Morte de El Mencho abre espaço para avanço do PCC na América do Sul
O narcotraficante mexicano Nemesio Oseguera, o El Mencho, líder do Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG), morre nesta semana em operação conjunta de México e Estados Unidos em Tapalpa, no Estado de Jalisco. As autoridades dos dois países tratam o abate como um dos maiores golpes recentes contra o crime organizado. Especialistas, porém, alertam que o vazio de poder pode fortalecer facções brasileiras, sobretudo o Primeiro Comando da Capital (PCC).
Golpe contra cartel mais violento do México muda tabuleiro
A confirmação da morte de El Mencho encerra uma caçada que dura mais de uma década e mobiliza, em diferentes momentos, agências como DEA, FBI e Forças Armadas mexicanas. Aos 59 anos, o chefe do CJNG é, até esta semana, um dos homens mais procurados das Américas, com recompensas somadas que passam de US$ 10 milhões, oferecidas por Washington e pela Cidade do México.
A operação em Tapalpa, em região montanhosa de Jalisco, ocorre em meio à pressão constante do governo dos Estados Unidos para que o México demonstre resultados no combate ao tráfico de drogas sintéticas e à cocaína. Em Washington, o episódio é apresentado como prova de que a cooperação bilateral funciona. No México, o discurso oficial aponta para um “golpe histórico” contra uma das estruturas criminosas mais violentas do país.
O CJNG constrói, ao longo da última década, uma reputação de brutalidade, ataques espetaculares e domínio armado de rotas estratégicas para o Pacífico e para o Caribe. Com presença em mais de 20 Estados mexicanos, disputa território com o tradicional Cartel de Sinaloa e se projeta para além das fronteiras, com braços em países sul-americanos e conexões na Europa.
Essa capilaridade agora entra em xeque. Para Roberto Uchôa, ex-policial federal e pesquisador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, a morte do chefe expõe uma fragilidade estrutural dos cartéis mexicanos. “Não ficou uma liderança definida e uma sucessão estruturada para o caso de ele ser preso ou morto”, afirma. “A possibilidade mais provável é uma balcanização do CJNG, com fragmentação e conflito entre generais.”
PCC mira vácuo em rotas de drogas e mineração ilegal
O enfraquecimento do CJNG, ainda que temporário, altera a geopolítica do crime na América do Sul. Uchôa avalia que o PCC, principal facção criminosa brasileira, está pronto para ocupar parte do espaço deixado pelo cartel mexicano. “Na geopolítica criminal, não existe espaço vazio: ele é rapidamente preenchido”, diz. Segundo ele, o grupo paulista já controla grande parte da rota da cocaína para a Europa e mantém expansão contínua, mesmo com seus chefes presos.
O CJNG, lembra o pesquisador, atua em duas frentes que interessam diretamente às facções brasileiras: o envio de drogas sintéticas e cocaína à Europa, por portos do Atlântico e do Mediterrâneo, e a mineração ilegal em países como Colômbia, Venezuela e Equador. Nessa cadeia, o cartel não aparece apenas no garimpo, mas na oferta de logística, de lavagem de dinheiro e de proteção armada. “A Amazônia se tornou uma terra de ninguém, com organizações de vários países disputando rotas e minas. O cartel mexicano tem participação até no comércio de mercúrio que envenena a região”, afirma Uchôa.
Esse modelo é familiar ao PCC, que amplia nos últimos anos sua atuação na Amazônia brasileira, em especial a partir da fronteira com Colômbia, Peru e Venezuela. A facção investe em rotas fluviais, infiltra-se em portos do Norte e do Nordeste e oferece, segundo investigadores, “serviços completos” a produtores andinos e parceiros europeus: transporte, segurança, documentos falsos e mecanismos de lavagem em empresas de fachada.
A diferença central, na visão de Uchôa, está na forma de organização. “O PCC é estruturado como uma empresa. Você pode prender uma liderança, como o Marcola, que está preso há décadas, e isso não abala o grupo”, diz. As decisões estratégicas passam por colegiados, como a chamada Sintonia Final, o que torna a facção mais resistente ao modelo de combate focado em grandes chefes, a chamada estratégia do kingpin.
Essa lógica se repete, com variações, em outra grande facção brasileira, o Comando Vermelho. O grupo funciona, nas palavras do pesquisador, “quase como um sistema de franquias”, com forte autonomia local sob um guarda-chuva comum. Nas duas organizações, não há uma figura única cuja prisão ou morte paralise a cadeia de comando, ao contrário do que ocorre com nomes como Pablo Escobar, Joaquín “El Chapo” Guzmán ou o próprio El Mencho.
Violência, pressão dos EUA e limites do Estado brasileiro
A resposta do CJNG à morte de seu líder indica o risco de uma nova escalada de violência no México, com ataques a aeroportos e infraestrutura urbana em ao menos três Estados, segundo relatos locais. O padrão lembra episódios recentes atribuídos ao cartel, em que bloqueios de rodovias, incêndios de veículos e tiros em áreas civis servem de recado ao Estado. “Atacar aeroportos e infraestruturas como forma de retaliação são atos terroristas. Isso justifica exatamente o discurso americano”, avalia Uchôa.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, defende desde seu primeiro mandato a classificação de cartéis mexicanos como organizações terroristas, o que ampliaria a base jurídica para ações unilaterais. Uma reação descontrolada à morte de El Mencho pode oferecer o argumento que a Casa Branca procura. “Para ele, isso é um troféu. Mas, para o México, é apenas a contratualização de um banho de sangue que não vai mudar a realidade”, afirma o pesquisador.
Na avaliação de Uchôa, a política de guerra às drogas liderada por Washington repete, no México, o roteiro visto na Colômbia nos anos 1990 e 2000. Os Estados Unidos exibem a captura ou morte de chefes como vitórias simbólicas, enquanto a oferta de armas e a demanda por drogas se mantêm praticamente intocadas. “Os EUA levam seus troféus enquanto a violência permanece na América Latina”, diz. “O mercado consumidor continua, e as armas continuam chegando.”
No Brasil, as consequências são mais discretas, mas não menos preocupantes. O crescimento do PCC, com mais rotas, parceiros e fontes de renda, pressiona instituições já sobrecarregadas. A Polícia Federal conta hoje com cerca de 13 mil servidores para um país de 220 milhões de habitantes, fronteiras extensas e um papel central nas rotas internacionais de cocaína para Europa, África, Ásia e até para os EUA.
Uchôa, que passou 20 anos na PF, vê preparo técnico, mas falta de meios. “É uma instituição que sabe enfrentar o problema, mas sofre com carência histórica de infraestrutura e de pessoal”, resume. Ele critica ainda mudanças recentes na legislação, que endurecem penas para a base do crime, mas retiram instrumentos de investigação financeira e política. “Reforçaram a repressão ao andar de baixo, mas as ferramentas para atingir o andar de cima foram esvaziadas”, afirma.
Enquanto o México lida com o impacto imediato da morte de El Mencho e dos possíveis confrontos internos no CJNG, o Brasil assiste, a distância, a um rearranjo que pode consolidar o PCC como uma das principais organizações criminosas do mundo. A facção aposta em uma violência “utilitária”, calculada para enviar recados pontuais, em vez de declarar guerra aberta ao Estado, como fazem cartéis mexicanos. “É o tipo de coisa que o PCC parou de fazer”, diz Uchôa, ao comparar os ataques no México com episódios brasileiros do passado.
A pergunta que permanece, em meio ao troféu exibido por Washington e à celebração oficial na Cidade do México, é se a queda de mais um grande chefe muda de fato o curso da guerra às drogas. A disputa pelas rotas, pelas minas de ouro e pelo controle da Amazônia continua em aberto. Nessa batalha silenciosa, quem parece ganhar espaço, por ora, não é o Estado, mas o crime organizado que aprende a sobreviver sem líderes aparentes.
