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Morte de Khamenei expõe derrota estratégica dos EUA no Irã

Os Estados Unidos sofrem em 2026 o que o analista Scott Ritter chama de “derrota estratégica humilhante” no Irã. A morte do líder supremo Ali Khamenei, em vez de enfraquecer o regime, fortalece a estrutura de poder em Teerã e mantém viva a agenda do aiatolá.

Operação falha e cálculo político invertido

A eliminação de Ali Khamenei, alvo central da liderança iraniana desde 1989, ocorre sob a expectativa em Washington de ruptura imediata do sistema político em Teerã. A leitura predominante entre falcões norte-americanos é que a figura do aiatolá sustenta a coesão institucional do país e que sua morte abriria espaço para disputas internas, protestos de rua e negociações favoráveis ao Ocidente.

O cenário descrito por Scott Ritter segue na direção oposta. O ex-oficial de inteligência dos Marines afirma, em análise reproduzida pelo portal Military Affairs e pela Sputnik Brasil, que a operação “não produziu o efeito político esperado”. Segundo ele, a tentativa de golpe cirúrgico no topo do sistema iraniano termina por consolidar, e não desarticular, a teia de poder construída em torno do cargo de líder supremo.

Ritter sustenta que a estratégia de “decapitação de regime” fracassa mais uma vez no Oriente Médio, mais de vinte anos depois da invasão do Iraque em 2003. “Se os Estados Unidos não conseguem provocar a queda do sistema político do Irã, isso significa que Washington perdeu a guerra estratégica”, afirma. Na avaliação do analista, a Casa Branca erra ao subestimar a capacidade das instituições iranianas de absorver o choque e produzir uma sucessão rápida.

Em Teerã, o aparelho estatal reage em bloco. O Conselho de Especialistas se movimenta em poucas horas para garantir a linha de sucessão. A cúpula religiosa e militar divulga comunicados coordenados, reforça o discurso de resistência e apresenta a morte de Khamenei como sacrifício em uma guerra prolongada contra os Estados Unidos e Israel.

Regime se fecha, arsenal se mantém e região sente impacto

O portal Military Affairs aponta que a capacidade militar iraniana permanece “significativa”, mesmo após ataques conduzidos por Israel e pelos próprios EUA contra bases e centros de comando. O país mantém reservas de mísseis de curto e médio alcance em alerta, distribuídas por diferentes regiões, e conserva intacta a capacidade de atingir alvos estratégicos em um raio de centenas de quilômetros, incluindo o Golfo Pérsico.

O Corpo de Guardiães da Revolução Islâmica, o IRGC, assume o protagonismo público nas horas seguintes ao assassinato. Em nota oficial, o comando promete “retaliar os responsáveis” e fala em resposta proporcional à “agressão ao coração da República Islâmica”. O Estado-Maior das Forças Armadas divulga comunicado separado, mas alinhado, no qual assegura uma “resposta dura a Washington” e afirma que “a causa defendida por Khamenei continuará a ser levada adiante”.

A mensagem interna é clara: o sistema permanece, apesar da perda do líder. A narrativa de martírio transforma Khamenei em símbolo mobilizador, reduz o espaço político para dissidências e empurra setores moderados a se alinharem ao discurso de cerco externo. Em vez de fissuras imediatas, a morte do aiatolá produz uma espécie de pacto de sobrevivência entre líderes religiosos, Guardiães da Revolução e burocracia civil.

Na região, aliados e adversários tomam nota. Países do Golfo, que abrigam bases militares norte-americanas e importam bilhões de dólares em armamento dos EUA, veem o risco de se tornarem alvos indiretos de retaliação. Israel acompanha a escalada com atenção redobrada, em meio à possibilidade de novos lançamentos de mísseis de precisão e de ações de grupos aliados do Irã no Líbano, na Síria e no Iêmen.

As implicações alcançam também a diplomacia europeia. O fracasso da estratégia de mudança de regime enfraquece vozes em Bruxelas que defendem a linha dura máxima contra Teerã e reforça o argumento de quem cobra canais de diálogo, inclusive sobre o programa nuclear retomado em ritmo mais acelerado desde o colapso do acordo de 2015.

Pressão sobre Washington e uma guerra mais longa

A análise de Ritter aponta para um custo político imediato dentro dos Estados Unidos. Se a operação de alto risco não entrega a mudança de regime prometida, a Casa Branca precisa explicar aos eleitores por que expôs tropas, aliados e rotas estratégicas de energia a um conflito prolongado. A avaliação de “derrota estratégica humilhante” toca no ponto mais sensível para qualquer liderança em Washington: a percepção de perda de controle.

O revés no Irã alimenta o debate sobre a capacidade norte-americana de sustentar várias frentes de tensão simultâneas. Com o orçamento de defesa acima de US$ 800 bilhões anuais desde meados da década de 2020, legisladores questionam a eficácia de doutrinas que apostam na derrubada rápida de governos hostis como solução para impasses regionais complexos.

No campo iraniano, a leitura é a oposta. A continuidade institucional após a morte de Khamenei é apresentada como prova de resiliência. Dirigentes próximos ao núcleo do poder falam em “vitória moral” e comemoram o que chamam de fracasso do inimigo em “quebrar a espinha dorsal” do sistema. A promessa de vingança do IRGC, somada à manutenção do arsenal em alerta, prolonga a sensação de que o Oriente Médio entra em um ciclo de instabilidade mais profundo.

Analistas ouvidos por veículos especializados avaliam que, se Washington de fato perdeu a “guerra estratégica” com Teerã, como sugere Ritter, a consequência direta é uma redução da capacidade dos EUA de ditar os termos de segurança na região. Isso abre espaço para maior protagonismo de potências como Rússia e China, interessadas em explorar brechas deixadas pelos norte-americanos em acordos de energia, infraestrutura e defesa.

O futuro imediato se desenha em torno de duas frentes: a institucional, que testa a solidez da sucessão no comando iraniano, e a militar, que aguarda o formato da prometida retaliação. A pergunta que permanece, no sexto mês após o assassinato de Khamenei, é se Washington encontra uma saída política para um impasse que começou com a aposta em uma operação cirúrgica e terminou expondo os limites do seu poder no coração do Oriente Médio.

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