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Morre Jürgen Habermas, voz central da teoria crítica, aos 96

O filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas morre neste sábado (14), aos 96 anos, em Starnberg, perto de Munique. Autor de uma das obras mais influentes da teoria crítica no pós-guerra, ele redefine o debate mundial sobre democracia, comunicação e tecnologia.

Da sombra do nazismo ao centro do debate democrático

Nascido em 18 de junho de 1929, em Düsseldorf, Habermas atravessa quase todo o século 20 e o início do 21 como uma espécie de consciência crítica da modernidade. Filho de uma família protestante conservadora e simpatizante do nazismo, ele integra a Juventude Hitlerista e, aos 15 anos, é convocado para uma milícia de jovens e idosos nos meses finais da Segunda Guerra. Anos depois, se torna uma das principais vozes da Escola de Frankfurt, formada por marxistas e judeus exilados que fogem justamente do regime ao qual sua família um dia adere.

O choque com os filmes dos julgamentos de Nuremberg, exibidos em 1945 e 1946, marca o adolescente educado sob o horizonte da propaganda nazista. Diante das imagens dos campos de concentração, ele relata, décadas depois, a ruptura radical: “Vimos de repente que havíamos vivido em um sistema político criminoso”, diz em entrevista em 1986, publicada em “Autonomia e Solidariedade”. A partir daí, sua obra passa a girar em torno de uma pergunta simples e perturbadora: como sociedades modernas, tão desenvolvidas tecnicamente, se deixam arrastar para a barbárie?

Habermas convive ainda na juventude com uma dificuldade física que o aproxima da própria ideia de comunicação. A fissura palatina, malformação genética no céu da boca, exige duas cirurgias e o obriga a enfrentar desde cedo problemas de fala. De um jovem tímido, retraído, surge o pensador que faz da linguagem o centro de sua filosofia, convencido de que a democracia depende da capacidade de as pessoas se entenderem em público, em pé de igualdade.

Em 1949, o estudante decidido a seguir filosofia entra na Universidade de Göttingen. Passa por Zurique, conclui o curso e segue para Bonn, onde se doutora em 1954 com uma tese sobre o idealista alemão Friedrich Schelling. Paralelamente, escreve para jornais como o Frankfurter Allgemeine Zeitung e o Handelsblatt. Nessa fase, provoca polêmica ao tratar da filiação de Martin Heidegger ao nazismo em 1933, tema ainda sensível em uma Alemanha que tenta reconstruir sua vida intelectual.

Em Bonn, ele conhece Ute Wesselhoeft, com quem se casa em 1955. O casal tem três filhos, Tilmann, Rebekka e Judith. No mesmo ano, Habermas se muda para Frankfurt e ingressa no Instituto para Pesquisa Social, berço da Escola de Frankfurt. Entra em cena na mesma instituição que abriga nomes como Theodor Adorno, Max Horkheimer e Herbert Marcuse, todos marcados pelo exílio e pela perseguição antissemita.

A Escola de Frankfurt se firma desde os anos 1930 como contraponto ao positivismo lógico, corrente que tenta reduzir a validade do conhecimento ao que pode ser demonstrado por lógica ou matemática. Em vez disso, Adorno, Horkheimer e Marcuse apostam em uma “teoria crítica” que inclui economia, história, sociologia e psicanálise para entender a dominação e a cultura de massas. Habermas entra nesse campo já consolidado, mas decide deslocar o foco.

Ele critica o que vê como um ceticismo excessivo dos primeiros frankfurtianos em relação à modernidade e à própria democracia. O conflito explode quando Horkheimer rejeita sua dissertação de habilitação em ciência política, exigindo mudanças que o jovem pesquisador se recusa a fazer. Em 1959, Habermas deixa o instituto e vai para a Universidade de Marburg, onde conclui o trabalho sob orientação de Wolfgang Abendroth, jurista marxista. Publicado em 1962, “Mudança Estrutural da Esfera Pública” torna-se um clássico imediato.

Esfera pública, ação comunicativa e crítica ao tecnicismo

Em “Mudança Estrutural da Esfera Pública”, Habermas reconstrói o surgimento dos espaços de debate entre cidadãos na Europa moderna, dos cafés londrinos aos jornais burgueses do século 18. Ali, mostra como a discussão pública racional, baseada em argumentos, é a base de qualquer democracia que mereça esse nome. Ao mesmo tempo, expõe como essa esfera se transforma com o avanço da publicidade, da indústria cultural e dos grandes meios de comunicação.

Na década de 1960, ele retorna a Frankfurt, sucede Horkheimer em 1964 e tenta aproximar teoria crítica e prática democrática. Critica o uso irrestrito da tecnologia guiada por interesses empresariais, o que chama de tecnicismo, e se posiciona contra a Guerra do Vietnã ao lado de Marcuse. Apoia o movimento estudantil, mas rejeita a guinada violenta de parte da juventude alemã, que desemboca no terrorismo da Fração do Exército Vermelho, o grupo Baader-Meinhof. A tensão com os estudantes, que o acusam de reformismo, leva sua saída da universidade em 1971.

Depois de um semestre em Princeton, nos EUA, ele se muda para o Instituto Max Planck para Estudos do Mundo Técnico-Científico, em Starnberg, onde trabalha por duas décadas. Em 1968, publica “Conhecimento e Interesse”, reflexão sobre os tipos de saber que orientam a ciência e a sociedade. Em 1981, lança sua obra-prima em dois volumes, “Teoria da Ação Comunicativa”. Nesse livro, formula a ideia de que a liberdade depende da capacidade de as pessoas discutirem em condições simétricas, sem coerção, para testar e justificar suas pretensões de verdade.

Aplicada à política, essa concepção desemboca no conceito de “democracia deliberativa”. As leis e instituições, sustenta Habermas, só ganham legitimidade se puderem ser justificadas publicamente, em processos abertos de discussão que incluam o maior número possível de afetados. A tese influencia fortemente a filosofia política, o direito constitucional e o desenho de políticas públicas em vários países a partir dos anos 1990.

Já aposentado de Frankfurt desde 1994, o filósofo volta ao centro dos debates em 2003 com “O Futuro da Natureza Humana”. O livro é publicado três anos após a cerimônia global de anúncio do sequenciamento do genoma humano, em 2000, conduzida pelo presidente americano Bill Clinton e pelo premiê britânico Tony Blair. Habermas questiona o otimismo em torno da biotecnologia, alerta para a possibilidade de manipulação genética de embriões e discute como isso pode afetar a autocompreensão moral dos indivíduos.

O filósofo americano Richard Bernstein, amigo de décadas, chega a resumir essa sensibilidade em entrevista ao Los Angeles Times, em 1994: “Nunca conheci um não judeu mais sensível —intelectual e pessoalmente— do que ele a esse assunto”, diz ao falar da vigilância constante de Habermas em relação ao antissemitismo. Para muitos colegas, essa postura nasce do encontro traumático entre sua juventude nazificada e a revelação do Holocausto.

Legado político, disputa de ideias e futuro da democracia

A morte de Habermas encerra a trajetória de um dos últimos grandes representantes da geração que vive a barbárie nazista e tenta reconstruir a confiança na razão pública. Aos 96 anos, ele testemunha o renascimento de movimentos autoritários, o avanço da desinformação nas redes sociais e a expansão da biotecnologia e da inteligência artificial. Em todos esses temas, sua filosofia serve de referência para juristas, sociólogos, cientistas políticos e ativistas.

Universidades da Europa, das Américas e da Ásia organizam, desde os anos 1990, colóquios e congressos dedicados a discutir a democracia deliberativa, conceito que hoje aparece em documentos de organismos internacionais e em decisões de cortes constitucionais. Em países como Brasil, Alemanha, Estados Unidos e Canadá, suas ideias ajudam a moldar conselhos participativos, audiências públicas e experiências de orçamento deliberativo.

O impacto se espalha também por campos menos óbvios. Debates éticos sobre uso de dados, plataformas digitais e vigilância em massa recorrem à distinção habermasiana entre racionalidade voltada ao entendimento e racionalidade instrumental, orientada apenas a resultados. Em linguagem simples, ele insiste que tecnologia e crescimento econômico não bastam se não puderem ser debatidos e controlados por cidadãos informados. A crítica ao tecnicismo ganha força em um momento em que gigantes de tecnologia valem trilhões de dólares e influenciam eleições em vários continentes.

Na biotecnologia, suas dúvidas sobre a manipulação da “natureza humana” seguem presentes em discussões sobre edição genética, reprodução assistida e seleção de embriões. Pesquisadores citam “O Futuro da Natureza Humana” ao avaliar projetos que podem alterar características hereditárias. A questão central, para ele, é se essas decisões podem um dia comprometer a igualdade moral entre pessoas nascidas com e sem intervenção tecnológica.

Um pensador para além de sua época

Instituições acadêmicas e culturais na Alemanha e em outros países preparam homenagens e seminários para revisitar uma obra que se estende por mais de seis décadas. Editoras, como a Suhrkamp Verlag, anunciam novas edições comentadas de livros-chave, de “Mudança Estrutural da Esfera Pública” à “Teoria da Ação Comunicativa”. Parte desse material deve chegar em formato digital e em cursos abertos, o que tende a ampliar seu alcance entre novas gerações.

O desaparecimento físico de Habermas não encerra as disputas em torno de suas ideias. Ao contrário, abre espaço para leituras concorrentes sobre o futuro da democracia, o papel dos especialistas e os limites da tecnologia. Em um século em que a comunicação se fragmenta em telas e algoritmos, a aposta em um espaço público capaz de sustentar o diálogo racional permanece como desafio. A pergunta que atravessa sua obra continua sem resposta simples: sociedades que dominam a técnica aprenderão também a conversar sobre o que fazem com esse poder?

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