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Morte de enfermeiro por agentes do ICE isola Trump e acirra crise nos EUA

A morte do enfermeiro Alex Pretti, 37, baleado por agentes federais do ICE em Minneapolis no sábado (24/1), desencadeia uma crise política em Washington. Vídeos que mostram o americano desarmado, filmando a abordagem e ajudando uma mulher, forçam o governo Donald Trump a recuar de acusações de terrorismo e aprofundam o desgaste da política migratória agressiva da Casa Branca.

Vídeos desmentem versão oficial e expõem desgaste da Casa Branca

As primeiras horas após o tiroteio seguem o roteiro conhecido do trumpismo: negar, atacar, colar o rótulo de terrorista. Autoridades do governo descrevem Pretti como um “terrorista doméstico” disposto a “massacrar policiais”. A secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, afirma que ele “empunha” uma arma e quer “causar danos”. O conselheiro presidencial Stephen Miller o chama de “aspirante a assassino”.

O enredo começa a ruir ainda no domingo (25/1). Ao menos sete vídeos do momento em que agentes imobilizam Alex Pretti circulam nas redes e em canais de TV. As imagens mostram o enfermeiro gravando a ação do ICE com o celular e tentando ajudar uma mulher empurrada ao chão, antes de os dois serem atingidos com spray de pimenta. Em nenhum quadro ele aparece armado quando é derrubado.

Uma análise do BBC Verify, núcleo de checagem de dados e imagens da BBC, reforça a conclusão: nos registros disponíveis, Pretti não carrega arma ao ser imobilizado. O Departamento de Segurança Interna (DHS) sustenta que ele porta uma pistola semiautomática 9 mm e dois carregadores. A polícia local informa que o enfermeiro é proprietário legal de uma arma, algo permitido pela lei de Minnesota, que autoriza o porte oculto em locais públicos mediante licença.

Em poucas horas, o contraste entre a narrativa oficial e o que milhões de americanos assistem no celular se torna insustentável. A família reage em uma nota dura. “As mentiras repugnantes contadas sobre nosso filho pelo governo são repreensíveis e nojentas”, dizem os pais de Pretti, cobrançando a divulgação da verdade sobre o que ocorre na manhã de sábado.

O caso repete, com efeitos amplificados, o roteiro de três semanas antes, quando agentes do ICE matam a tiros Renee Good, também em Minneapolis. Na ocasião, o governo a acusa de usar o carro como arma para atacar os agentes. Testemunhas, autoridades locais e parentes contestam a versão. A sequência de mortes por forças federais na mesma cidade intensifica a percepção de descontrole.

Em Minneapolis, o chefe de polícia Brian O’Hara verbaliza o cansaço. Ele lembra que sua corporação prende centenas de criminosos violentos por ano sem disparar um tiro. “As pessoas não aguentam mais”, afirma. “Isso não é sustentável.” A frase ecoa em um país que convive com protestos recorrentes contra a violência policial desde 2020.

Mudança de discurso, pressão do Congresso e risco de nova paralisação

Nas 48 horas seguintes ao tiroteio, a Casa Branca abandona, passo a passo, a postura de enfrentamento direto. A porta-voz Karoline Leavitt evita endossar fala de Stephen Miller quando é questionada, na segunda-feira (26/1), se o presidente concorda com a descrição de Pretti como assassino em potencial. Ela promete apenas uma “investigação completa”.

Donald Trump também recua. Na terça-feira (27/1), em conversa rápida com repórteres em frente à Casa Branca, responde “não” ao ser questionado se vê o enfermeiro como alguém que age “como um assassino”. Em seguida, volta a afirmar, sem provas divulgadas, que não gosta “do fato de que ele estava armado”, mas classifica a morte como “um incidente muito lamentável”. Em entrevista à Fox News, agrupa os casos de Renee Good e Alex Pretti como “terríveis”.

A estratégia se desloca. Em vez de sustentar a narrativa inicial, o governo passa a culpar o Partido Democrata pelo ambiente que, segundo Trump, leva ao confronto em Minneapolis. Em publicação na Truth Social, o presidente chama a morte de “trágica” e atribui o episódio ao “caos provocado pelos democratas”, linha repetida pelo vice JD Vance.

A resposta divide até o Partido Republicano. O governador de Vermont, Phil Scott, fala em “fracasso completo” dos esforços federais em Minnesota, citando falhas de coordenação, treinamento e liderança. No limite, ele vê “intimidação federal deliberada e incitação de cidadãos americanos”. O senador John Curtis, de Utah, critica a reação “prematura” de Kristi Noem, que, segundo ele, “ocorreu antes de todos os fatos serem conhecidos e enfraqueceu a confiança” na atuação das forças de segurança.

No Congresso, presidentes das comissões de segurança interna da Câmara e do Senado anunciam audiências públicas sobre a atuação do ICE e do DHS. Os democratas enxergam uma oportunidade para reabrir o debate sobre deportações em massa e o uso de força letal por agentes federais em solo americano.

A pressão coincide com uma negociação orçamentária delicada. Senadores democratas avisam que vão bloquear qualquer ampliação de verba para o DHS, do qual o ICE faz parte, caso não haja novos mecanismos de controle. “Vou votar contra qualquer financiamento para o DHS até que controles adicionais sejam implementados para responsabilizar o ICE”, declara o senador Brian Schatz, do Havaí. Ele afirma que os episódios repetidos de violência são “ilegais, desnecessariamente escalonados e tornam todos nós menos seguros”.

O impasse pode levar a uma nova paralisação parcial do governo já na sexta-feira (30/1). No ano anterior, democratas sustentam um fechamento recorde em defesa de subsídios à saúde, mas recuam sem grandes conquistas. O fantasma desse desgaste ronda a bancada, que tradicionalmente enfrenta desvantagem nas pesquisas quando o tema é imigração e segurança pública.

Na tentativa de conter danos, Trump anuncia o envio do ex-chefe de deportações Tom Homan para comandar as forças federais em Minnesota. O presidente o chama de “czar da fronteira” e escreve que Homan é “duro, mas justo” e se reportará diretamente a ele. Homan atua no governo Barack Obama e é visto por aliados como operador mais contido que Kristi Noem e o comandante da Patrulha da Fronteira, Gregory Bovino.

Direitos civis em foco e incerteza sobre rumo da política migratória

A mudança de tom não significa, por ora, mudança de política. O governo mantém a defesa de deportações em massa e da presença ampliada de agentes do ICE dentro do território americano. O que muda é a forma de comunicação, sob o peso de pesquisas desfavoráveis. Levantamento da CBS divulgado antes do fim de semana mostra que 61% dos entrevistados veem o ICE como “duro demais” ao abordar e deter pessoas, e 58% desaprovam a política migratória de Trump.

Em Minnesota, autoridades locais tentam aproveitar a brecha para abrir um novo canal. O procurador-geral do Estado, Keith Ellison, diz à BBC que a chegada de Homan pode criar “um novo caminho de diálogo” com Washington. “Não quero descartar a possibilidade de que posições razoáveis prevaleçam”, afirma. Ao mesmo tempo, ele lembra que “estamos exatamente aqui porque o governo federal adotou posições injustificáveis”.

Trump informa ter tido uma “conversa muito boa” por telefone com o governador democrata Tim Walz na segunda-feira. Segundo o presidente, os dois “parecem estar em sintonia”. O tom contrasta com semanas de trocas ásperas entre Casa Branca e governo estadual desde o caso Renee Good e indica, ao menos, tentativa de reduzir a temperatura em Minneapolis.

Organizações de direitos civis enxergam no caso Alex Pretti um marco simbólico. Um enfermeiro, branco, legalmente armado em um Estado que permite o porte, é morto enquanto registra em vídeo uma ação federal. A cena foge do estereótipo que a retórica de segurança de Trump costuma explorar, baseado em imigrantes, fronteira e cidades consideradas violentas.

O episódio reforça a percepção de que a ofensiva migratória atinge não apenas estrangeiros em situação irregular, mas o cotidiano de cidadãos americanos. Também alimenta questionamentos jurídicos sobre o uso de força letal em operações de imigração longe da fronteira, dentro de bairros residenciais.

As próximas semanas devem ser marcadas por investigações paralelas, audiências no Capitólio e disputa por narrativas em ano altamente polarizado. Em jogo está não só a responsabilização pela morte de Alex Pretti, mas o futuro da política migratória que ajudou a reconduzir Trump à Casa Branca em 2024.

Enquanto vídeos do tiroteio seguem se espalhando e novas testemunhas surgem, a Casa Branca tenta calibrar a resposta entre a base que exige firmeza e um eleitorado mais amplo que demonstra fadiga com cenas de violência estatal. A pergunta que permanece em Minneapolis e em Washington é se a morte de um enfermeiro em uma calçada gelada será o ponto de inflexão ou apenas mais um capítulo em uma escalada que o próprio governo já descreve como um “barril de pólvora”.

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