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Morte de ‘El Mencho’ em Jalisco acende alerta às vésperas da Copa

As forças de segurança mexicanas matam Nemesio “El Mencho” Oseguera Cervantes em 22 de fevereiro de 2026, em Tapalpa, interior de Jalisco, após uma operação articulada com inteligência dos Estados Unidos. O líder do Cartel de Jalisco Nova Geração cai gravemente ferido e morre durante evacuação aérea, encerrando uma caçada de anos e abrindo uma nova fase de incerteza no combate ao narcotráfico no país.

Operação em cabanas isoladas e o cálculo político em torno da morte

A ação começa a se desenhar dois dias antes, em 20 de fevereiro, quando investigadores mexicanos recebem a informação que esperam há anos: uma pista concreta sobre o paradeiro de El Mencho. A apuração sobre sua rede de proteção leva a um personagem até então discreto, descrito pelo secretário da Defesa, Ricardo Trevilla Trejo, como “homem de confiança” de uma das amantes do chefe do cartel. É esse intermediário que, segundo o governo, permite o acesso ao esconderijo.

No dia 21, a amante deixa o complexo de cabanas alugadas usado por Oseguera nas imediações de Tapalpa, a pouco mais de 4,8 quilômetros ao sudoeste da cidade. O local é o conjunto conhecido como Cabañas La Loma, um refúgio de temporada cercado por mata e estradas de terra, próximo ao Tapalpa Country Club. O Tesouro dos EUA já havia sancionado o empreendimento em 2015 e 2017 por “assistência material” às atividades do cartel de Jalisco.

Com a confirmação de que o alvo permanece ali, escoltado por seguranças, forças especiais do Exército e a Força Especial de Reação Imediata da Guarda Nacional entram em prontidão. O plano prioriza o elemento surpresa e reduz a exposição: as tropas avançam majoritariamente por terra, com apoio aéreo limitado de helicópteros, para não despertar atenção antecipada na região turística.

Na manhã de domingo, 22 de fevereiro, moradores registram vídeos de caminhões militares e blindados no centro de Tapalpa. Áudios de tiros ecoam pelas colinas. As imagens, geolocalizadas por pesquisadores independentes e verificadas por veículos internacionais, mostram dezenas de militares subindo uma encosta em direção às cabanas enquanto uma fumaça preta espessa começa a tomar o céu.

As tropas formam um perímetro e se aproximam do complexo. A resposta vem rápido: tenentes de Oseguera abrem fogo com armas automáticas, e o confronto se espalha pelo terreno acidentado. Segundo Trevilla, oito integrantes do cartel morrem na troca de tiros, enquanto dois soldados ficam feridos. Parte do grupo armado se mantém entrincheirada nas cabanas, com “uma grande quantidade de armas”, para retardar o avanço das forças oficiais.

Em paralelo, uma equipe de forças especiais se desprende da linha principal e entra na mata em perseguição a El Mencho. O grupo encontra o líder e dois de seus guarda-costas escondidos em vegetação rasteira, em área de floresta densa. Um novo tiroteio se segue. Os três são atingidos e capturados com ferimentos graves. “Determinou-se que precisariam ser evacuados para sobreviver”, relata o secretário da Defesa.

Os feridos embarcam em um helicóptero militar junto com um soldado, rumo a um hospital em Guadalajara, principal cidade de Jalisco, a cerca de 130 quilômetros dali. Durante o voo, os três integrantes do cartel morrem. Diante da notícia, o comando em terra decide alterar o plano. Com receio de uma reação imediata em Guadalajara, onde o cartel mantém forte presença, o helicóptero muda de rota e segue para o Aeroporto Internacional de Morelia, capital do vizinho estado de Michoacán, onde uma aeronave da Força Aérea aguarda para levar os corpos à Cidade do México.

Explosão de violência, Copa em risco e disputa com Washington

A confirmação da morte de El Mencho espalha-se em poucas horas e mergulha grandes áreas do oeste mexicano em um cenário de guerra urbana. Facções ligadas ao cartel erguem bloqueios com veículos em chamas, atacam forças federais e tentam isolar cidades estratégicas. Confrontos armados se multiplicam em rodovias e zonas periféricas; em meio à ofensiva, 25 integrantes da polícia militar da Guarda Nacional são mortos.

Companhias aéreas suspendem voos para a região de Guadalajara. Autoridades dos EUA divulgam alertas para que cidadãos norte-americanos evitem deslocamentos e busquem abrigo, enquanto o consulado emite mensagens sucessivas sobre risco de violência. A morte do homem que Washington classifica há anos como “Terrorista Global Especialmente Designado”, com recompensa de US$ 15 milhões – cerca de R$ 77 milhões – reabre o debate sobre o alcance real da cooperação bilateral.

A presidente Claudia Sheinbaum enfrenta esse cenário sob pressão direta do presidente norte-americano, Donald Trump, que ameaça publicamente uma intervenção além-fronteira caso o México não “controle” o fluxo de drogas. A operação em Tapalpa, conduzida por tropas mexicanas com base em dados detalhados fornecidos por agências dos EUA, passa a ser apresentada pelo governo como resposta concreta a essas cobranças, sem a presença de soldados estrangeiros em solo mexicano.

Em pronunciamento na segunda-feira, 23 de fevereiro, Sheinbaum tenta conter o pânico. “O mais importante agora é garantir a paz e a segurança para toda a população de todo o México. E é isso que está sendo feito”, afirma. “As pessoas podem ter certeza de que a paz, a segurança e a normalidade estão sendo mantidas no país.” O discurso, porém, contrasta com imagens de estradas tomadas por fogo e tiroteios em cidades médias de Jalisco e Michoacán.

O timing da morte de El Mencho torna o quadro ainda mais sensível. Guadalajara se prepara para receber, em junho, quatro partidas da fase de grupos da Copa do Mundo de 2026. O governo local conta com o torneio como motor para o turismo e investimentos em infraestrutura. Cada novo vídeo de bloqueios e rajadas de fuzil circulando em redes sociais alimenta o temor de cancelamentos em massa e reforça a percepção de que o Estado corre contra o relógio para recuperar o controle.

Especialistas em segurança veem na operação um movimento calculado. “Parece-me que o Estado mexicano fez um cálculo onde os números funcionaram a seu favor; não havia oportunidade melhor para capturá-lo”, avalia Armando Vargas, coordenador de programas de segurança do laboratório de ideias México Evalúa. Segundo ele, o governo entra na ação ciente de que a retaliação virá, mas convencido de que conseguirá “conter a interrupção e manter a governança e restaurá-la em um curto período”.

Analistas destacam também o caráter simbólico da morte. Oseguera já vinha perdendo parte do controle direto sobre o cartel, obrigado a operar na clandestinidade e a delegar a tenentes regionais. “Esta captura é obviamente importante, mas também é simbólica”, observa Gustavo López Montiel, professor de ciência política do Instituto Tecnológico e de Estudos Superiores de Monterrey. Ele lembra que o grupo funciona hoje em modelo semelhante a franquia, com chefes locais que tomam decisões com grande autonomia.

Cartel em rede, sucessão incerta e pressão internacional contínua

A grande questão, agora, é o que acontece com o Cartel de Jalisco Nova Geração sem seu líder fundador. A organização se consolida na última década como um dos principais fornecedores de metanfetamina e fentanil para o mercado dos Estados Unidos, expandindo-se por vários estados mexicanos com uso intenso de violência e armas de guerra. A ausência de El Mencho não significa, automaticamente, a desarticulação dessa estrutura.

Vargas considera improvável, no curto prazo, um processo de ruptura interna em cadeia. “Grande parte de sua liderança permanece livre, operando através de um tipo de sistema de franquia onde os chefes locais têm autonomia na tomada de decisões”, diz. “Apesar da violência potencial, não prevejo uma fragmentação de curto prazo do cartel que levaria a uma violência excessivamente intensa.” A leitura sugere que o poder se redistribui entre comandantes regionais, sem uma guerra aberta pela sucessão imediata.

Outros analistas enxergam um cenário mais volátil. Para David Mora, do International Crisis Group, a morte do traficante pode enfraquecer a capacidade de coordenação do cartel de Jalisco e abrir “a possibilidade de mais violência dentro do grupo”. Rivais como o cartel de Sinaloa e facções locais menores quase certamente tentam avançar sobre áreas hoje controladas por Jalisco, aproveitando a janela de transição. O risco é que disputas por praças de distribuição e rotas de contrabando transformem cidades já fragilizadas em novos epicentros de confronto.

O impacto político atravessa fronteiras. Em Washington, a Casa Branca de Trump tende a apresentar a morte de El Mencho como evidência de que a pressão contra o México funciona. Em solo mexicano, Sheinbaum tenta equilibrar a narrativa de soberania – operação conduzida por tropas nacionais, em território nacional – com a admissão de que a inteligência estrangeira foi decisiva. A cooperação binacional, reforçada neste caso, deve ganhar ainda mais peso em futuras ações contra chefes regionais.

A poucos meses da bola rolar na Copa do Mundo e com a economia ainda dependente de receitas ligadas ao turismo e às exportações para os EUA, o governo mexicano precisa mostrar que a ofensiva contra o cartel não se resume a um alvo simbólico. A disputa real se dá agora em estradas, aeroportos e bairros populares onde a presença do Estado continua frágil. O cálculo feito em Tapalpa, que prioriza o impacto político imediato, será medido nas próximas semanas pela capacidade de reduzir tiroteios, reabrir rotas e convencer potenciais turistas de que Guadalajara continua sendo um destino seguro.

A morte de El Mencho encerra uma perseguição e inaugura outra, menos visível: a que envolve a sucessão silenciosa dentro do cartel, a disputa entre facções rivais e a pressão crescente de Washington sobre a política de segurança mexicana. As próximas operações vão indicar se a ofensiva em Jalisco marca uma virada estrutural contra o crime organizado ou se ficará registrada, sobretudo, como o episódio em que o Estado matou um símbolo e precisou correr para não perder o controle das ruas.

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