Morte de ‘El Mencho’ em Jalisco redefine guerra ao narco no México
O narcotraficante Nemesio Oseguera Cervantes, o “El Mencho”, morre em uma operação militar e de inteligência em Tapalpa, Jalisco, realizada em fevereiro de 2026. A ação, articulada a partir de informações de uma amante, encerra a caçada a um dos criminosos mais procurados do mundo e abre uma disputa de poder dentro do Cartel Jalisco Nueva Generación.
Caçada a um dos homens mais procurados do planeta
O desfecho acontece em uma casa de campo na região montanhosa de Tapalpa, a cerca de 140 quilômetros de Guadalajara, reduto histórico do cartel. Depois de anos de buscas e operações frustradas, os serviços de inteligência mexicanos identificam um elo frágil na rede de proteção de El Mencho: a rotina de uma de suas amantes.
Investigadores monitoram por semanas contatos telefônicos, deslocamentos de veículos e registros de hospedagem ligados a essa mulher, apontada em relatórios anteriores como próxima ao chefe do cartel. Segundo fontes de segurança, ela entra no imóvel onde o traficante se esconde dias antes da operação, permanece por algumas horas e sai sob escolta discreta de homens armados.
O padrão da movimentação chama a atenção dos agentes. O trajeto é curto, mas repetido, sempre com forte aparato de proteção. A avaliação da inteligência é direta: não se trata de uma visita casual, e sim da rotina de um líder escondido há anos. Com essa conclusão, o Exército e unidades de elite definem o cerco em poucas horas.
Ao amanhecer, equipes se aproximam por terra, apoiadas por helicópteros e drones. Há troca de tiros intensa no entorno da propriedade. El Mencho é atingido com gravidade e morre ainda durante a ação, antes de ser transferido para um hospital. As autoridades confirmam a identidade por meio de dados biométricos e registros oficiais, pondo fim à trajetória do homem que, segundo o Departamento de Justiça dos EUA, controla bilhões de dólares em rotas de cocaína, metanfetamina e fentanil.
Documentos vazados em 2022, conhecidos como Guacamaya Leaks, já mencionavam o nome de Guadalupe Moreno Carrillo como possível parceira do chefe do cartel após uma separação. Naquele momento, o dado parecia apenas mais um fragmento de fofoca criminal em meio a milhares de páginas. Em 2026, a mesma personagem se transforma no fio que leva ao esconderijo do traficante.
Três mulheres no centro da queda de El Mencho
A operação que mata El Mencho expõe uma disputa de poder que não se limita aos bunkers armados. Três mulheres ocupam posições decisivas nesse capítulo da guerra ao narcotráfico: a amante que entrega, a mulher que constrói e a presidente que capitaliza politicamente a ofensiva.
Se a amante ajuda a confirmar o endereço de Tapalpa, é Rosalinda González Valencia quem sustenta, por anos, a estrutura financeira do Cartel Jalisco Nueva Generación. Irmã de Abigael González Valencia, antigo líder do grupo Los Cuinis, ela se casa com Nemesio Oseguera no que investigadores descrevem como “diplomacia via casamento”.
Na prática, o relacionamento significa acesso imediato a capital, rotas, contatos políticos e proteção em estados estratégicos. Relatórios de inteligência apontam que, a partir dos anos 2010, o CJNG se expande com velocidade incomum no México, ocupando espaços deixados por rivais como o cartel de Sinaloa em ao menos dez estados. Rosalinda coordena parte das finanças, segundo autoridades, e ajuda a lavar recursos em negócios legais, de imóveis a empresas de serviços.
Com a morte do marido, ela surge como possível sucessora ou, no mínimo, peça chave na rearrumação do poder interno. Especialistas em segurança preveem uma disputa entre facções ligadas à família González Valencia e chefes regionais do cartel. Em cenários semelhantes no passado, como depois da captura de Joaquín “El Chapo” Guzmán, conflitos internos se traduzem em mais violência em estradas, fronteiras e cidades médias.
No plano político, Claudia Sheinbaum, primeira mulher a comandar o México, transforma a operação em símbolo de sua estratégia de segurança. Desde a posse, ela enfrenta pressão direta de Washington para reduzir o fluxo de fentanil que chega aos Estados Unidos. A morte de um dos principais fornecedores do mercado ilegal norte-americano, classificado por organismos internacionais como epicentro de uma crise de overdose que mata dezenas de milhares de pessoas por ano, reforça o discurso de endurecimento.
Assessores da Presidência destacam que a ofensiva em Jalisco não é ação isolada, mas parte de um plano de médio prazo, alinhado com agências dos EUA. A cooperação inclui troca de dados em tempo real, rastreamento de rotas marítimas e reforço de controles fronteiriços. O governo Trump, em Washington, reage com declarações públicas de apoio e promete ampliar acordos de segurança com a Cidade do México.
Impacto na guerra ao narcotráfico e os próximos passos
A morte de El Mencho altera o equilíbrio de forças no submundo do crime organizado. O Cartel Jalisco Nueva Generación, que em menos de 15 anos se projeta como um dos grupos mais violentos do continente, perde o líder que coordena tanto as finanças quanto a estratégia militar. A sigla, conhecida por ataques espetaculares com armas de guerra e bloqueios de rodovias, entra em um período de incerteza.
A experiência mexicana mostra que a eliminação de um chefe raramente dissolve uma organização criminosa, mas a fragmenta. Sem uma liderança central, células locais ganham autonomia, disputam territórios e ampliam o uso da força para marcar posição. Cidades de médio porte, rotas rurais e fronteiras internas tendem a sentir primeiro essa reacomodação, com aumento de homicídios, sequestros e confrontos com forças de segurança.
Do ponto de vista institucional, o governo federal apresenta a operação em Tapalpa como prova de que, após anos sem capturas de grande impacto, o Estado volta a impor limites ao crime organizado. A mensagem tem destinatário duplo. Internamente, sinaliza resposta às críticas de que o país se acostuma a conviver com cartéis quase como poderes paralelos. Externamente, em especial para os Estados Unidos, demonstra disposição em dividir custos políticos e operacionais de uma estratégia mais assertiva.
A presença de mulheres em todos os flancos desse episódio também redesenha o imaginário sobre o narcotráfico. A amante que inadvertidamente leva os agentes ao esconderijo, a operadora financeira apontada como possível sucessora e a presidente que autoriza e sustenta politicamente a ação militar revelam um cenário em que o gênero já não define participação apenas na periferia do crime ou da política.
Pesquisadores da área afirmam que a atuação feminina em posições de comando em cartéis, forças de segurança e governos ainda é subestimada em relatórios oficiais e estudos acadêmicos. A queda de El Mencho expõe, em um único caso, o alcance dessas trajetórias cruzadas e abre espaço para novas investigações sobre como essas presenças influenciam decisões estratégicas, padrões de violência e respostas do Estado.
O pós-El Mencho começa com perguntas em aberto. Rosalinda conseguirá consolidar um comando estável em meio à pressão militar e à cobiça de rivais internos e externos? A vitória política de Claudia Sheinbaum se sustenta se a violência subir em regiões disputadas pelo CJNG? A forma como o México responde a essas questões nos próximos meses ajuda a definir não apenas o futuro de um cartel, mas também os limites e os custos da atual ofensiva contra o narcotráfico no país.
