Mojtaba Khamenei é gravemente ferido em ataque e governa à distância
Mojtaba Khamenei, novo líder supremo do Irã, sofre ferimentos graves e desfiguração facial em ataque aéreo ao complexo da liderança em Teerã, em 28 de fevereiro de 2026. Mesmo em recuperação e longe dos holofotes, ele continua a participar das principais decisões da guerra e das negociações com os Estados Unidos.
Líder ferido em meio à guerra e negociações
O ataque que atinge o centro do poder iraniano marca o início da guerra lançada por Estados Unidos e Israel contra Teerã. O bombardeio ao complexo do líder supremo, no coração da capital, mata o aiatolá Ali Khamenei, no poder desde 1989, e atinge em cheio seu filho e herdeiro político, Mojtaba, hoje com 56 anos.
Três pessoas com acesso ao círculo íntimo do novo líder descrevem ferimentos extensos no rosto e em uma ou ambas as pernas. Uma fonte familiarizada com avaliações de inteligência dos EUA afirma que ele provavelmente perde uma das pernas. As fontes pedem anonimato, alegando riscos pessoais e sensibilidade do tema.
A ausência total de imagens desde o ataque alimenta o mistério. Em 8 de março, dez dias após o bombardeio, Mojtaba é nomeado sucessor do pai pela Assembleia de Peritos, o colegiado de 88 aiatolás encarregado de escolher o líder supremo. Desde então, nenhum vídeo, foto ou registro de áudio é divulgado, mesmo com a guerra avançando e o país sob pressão interna e externa.
Apenas uma expressão escapa na televisão estatal. Ao anunciar sua ascensão, um apresentador o chama de “janbaz”, termo usado no Irã para combatentes gravemente feridos em guerra. A palavra, repetida em canais oficiais, funciona como confirmação indireta de que o homem mais poderoso do país não sai ileso do ataque que mata o pai, a esposa, o cunhado e a cunhada.
A missão iraniana na ONU não responde às perguntas sobre o estado de saúde do líder nem explica o silêncio visual que dura mais de um mês. Em 13 de março, o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, declara que Mojtaba está “ferido e provavelmente desfigurado”, em linha com avaliações de inteligência citadas por fontes ocidentais. A CIA evita comentar, assim como o gabinete do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.
Poder compartilhado e avanço da Guarda Revolucionária
O vácuo de presença física não significa ausência de comando. Duas das fontes ouvidas afirmam que Mojtaba participa de reuniões com altos funcionários por videoconferência, a partir de local mantido em sigilo. Ele discute a condução da guerra, o ritmo dos ataques de retaliação e os limites das concessões nas conversas com Washington.
A guerra força decisões rápidas enquanto as negociações de paz começam neste sábado, 11 de abril, em Islamabad, capital do Paquistão. O vice-presidente americano, JD Vance, desembarca na cidade para encontro com representantes iranianos em meio a um cessar-fogo frágil. Uma autoridade paquistanesa descreve Vance como “fundamental” para destravar o diálogo.
No Irã, porém, a figura que se fortalece de forma mais visível é a Guarda Revolucionária. Generalato e serviços de inteligência ligados à força assumem a linha de frente das decisões estratégicas. Fontes iranianas de alto escalão, ouvidas nas últimas semanas, descrevem um cenário em que a Guarda emerge como “voz dominante” na definição de ataques, alianças regionais e respostas às pressões internacionais.
O pesquisador Alex Vatanka, do Middle East Institute, em Washington, afirma que, mesmo se se recuperar bem, Mojtaba dificilmente alcança o poder absoluto exercido pelo pai. “Mojtaba será uma voz, mas não será a decisiva”, diz. “Ele precisa provar ser a voz crível, poderosa e predominante. O regime como um todo precisa decidir para onde vai.”
O contraste com as décadas anteriores é central para entender a disputa atual. Ruhollah Khomeini, fundador da República Islâmica em 1979, governa com autoridade praticamente incontestável até sua morte, em 1989. Ali Khamenei, então presidente, assume com peso religioso menor, mas passa mais de 30 anos consolidando o comando, em parte ao ampliar o poder da própria Guarda Revolucionária. Mojtaba herda o sistema já militarizado, mas ainda não possui o capital político ou religioso que sustentava o pai.
Na prática, generais, comandantes de milícias e altos funcionários civis ocupam o espaço deixado pelo líder ferido. Eles dão entrevistas, anunciam linhas vermelhas, comentam as negociações de cessar-fogo e definem o tom das ameaças regionais. O gabinete de Mojtaba limita-se a notas curtas e cuidadosamente redigidas.
Silêncio público, redes em ebulição
A primeira comunicação de Mojtaba como líder supremo ocorre em 12 de março. Um apresentador de TV lê um texto em seu nome. O comunicado defende que o estreito de Ormuz, corredor por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial transportado por mar, permaneça fechado. Ele alerta países vizinhos para que encerrem a presença militar americana em seus territórios.
Em 20 de março, outra mensagem escrita saúda o Ano Novo persa e batiza 1405, segundo o calendário iraniano, como o “ano da resistência”. Desde então, qualquer formulação mais ampla de política externa, negociação de paz ou gestão da crise econômica aparece na voz de outros dirigentes, civis e militares.
Nas redes sociais iranianas, entre quedas constantes de internet e bloqueios a aplicativos, a ausência do líder vira assunto diário. Um meme se espalha com força: a foto de uma cadeira vazia sob um holofote, acompanhada da frase “Onde está Mojtaba?”. Há quem ironize o sumiço, sugerindo que o país é hoje governado por uma combinação de generais e fantasmas.
A base militante responde com defesa cerrada. Um integrante sênior da milícia Basij, braço paramilitar ligado à Guarda, afirma em conversas privadas que a discrição é uma exigência de segurança, não sinal de fraqueza. Um combatente de baixa patente, Mohammad Hosseini, da cidade sagrada de Qom, reforça o argumento em mensagem de texto: “Por que ele deveria aparecer em público? Para se tornar um alvo desses criminosos?”.
Entre diplomatas estrangeiros e analistas, a leitura predominante é que o regime se equilibra entre proteger o líder ferido e evitar a impressão de paralisia. A ausência de imagens prolonga a incerteza sobre sua real capacidade física, enquanto a continuidade de decisões centralizadas indica que o núcleo duro do sistema ainda funciona.
Negociações em Islamabad e teste de autoridade
O início das conversas diretas entre Irã e Estados Unidos no Paquistão expõe a fragilidade desse arranjo. Qualquer acordo sobre cessar-fogo, reabertura de Ormuz ou redução da presença de milícias aliadas de Teerã em países vizinhos exige compromisso de longo prazo. A validade dessas promessas depende, em última instância, do líder supremo e da unidade da elite em torno dele.
Dentro do Irã, diferentes facções testam limites. Setores mais pragmáticos do establishment enxergam nas conversas de Islamabad uma chance de aliviar sanções que asfixiam a economia há anos. Correntes mais ideológicas, ancoradas em parte da Guarda Revolucionária, preferem explorar o momento como “ano da resistência”, apostando que pressão militar e retórica dura arrancam concessões maiores do Ocidente.
Uma das pessoas próximas ao círculo de Mojtaba afirma que imagens do líder podem ser divulgadas em “um ou dois meses”, caso médicos e conselheiros de segurança considerem seguro. As três fontes, no entanto, repetem a mesma condição: ele só aparecerá quando a combinação entre saúde e ambiente militar permitir.
Enquanto isso, a cadeira vazia continua a dominar o imaginário interno e externo sobre o poder em Teerã. Nas próximas semanas, o desenrolar da guerra, o ritmo das negociações em Islamabad e qualquer sinal público de Mojtaba Khamenei vão indicar se o país entra em uma fase de poder compartilhado permanente ou se o novo líder conseguirá, apesar das cicatrizes, impor a autoridade que ainda lhe falta.
