu se afastar da indústria fonográfica. Em entrevistas posteriores, contou que deixou compromissos com a gravadora e passou algum tempo viajando pelo Brasil. O retorno aos discos solo aconteceria em 1979, com “A Via-Láctea”.

Uma carreira que atravessou gerações

Embora tenha alcançado reconhecimento ainda muito jovem, Lô Borges não ficou restrito à produção musical dos anos 1970.

Depois de “A Via-Láctea”, lançou trabalhos como “Nuvem Cigana”, “Sonho Real”, “Meu Filme”, “Feira Moderna” e “Um Dia e Meio”. Sua discografia também inclui álbuns produzidos ao longo das décadas de 2000 e 2010.

Na virada dos anos 2000, a parceria com o Skank aproximou o compositor de uma nova geração de ouvintes. Uma das músicas mais conhecidas desse período foi “Dois Rios”, composta por Lô Borges, Samuel Rosa e Nando Reis e lançada pelo Skank em 2003.

A relação com Samuel Rosa foi além de uma colaboração pontual. Os dois dividiram o palco em apresentações e lançaram, em 2016, o registro “Samuel Rosa & Lô Borges: Ao Vivo no Cine Theatro Brasil”.

O reconhecimento dos companheiros de música

Ao longo de sua trajetória, Lô Borges recebeu o reconhecimento de músicos com quem conviveu e dividiu gravações.

Milton Nascimento foi seu parceiro mais conhecido. A amizade começou quando os dois ainda viviam em Belo Horizonte e se manteve por décadas, atravessando diferentes momentos da carreira de ambos.

Após a morte de Lô, uma homenagem publicada pela equipe responsável pelas redes sociais de Milton recordou essa relação: “Lô Borges foi – e sempre será – uma das pessoas mais importantes da vida e obra de Milton Nascimento.”A publicação também destacou o vínculo entre os artistas e a importância do álbum “Clube da Esquina” para a música brasileira.

Outro músico que recordou a importância de Lô foi Toninho Horta, guitarrista e compositor que participou da construção do Clube da Esquina. Durante o velório do cantor, em Belo Horizonte, em novembro de 2025, Toninho falou sobre a amizade iniciada nos anos 1960 e destacou o talento do parceiro, a quem chamou de: “Rei das harmonias e melodias”.

O legado de Lô Borges continua em 2026

Mesmo depois de sua morte, músicas inéditas e novos projetos continuam ampliando a discografia de Lô Borges. Em junho de 2026, foi lançado o álbum póstumo “A Estrada”, trabalho que reúne dez composições feitas em parceria com seu irmão Márcio Borges.

As gravações haviam sido concluídas antes da morte do cantor. Márcio conta que o irmão mantinha uma rotina constante de criação, chegando a compor duas ou três músicas por semana.

O músico deixou ao menos quatro álbuns inéditos finalizados. Entre eles estavam trabalhos em parceria com Márcio e com a médica e compositora Manuela Costa. Outras homenagens também estão previstas. Além do legado musical eternizado na voz e composições, o artista também deixou o filho Luca Arroyo Borges, que nasceu em 1998.

Luca Arroyo Borges no colo do pai em 1998 | Crédito: Arquivo Pessoal/Divulgação Clube da Esquina

A banda mineira Transmissor prepara uma releitura de “A Via-Láctea”. Outro projeto reunirá artistas de diferentes gerações interpretando canções de Lô. Um show-tributo gratuito também está programado para 8 de dezembro, no Parque Municipal de Belo Horizonte, dentro do festival Janela Sonora.

No bairro Santa Tereza, a memória do artista também recebeu uma homenagem em agosto de 2026. O projeto “Raízes da Esquina” instalou placas comemorativas em árvores dedicadas a Lô Borges e Fernando Brant, próximo ao local que deu origem ao Clube da Esquina.

As iniciativas mostram como a obra do compositor permanece em circulação, tanto por meio de novas gravações quanto de homenagens realizadas na cidade onde nasceu.

A morte de Lô Borges e a despedida em Belo Horizonte

Lô Borges morreu na noite de 2 de novembro de 2025, aos 73 anos, em Belo Horizonte. O cantor estava internado desde 17 de outubro no Hospital Unimed Contorno, após apresentar um quadro de intoxicação medicamentosa.

De acordo com o boletim divulgado pela unidade de saúde, a causa da morte foi falência múltipla de órgãos. A morte ocorreu às 20h50 de um domingo e foi anunciada publicamente na manhã seguinte.

Durante a internação, o artista permaneceu na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), precisou de ventilação mecânica, passou por uma traqueostomia e iniciou tratamento por hemodiálise.

A despedida ocorreu no dia 4 de novembro, no Palácio das Artes, na região Central de Belo Horizonte. Fãs, familiares, amigos e músicos compareceram ao velório.

A morte também provocou homenagens em Santa Tereza. No dia seguinte ao anúncio, admiradores se reuniram na esquina das ruas Divinópolis e Paraisópolis, local que havia marcado o início da história do Clube da Esquina.

Um ano depois, o endereço continua associado à trajetória do cantor. Ali nasceu parte de um repertório que levou o nome de Belo Horizonte para a história da música brasileira, por meio de canções que permanecem sendo ouvidas, regravadas e apresentadas por novas gerações.