Moléculas orgânicas em Marte reforçam hipótese de vida no passado
Pesquisadores da Nasa divulgam nesta quarta-feira (4) um estudo que reforça a hipótese de vida passada em Marte. Moléculas orgânicas detectadas pelo robô Curiosity, em 2025, aparecem em quantidade difícil de explicar apenas por processos geológicos ou por material trazido por meteoritos.
Indício raro em uma rocha marciana
O trabalho, publicado na revista científica Astrobiology, analisa dados coletados em março de 2025 na Cratera Gale, região explorada pelo Curiosity desde 2011. O laboratório químico a bordo do robô identificou pequenas quantidades de três hidrocarbonetos — decano, undecano e dodecano — em uma antiga rocha sedimentar, formada no fundo de um lago marciano.
Essas moléculas são cadeias de carbono simples, mas carregam um peso simbólico grande. Na Terra, aparecem com frequência como fragmentos de ácidos graxos, componentes básicos das membranas celulares. “Ácidos graxos são produzidos majoritariamente por organismos vivos, embora também possam surgir em reações puramente geológicas”, explicam os autores no artigo.
O ponto central não está apenas no tipo de molécula, mas na quantidade estimada. A equipe compara o material encontrado com tudo o que se sabe hoje sobre fontes não biológicas em Marte, da química interna do planeta à chuva constante de meteoritos sobre a superfície. A conta não fecha.
Depois de testar diferentes cenários, os cientistas concluem que a quantidade de matéria orgânica detectada supera o que processos conhecidos conseguiriam produzir. “As fontes abióticas não explicam a abundância observada”, diz um trecho do estudo. A partir daí, a hipótese de uma contribuição biológica antiga deixa de ser apenas um exercício de imaginação e passa a ser considerada plausível dentro dos limites dos dados disponíveis.
Reconstrução de 80 milhões de anos
Para chegar a essa conclusão, a equipe tenta, em laboratório, reproduzir o que acontece com moléculas orgânicas sob a radiação que bombardeia Marte. A rocha analisada teria ficado exposta na superfície por cerca de 80 milhões de anos, tempo suficiente para degradar boa parte de qualquer material mais frágil.
Os pesquisadores submetem compostos semelhantes a doses controladas de radiação e medem quanto sobra depois de anos simulados de exposição. Com esses resultados, alimentam modelos matemáticos que permitem voltar no tempo e estimar quanto carbono orgânico existia quando a rocha ainda estava protegida abaixo da superfície.
Os cálculos apontam para uma concentração original bem mais alta do que a detectada hoje pelo Curiosity. Segundo o artigo, os valores projetados ultrapassam a faixa esperada para processos puramente não biológicos, mesmo quando se considera um fluxo intenso de meteoritos ricos em carbono ao longo de milhões de anos.
Essa estimativa se soma a outro elemento de contexto. Diversos estudos das últimas décadas mostram que Marte já abrigou grandes volumes de água líquida. Imagens da Nasa e da Agência Espacial Europeia revelam redes de canais e deltas fósseis no Valles Marineris, o maior sistema de cânions do planeta. A interpretação dominante é que rios desaguavam em mares ou lagos estáveis, em escala comparável a oceanos antigos.
Uma superfície com lagos e oceanos, somada a rochas sedimentares ricas em matéria orgânica, desenha um cenário que lembra o início da história da Terra, há bilhões de anos. É nesse ponto que o novo estudo ganha força: ele insere as moléculas detectadas pelo Curiosity em um ambiente que, no passado, pode ter sido habitável de forma duradoura.
O que muda na busca por vida em Marte
A pesquisa não anuncia a descoberta de vida, mas desloca a fronteira do debate. Em vez de perguntar apenas se Marte foi habitável, os cientistas passam a discutir se sinais de antigos organismos já aparecem nos dados existentes. “A hipótese biológica torna-se razoável e deve ser considerada nas próximas análises”, escrevem os autores.
Na prática, o resultado pressiona por missões mais ambiciosas. Projetos de retorno de amostras à Terra, hoje previstos para a década de 2030, ganham novo argumento científico e político. Em laboratórios terrestres, será possível medir com maior precisão a estrutura dessas moléculas, identificar possíveis padrões típicos de processos biológicos e separar, com mais confiança, o que é produto de química inorgânica.
A descoberta também influencia a forma como agências espaciais definem destinos prioritários. Regiões sedimentares que guardaram lagoas e deltas antigos, como a própria Cratera Gale e áreas do Valles Marineris, tendem a atrair mais instrumentos voltados a compostos orgânicos e bioassinaturas, como são chamadas as marcas químicas de atividade biológica.
O impacto extrapola a astrobiologia. Caso a hipótese de vida passada em Marte se fortaleça, modelos sobre a origem da vida no Sistema Solar terão de acomodar um cenário em que processos biológicos surgem de forma independente em pelo menos dois planetas. Questões sobre troca de material entre mundos, por meio de meteoritos, voltam ao centro da pauta científica.
Próximas etapas e perguntas em aberto
O Curiosity segue ativo na Cratera Gale em 2026, mesmo após quase 15 anos na superfície marciana. A equipe planeja direcionar parte dos próximos experimentos a rochas sedimentares ainda pouco estudadas, com potencial de preservar melhor compostos orgânicos antigos.
Novas medições devem alimentar modelos mais refinados de degradação por radiação e ajudar a reduzir incertezas sobre a origem dos compostos. Missões futuras, como sondas dedicadas exclusivamente à busca de bioassinaturas, podem se apoiar nesse trabalho para escolher locais de pouso e estratégias de coleta.
Enquanto isso, o estudo publicado na Astrobiology produz um efeito imediato: recoloca Marte no centro da disputa por recursos espaciais, em um momento de orçamentos apertados e prioridades concorrentes. A possibilidade de que o planeta vermelho tenha abrigado formas de vida, mesmo que simples e antigas, adiciona urgência a decisões que serão tomadas agora, na Terra.
Os cientistas ainda não conseguem dizer se houve, de fato, organismos marcianos. As próximas décadas de exploração vão mostrar se as moléculas encontradas na Cratera Gale são apenas química exótica ou a memória química de uma biosfera perdida.
