Morte de El Mencho em operação militar desencadeia onda de violência no México
Nemesio “El Mencho” Oseguera Cervantes, líder do Cartel Jalisco Nova Geração, morre no domingo (22) durante operação militar em Jalisco. Em poucas horas, o país mergulha em uma nova onda de violência, com bloqueios, incêndios e confrontos que deixam dezenas de mortos e expõem a fragilidade da segurança mexicana.
Operação cirúrgica, reação imediata
A ofensiva que resulta na morte de El Mencho começa em Tapalpa, região montanhosa de Jalisco, no oeste do México. Militares, apoiados por aeronaves da Força Aérea e pela força especial de reação imediata da Guarda Nacional, cercam o líder do cartel na tarde de domingo. A ação se baseia em semanas de inteligência conjunta entre México e Estados Unidos, alimentada por uma fonte improvável: uma parceira amorosa do próprio chefão.
O ministro da Defesa, Ricardo Trevilla, afirma nesta segunda-feira (23) que as informações decisivas partem dessa mulher, que relata deslocamentos, rotinas e esconderijos do narcotraficante. Com os dados em mãos, a Secretaria de Defesa Nacional monta uma operação para capturá-lo vivo. O plano não resiste ao primeiro disparo.
Ao se aproximarem do alvo, militares são recebidos a tiros por homens do CJNG. O confronto é descrito pelo governo como intenso e de curta duração. Quatro integrantes do cartel morrem no local. Outros, entre eles El Mencho, ficam gravemente feridos. Oseguera é colocado em uma aeronave rumo à Cidade do México, mas não resiste e morre durante o transporte aéreo, segundo o comunicado oficial.
A Secretaria de Defesa informa a apreensão de armas pesadas e veículos blindados, incluindo lançadores de foguetes “capazes de derrubar aeronaves e destruir veículos blindados”. Um funcionário da Defesa dos Estados Unidos diz à CNN que uma força-tarefa interinstitucional americana “tem um papel” na operação, sem detalhar qual. Washington já trata o CJNG como organização terrorista desde fevereiro de 2025.
Explosão de violência e pressão internacional
Enquanto o governo ainda consolida os números da operação, as ruas de Jalisco já ardem. Supostos membros do cartel e de grupos aliados incendeiam ônibus, bloqueiam estradas e atacam farmácias e lojas de conveniência. Imagens obtidas pela CNN mostram colunas de fumaça sobre Puerto Vallarta, um dos principais destinos turísticos mexicanos para americanos e canadenses.
O impacto inicial recai sobre as forças de segurança. Segundo Omar García Harfuch, secretário de Segurança e Proteção Cidadã, pelo menos 25 integrantes da Guarda Nacional morrem em confrontos no estado de Jalisco. Ele contabiliza ainda a morte de uma civil e afirma que “30 criminosos também perdem a vida” nos embates que se espalham por sete estados. Cerca de 70 pessoas são presas em diferentes regiões.
Nos aeroportos, o medo se sobrepõe aos anúncios de embarque. Em Guadalajara, passageiros correm pelo terminal e se abrigam perto de pontes de embarque enquanto fumaça é vista ao longe. Em Puerto Vallarta, um grande grupo de viajantes é escoltado por funcionários uniformizados pela pista. “Venho ao México desde criança e nunca vi nada parecido”, diz à CNN uma americana da Califórnia, ainda em choque.
Companhias aéreas como American Airlines e Air Canada suspendem temporariamente voos para Puerto Vallarta. Turistas ficam retidos em hotéis e aeroportos, à espera de novas orientações. A Agência Federal de Aviação Civil informa que os aeroportos de Guadalajara, Puerto Vallarta e Tepic retomam as operações normais na tarde de domingo, mas parte das empresas mantém cancelamentos por precaução.
A violência rapidamente deixa de ser apenas um problema interno mexicano. O Departamento de Estado dos EUA recomenda que cidadãos americanos “busquem abrigo e permaneçam em residências ou hotéis” até novo aviso. Canadá, Reino Unido, Austrália, China, Índia e Nova Zelândia emitem alertas semelhantes, pedindo que seus cidadãos evitem deslocamentos, mantenham perfil discreto e sigam as ordens de confinamento em cidades como Puerto Vallarta.
Em meio à escalada, a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, tenta conter o pânico e afirma que “a paz, a segurança e a normalidade estão sendo mantidas”. Do outro lado da fronteira, o presidente americano, Donald Trump, aumenta a pressão. “O México precisa intensificar seus esforços contra os cartéis e as drogas!”, escreve em rede social, horas depois da notícia da morte de El Mencho.
O fim de um chefão, não do cartel
A morte de Oseguera atinge o coração do Cartel Jalisco Nova Geração, mas está longe de significar o fim do grupo. Ex-policial, nascido em Michoacán em julho de 1966, El Mencho constrói, ao longo de três décadas, um império criminoso que se estende por pelo menos 40 países. Os Estados Unidos oferecem US$ 15 milhões por informações que levassem à sua captura. Ele é acusado de liderar o contrabando de metanfetamina, cocaína e fentanil, droga sintética que mata milhares de americanos por ano.
Nos anos 1990, Oseguera é condenado na Califórnia por conspiração para distribuir heroína e cumpre três anos de prisão. De volta ao México, passa pela polícia de Jalisco antes de mergulhar definitivamente no crime organizado. Ao fundar e consolidar o CJNG, assume o posto de principal chefe do narcotráfico mexicano após a prisão de Joaquín “El Chapo” Guzmán, do Cartel de Sinaloa.
O cartel que ele deixa para trás movimenta bilhões de dólares e funciona, segundo a DEA, como uma empresa de franquias, capaz de manter operações mesmo após a queda de seus líderes. Eduardo Guerrero, diretor da consultoria mexicana Lantia Intelligence, estima que o CJNG seja formado por cerca de 90 organizações regionais. “Essa fragmentação significa que será necessária uma estratégia mais complexa e sofisticada para enfraquecê-la e desmembrá-la”, afirma ele à CNN no início do ano.
Na prática, a morte de El Mencho abre duas frentes de incerteza. De um lado, aumenta a pressão política sobre o governo mexicano, que precisa demonstrar controle após as cenas de caos em Jalisco e em outros estados. De outro, cria espaço para disputas internas e recomposição de forças dentro do CJNG, com risco de novas ondas de violência em áreas-chave para o tráfico.
O que vem depois da operação em Jalisco
Autoridades mexicanas reforçam o discurso de que a cooperação com os Estados Unidos continua e deve se aprofundar. A própria operação que mata El Mencho é apresentada como símbolo dessa parceria, embora o governo ainda não detalhe o papel exato das agências americanas. O cenário sugere uma coordenação mais estreita em inteligência, rastreamento financeiro e controle de precursores químicos usados na produção de fentanil.
Para a população mexicana, a pergunta imediata é outra: se o dia seguinte à morte do chefão traz mais segurança ou apenas inaugura uma nova fase de guerra entre facções. Nas zonas turísticas, hotéis monitoram comunicações oficiais e ajustam protocolos de segurança. Em Jalisco e em estados vizinhos, moradores convivem com a presença reforçada de tropas e com a memória recente de ônibus em chamas bloqueando rodovias.
Especialistas em segurança ouvidos ao longo dos últimos anos alertam que a aposta em operações espetaculares contra grandes chefes, como El Mencho ou El Chapo, não basta para interromper o fluxo de drogas rumo aos Estados Unidos. A estrutura em franquias, a capilaridade internacional e a capacidade de corromper instituições garantem resiliência aos cartéis. A morte do líder do CJNG representa um golpe importante, mas deixa aberta a questão central: quem ocupará o vácuo de poder e a que custo para um México já exausto da guerra contra o narcotráfico.
