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Morte de El Mencho abre espaço para avanço do PCC na América do Sul

A morte de Nemesio Oseguera Cervantes, o El Mencho, líder do Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG), em operação México-EUA nesta semana de fevereiro de 2026, redesenha o mapa do crime organizado na América Latina. Especialistas veem um vácuo de poder que pode fortalecer o Primeiro Comando da Capital (PCC), facção brasileira que já controla rotas de cocaína para a Europa e avança sobre a mineração ilegal na Amazônia.

Vácuo no México, oportunidade no Brasil

A ação conjunta das forças de segurança mexicanas e americanas em Tapalpa, no Estado de Jalisco, é apresentada como grande vitória na chamada guerra às drogas. El Mencho era um dos homens mais procurados dos dois países e simbolizava a ascensão do CJNG, cartel que em dez anos se projeta como um dos mais violentos do México.

No Brasil, porém, a leitura é mais ambígua. Para o ex-policial federal e pesquisador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Roberto Uchôa, a morte do chefe do CJNG abre uma disputa que não se limita às fronteiras mexicanas. “Na geopolítica criminal, não existe espaço vazio: ele é rapidamente preenchido”, afirma.

Uchôa calcula três cenários para o futuro do CJNG, todos marcados por instabilidade: fragmentação em grupos menores, guerra interna entre comandantes ou absorção pelo rival Cartel de Sinaloa. Em qualquer hipótese, a pressão sobre a estrutura do cartel tende a comprometer duas frentes centrais de negócios: as rotas de drogas sintéticas e cocaína para a Europa e a mineração ilegal na América do Sul.

É justamente nesses setores que o PCC aparece mais preparado para ocupar o terreno. O grupo paulista consolida, nos últimos anos, presença em portos estratégicos para exportação de cocaína, do Norte ao Sul do Brasil, e diversifica receitas ao se associar a redes de garimpo ilegal na Amazônia. “Hoje o PCC já controla grande parte da rota da cocaína para a Europa. Ele está em contínua expansão”, diz o pesquisador.

PCC profissionaliza o crime e evita guerra aberta

Enquanto o CJNG aposta em demonstrações espetaculares de força, com ataques a aeroportos e tiroteios em vias públicas no México, o PCC afina um modelo discreto, de baixa exposição. A facção brasileira, criada em 1993 nos presídios paulistas, abandona, nos últimos anos, a lógica do confronto permanente com o Estado.

Em 2006, o grupo promove ataques coordenados em São Paulo após a transferência de líderes para o regime disciplinar diferenciado. A ofensiva paralisa a maior metrópole do país, deixa centenas de mortos e marca a memória da segurança pública. Segundo Uchôa, esse episódio funciona como ponto de inflexão. “Ali, o PCC entendeu que esse tipo de enfrentamento direto com o Estado é financeiramente prejudicial”, afirma.

Desde então, o comando adota o que o pesquisador chama de “regulação do mercado da violência”. A violência deixa de ser espetáculo e passa a ser instrumento cirúrgico. Execuções são autorizadas após julgamentos internos, os chamados “vai para as ideias”, e servem para punir delatores, coibir traições e enviar recados pontuais. Casos como o assassinato de Vinicius Gritzbach, delator morto no aeroporto de Guarulhos em 2024, e do ex-delegado paulista Ruy Ferraz, executado em 2025, exemplificam esse uso calculado da força.

Esse padrão contrasta com a estratégia dos cartéis mexicanos, que fazem da brutalidade pública uma forma de pressionar governos e rivais. Os ataques recentes ligados ao CJNG, após a morte de El Mencho, alimentam em Washington o discurso de Donald Trump, que volta a defender a classificação desses grupos como organizações terroristas. “É o tipo de coisa que o PCC parou de fazer”, diz Uchôa.

O desenho interno também diferencia a facção brasileira. Em vez de um líder único, carismático e facilmente identificável, o PCC funciona em camadas. A cúpula, conhecida como Sintonia Final, toma decisões estratégicas, mas não se confunde com uma figura central. Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, preso há décadas, é um dos nomes mais conhecidos, porém não é o único vértice do comando. “O PCC é estruturado como uma empresa”, resume Uchôa. Essa arquitetura torna ineficaz, segundo ele, a política do “kingpin”, que aposta em prender ou matar chefes para desarticular redes criminosas.

Mineração ilegal, rotas globais e limites do Estado

A disputa que se abre com o enfraquecimento do CJNG vai além da cocaína. Relatórios recentes de investigadores na Colômbia, Venezuela e Equador mostram o envolvimento do cartel mexicano em mineração ilegal de ouro e no comércio de mercúrio, metal que contamina rios e comunidades na Amazônia. Nessa cadeia, a função dos grandes grupos não é operar diretamente o garimpo, mas fornecer logística, armas, lavagem de dinheiro e acesso a mercados internacionais.

O avanço do PCC sobre rotas amazônicas repete a lógica. A facção oferece transporte, proteção armada e canais financeiros a quem explora ilegalmente o subsolo na região. Com a provável fragmentação do CJNG, parceiros locais tendem a buscar um novo provedor de serviços. “Se o cartel mexicano se fragmenta e se enfraquece, ele deixa de conseguir dar atenção a determinados pontos e rotas. O PCC se apresenta como parceiro mais estável”, avalia Uchôa.

O Brasil entra nesse tabuleiro com uma Polícia Federal de cerca de 13 mil servidores para um país de 220 milhões de habitantes e fronteiras porosas, terrestres, fluviais e marítimas. Uchôa, que trabalhou duas décadas na corporação, vê preparo técnico, mas carência estrutural. “Tem quadros experientes, tem conhecimento tecnológico, sabe enfrentar o problema. Mas sofre com falta histórica de infraestrutura e de pessoal”, diz.

As limitações não são apenas orçamentárias. A legislação recente, marcada por pressões políticas diversas, endurece penas para a base do crime, mas, segundo o pesquisador, falha em atacar o topo. Ele cita o projeto antifacção, esvaziado no Congresso. “Aumentaram-se penas e reforçou-se a repressão ao andar de baixo. As ferramentas para atingir o andar de cima, infiltrado no sistema financeiro, na política e em contratos públicos, foram retiradas”, afirma.

No plano internacional, os Estados Unidos ampliam a pressão sobre governos latino-americanos. A cooperação que leva à morte de El Mencho se torna vitrine para Donald Trump, que promete resultados rápidos ao eleitorado. Para Uchôa, o efeito é mais simbólico do que prático. “Para ele, é um troféu. Mas, para o México, é apenas a contratualização de um banho de sangue que não vai mudar a realidade”, diz.

Uma guerra sem fim à vista

A experiência da Colômbia nas décadas de 1980 e 1990, com Pablo Escobar e os cartéis de Cali e Medellín, mostra que a decapitação de chefes não encerra a rede criminosa. O vácuo é preenchido por novas lideranças, costurado por alianças e rivalidades que quase sempre aumentam o índice de mortes antes de estabilizar o mercado ilegal. O México vive há mais de 15 anos essa lógica de fragmentação e recomposição violenta.

No Brasil, a força de organizações como PCC e Comando Vermelho, estruturadas em rede e sem um líder único, aponta outra direção: mais resiliência, menos visibilidade, maior capacidade de infiltração econômica e política. “Nenhuma das duas tem liderança ditatorial no estilo clássico, aquela figura que todo mundo quer prender e cuja captura desmantela tudo”, resume Uchôa.

A morte de El Mencho não encerra a guerra às drogas, mas redefine seus protagonistas na América do Sul. A tendência, segundo investigadores, é que facções brasileiras ampliem influência sobre rotas atlânticas, garimpos amazônicos e circuitos de lavagem de dinheiro, enquanto cartéis mexicanos negociam novas alianças e disputam áreas internas com ainda mais violência.

Governos da região enfrentam o desafio de responder a esse rearranjo com estruturas policiais limitadas, legislações incompletas e pressões externas que privilegiam resultados de impacto, como a morte de grandes chefes, em vez de reformas profundas. A pergunta que fica, diante do avanço silencioso do PCC e da fragmentação do CJNG, é se o Estado conseguirá, algum dia, disputar esse território com a mesma organização e paciência com que o crime ocupa cada espaço aberto.

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