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Morte de cão Orelha expõe violência e pressiona autoridades em SC

O cão comunitário Orelha morre em 15 de janeiro de 2026 após ser brutalmente espancado na Praia Brava, em Florianópolis. Quatro adolescentes de classe média alta são investigados por participação na agressão, que mobiliza moradores, autoridades e defensores da causa animal em Santa Catarina.

Da mata à comoção pública

Orelha circula há mais de dez anos pela região da Praia Brava. Dorme em quiosques, acompanha pescadores, posa para fotos de turistas. Vira mascote involuntário de um pedaço do litoral de Florianópolis que cresce, muda, mas mantém o cão como presença constante. Em janeiro, essa rotina se rompe de forma brutal.

Na tarde de 15 de janeiro de 2026, moradores encontram o animal em uma área de mata próxima à faixa de areia. O corpo está coberto por hematomas, com múltiplos traumas compatíveis com pauladas. Ele é levado às pressas para atendimento veterinário. A equipe tenta estabilizar o quadro, mas a gravidade das lesões torna impossível qualquer perspectiva de recuperação. A saída, segundo os profissionais, é a eutanásia.

As imagens que antecedem esse desfecho correm o bairro em celulares e redes sociais. Câmeras de segurança mostram quatro adolescentes de classe média alta, todos moradores da região, agredindo o cão com pedaços de madeira. Depoimentos de testemunhas reforçam a versão de espancamento deliberado, sem qualquer provocação do animal.

O caso chega rapidamente à Delegacia de Proteção Animal (DPA), que assume a apuração com apoio da Delegacia de Combate a Crimes Ambientais e Crimes contra as Relações de Consumo (DEACLE). Em poucos dias, equipes colhem gravações, laudos e relatos de frequentadores da Praia Brava, em um inquérito que passa a ser acompanhado de perto pela cúpula da Polícia Civil.

Investigação, lei recente e pressão da sociedade

A fase de oitivas entra na etapa final nesta semana, segundo a Polícia Civil. Além dos quatro adolescentes suspeitos, pais e responsáveis legais também prestam depoimento. Investigadores apuram ainda uma possível tentativa de coação de testemunhas por parte de familiares dos jovens, hipótese que inclui a suspeita de envolvimento de um policial civil. A linha de apuração tenta separar versões, checar álibis e identificar quem estava, de fato, na cena do crime.

O Ministério Público de Santa Catarina, por meio da 10ª e da 32ª Promotorias de Justiça, acompanha cada movimento. Promotores avaliam quais medidas cabem no âmbito do Estatuto da Criança e do Adolescente, que prevê sanções socioeducativas, e quais desdobramentos podem ocorrer na esfera do crime ambiental. A juíza inicialmente designada declara impedimento e o processo aguarda redistribuição, o que tende a atrasar decisões sobre eventuais medidas cautelares.

Autoridades estaduais se manifestam em público. O delegado-geral da Polícia Civil, Ulisses Gabriel, e a delegada Mardjoli Valcareggi reafirmam que as apurações seguem de forma imparcial e sem interferências externas. O governador Jorginho Mello, do PL, determina prioridade ao caso e cobra celeridade nas conclusões do inquérito.

A morte de Orelha, porém, não se resume à investigação criminal. Nove dias depois da agressão, em 24 de janeiro, moradores organizam um protesto na Praia Brava. Em faixas e cartazes, pedidos de justiça e fotos do cão em dias tranquilos de sol. Ativistas da causa animal se somam ao ato e ampliam o alcance das denúncias em redes sociais, pressionando por responsabilização exemplar dos envolvidos.

O episódio acontece em meio a uma mudança legislativa importante. Em 22 de janeiro, uma semana após a agressão, entra em vigor a Lei Estadual nº 19.726, que cria regras específicas para proteção de cães e gatos comunitários em Santa Catarina. A norma prevê ações contra remoção indevida, maus-tratos e abandono, além de programas de conscientização e estruturação de abrigos. Os números oficiais ajudam a dimensionar o cenário: o estado registra cerca de 6 mil denúncias de maus-tratos a animais em 2025, uma média de mais de 16 registros por dia.

O que muda com o caso Orelha

A combinação entre imagens explícitas de violência, protagonismo de adolescentes de classe média alta e a morte de um animal considerado parte do bairro transforma o caso em símbolo. Moradores relatam medo de novas agressões contra animais e cobram mais presença do poder público em áreas de lazer. Organizações de proteção animal veem na repercussão uma oportunidade de pressionar pela aplicação efetiva da nova lei e por campanhas educativas permanentes.

Orelha, tratado como cão comunitário muito antes de a lei usar esse termo, torna-se exemplo concreto do que a legislação busca proteger. A norma reconhece que esses animais não pertencem a um tutor individual, mas à comunidade, que se responsabiliza por alimentação, abrigo e cuidados básicos. A cena de um cão assim, espancado até a morte, confronta o discurso de cidade turística e acolhedora que Florianópolis tenta vender ao país.

Na prática, o desfecho da investigação vai indicar até que ponto o sistema de justiça trata a violência contra animais como crime com consequências reais. Se o Ministério Público optar por medidas socioeducativas mais duras, o processo pode virar referência para outros casos semelhantes, dentro e fora do estado. Se a resposta for tímida, entidades temem um recado de tolerância à crueldade.

O impacto também alcança as famílias dos adolescentes investigados, que passam a lidar com exposição pública intensa em um caso que envolve privilégio de classe e uso de influência. A suspeita de tentativa de coação de testemunhas, se confirmada, adiciona uma camada de gravidade e amplia a lista de possíveis responsabilizados, indo além dos jovens que aparecem nas imagens.

Próximos passos e uma pergunta em aberto

Com o encerramento das oitivas previsto para os próximos dias, a Polícia Civil deve concluir o inquérito e encaminhar o relatório ao Ministério Público ainda neste primeiro trimestre de 2026. Caberá aos promotores decidir se apresentam representação contra os adolescentes, quais medidas socioeducativas solicitam e se buscam responsabilizar outros envolvidos por eventuais crimes conexos, como coação de testemunhas.

Na esfera política, deputados estaduais já mencionam a possibilidade de ajustes na Lei nº 19.726 para ampliar mecanismos de fiscalização e endurecer sanções administrativas. Prefeituras de outras cidades catarinenses observam o caso e avaliam criar normas locais para proteção de animais comunitários. Em Florianópolis, moradores da Praia Brava discutem erguer um memorial em homenagem a Orelha no trecho de areia que o cão costumava percorrer diariamente. A investigação caminha para um desfecho formal, mas a pergunta que fica para o estado é se a morte de um cão será suficiente para mudar, de fato, a forma como a sociedade lida com a violência contra animais.

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