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Mojtaba Khamenei se recupera ferido e governa por tela em meio à guerra

Mojtaba Khamenei, 56, governa o Irã de um quarto isolado em Teerã desde que sofreu ferimentos graves em um ataque aéreo em 28 de fevereiro de 2026. Sem aparecer em público, o novo líder supremo mantém influência direta sobre a guerra e as negociações com os Estados Unidos por meio de videoconferências com a cúpula do regime.

Um líder desfigurado, mas ainda no comando

O ataque atinge o coração do poder iraniano: o complexo do líder supremo, no centro de Teerã. O bombardeio, atribuído aos Estados Unidos e a Israel no primeiro dia da guerra, mata o aiatolá Ali Khamenei, no cargo desde 1989, e parte de sua família. Mojtaba, filho e herdeiro político, sobrevive, mas com o rosto desfigurado e ferimentos graves em uma ou ambas as pernas, segundo três fontes próximas ao círculo do líder.

Relatos obtidos sob condição de anonimato descrevem um dirigente fisicamente debilitado, porém mentalmente lúcido. Ele participa de reuniões estratégicas por videoconferência, conversa com generais da Guarda Revolucionária e acompanha em tempo real as negociações de cessar-fogo com Washington, que avançam neste sábado, 11 de abril, em Islamabad, capital do Paquistão. Duas fontes afirmam que Mojtaba intervém em decisões-chave sobre o rumo da guerra e sobre a posição iraniana na mesa de diálogo.

A dimensão exata dos ferimentos permanece cercada de sigilo. Em 13 de março, o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, declara que o líder iraniano está “ferido e provavelmente desfigurado”. Uma fonte familiarizada com avaliações de inteligência dos EUA diz acreditar que Mojtaba perdeu uma perna. A CIA se recusa a comentar. O gabinete do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, também não responde às perguntas sobre o ataque.

Em Teerã, o silêncio oficial alimenta o mistério. Não há fotos, vídeos ou áudios de Mojtaba desde o ataque e desde sua nomeação como sucessor do pai, em 8 de março. A missão iraniana na ONU ignora questionamentos sobre o estado de saúde do líder e sobre os motivos da ausência prolongada. A única referência pública, feita por um apresentador da TV estatal, o chama de “janbaz”, termo reservado a combatentes gravemente feridos em guerra, um rótulo que tenta transformar trauma pessoal em capital político.

Guerra, sucessão e disputa por poder em Teerã

A sucessão ocorre sob bombardeios. O ataque de 28 de fevereiro marca o início formal da ofensiva conjunta dos EUA e de Israel contra alvos do regime iraniano. Além de Ali Khamenei, morrem, no mesmo golpe, a esposa de Mojtaba, um cunhado e uma cunhada. A perda familiar, somada à morte do líder que comandou o país por 35 anos, aprofunda a sensação de vácuo e fragilidade no topo da República Islâmica.

No desenho teocrático iraniano, o líder supremo é escolhido por uma assembleia de 88 aiatolás e ocupa o centro do sistema: supervisiona o presidente eleito, influencia o Judiciário, controla os meios de comunicação estatais e comanda diretamente a poderosa Guarda Revolucionária. Foi assim com Ruhollah Khomeini, o fundador da República Islâmica, cuja autoridade carismática era praticamente incontestável. O sucessor, Ali Khamenei, menos reverenciado como clérigo, levou décadas para consolidar poder, em grande parte ao fortalecer os militares da Guarda.

Mojtaba herda o título, mas não a mesma autoridade automática. Analistas como Alex Vatanka, do Middle East Institute, avaliam que o novo líder não tem condições, ao menos por ora, de exercer o poder absoluto do pai. “Mojtaba será uma voz, mas não será a decisiva”, afirma o pesquisador. A Guarda Revolucionária, que atua como garantidora de sua ascensão após o assassinato de Ali Khamenei, emerge como protagonista nas decisões estratégicas em meio à guerra.

Fontes iranianas de alto escalão relatam que, mesmo antes de assumir, Mojtaba já circulava entre os generais e membros influentes da Guarda, oferecendo conselhos e articulando alianças. Isso o projeta como defensor da linha dura, embora pouco se saiba sobre sua visão de mundo além do círculo fechado do regime. Desde 12 de março, suas mensagens ao público iraniano chegam apenas por textos lidos por apresentadores: um alerta para manter o Estreito de Ormuz fechado e um recado aos países vizinhos para que encerrem o funcionamento de bases norte-americanas, seguido, em 20 de março, por uma saudação ao Ano Novo Persa, batizado de “ano da resistência”.

Outros rostos, porém, dominam os microfones. Ministros, comandantes militares e negociadores diplomáticos respondem por quase todas as declarações de política externa, cessar-fogo, relações regionais e repressão interna. A divisão de falas sugere, ao mesmo tempo, cautela com a segurança de Mojtaba e uma redistribuição prática de poder entre diferentes alas do regime, com a Guarda em posição de vantagem.

Vácuo de imagem, pressão nas ruas e cálculo externo

O apagão visual sobre o novo líder alimenta especulações dentro e fora do país. Nas redes sociais iranianas e em grupos de mensagens, sempre que a internet instável permite, multiplicam-se teorias da conspiração sobre seu real estado de saúde e sobre quem de fato governa. Um meme viral mostra uma cadeira vazia sob um holofote, acompanhada da frase: “Onde está Mojtaba?”. A pergunta ecoa o clima de desconfiança que marca o período mais tenso para o regime em décadas.

Entre apoiadores do governo, a narrativa é outra. Integrantes da milícia Basij, força paramilitar ligada à Guarda, defendem que a reclusão é questão de sobrevivência. “Por que ele deveria aparecer em público? Para se tornar um alvo desses criminosos?”, escreve Mohammad Hosseini, militante de baixa patente em Qom, em mensagem a contatos. Um dirigente sênior da Basij argumenta que a liderança precisa “manter perfil discreto” até que a onda de ataques aéreos diminua.

O impasse interno coincide com o momento mais sensível da frente diplomática. Delegações de Washington e Teerã se reúnem em Islamabad para tentar costurar um cessar-fogo duradouro e evitar que a guerra aberta, iniciada há pouco mais de um mês, se espalhe pela região. Autoridades paquistanesas destacam o papel central do enviado americano J.D. Vance nas conversas e descrevem um processo frágil, no qual cada gesto em Teerã pesa nas decisões da mesa de negociação.

A percepção de que o novo líder supremo governa ferido e sob forte influência militar entra no cálculo de capitais estrangeiras. Para rivais regionais, como Arábia Saudita e Israel, a combinação de incerteza na sucessão, fortalecimento da Guarda Revolucionária e retórica de “resistência” levanta o risco de ações mais imprevisíveis, em especial no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo negociado no mundo.

Dentro do Irã, a ausência pública de Mojtaba abre espaço para disputas silenciosas em conselhos clericais, comandos militares e gabinetes ministeriais. O equilíbrio delicado entre teólogos, generais e tecnocratas se redefine enquanto bombas caem e diplomatas correm contra o relógio. Uma fonte próxima ao círculo do líder afirma que imagens de Mojtaba podem ser divulgadas em um ou dois meses e que há planos para uma aparição pública nesse período, “se a saúde e a segurança permitirem”.

Um poder em teste sob fogo cruzado

As próximas semanas testam, ao mesmo tempo, a capacidade de Mojtaba Khamenei de se firmar como líder e a resistência institucional da República Islâmica. O resultado das conversas em Islamabad, a intensidade dos ataques aéreos e a disposição da Guarda Revolucionária em dividir espaço com outras facções vão definir se o novo dirigente conseguirá transformar a imagem de sobrevivente de guerra em fonte de legitimidade.

Sem fotos, sem discursos e com o poder repartido de fato entre militares e clérigos, o Irã entra em uma fase em que o centro do regime existe principalmente por meio de telas e comunicados escritos. O momento de perigo máximo, com guerra aberta e pressão internacional crescente, pode acelerar a consolidação de Mojtaba ou expor fissuras que, até aqui, estavam contidas nos corredores de Teerã. A resposta à pergunta que circula nos memes – onde está Mojtaba? – vai dizer também onde quer chegar o regime iraniano.

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