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Mojtaba Khamenei assume o Irã sob tutela da Guarda Revolucionária

Mojtaba Khamenei assume, em meio à guerra e a ataques em série desde 2024, o posto de líder supremo do Irã após a morte do pai, Ali Khamenei. A sucessão, apoiada pela Guarda Revolucionária Islâmica, preserva a arquitetura teocrática do regime, mas expõe uma hierarquia ferida e mais dependente dos militares.

Sucessão acelerada em meio à guerra

Ali Khamenei, no poder desde 1989, morre nos primeiros ataques da nova fase da guerra no Oriente Médio, entre o fim de 2025 e o início de 2026. A morte atinge o centro de um sistema político construído há 45 anos sobre a figura do líder supremo e o princípio da velayat-e faqih, a doutrina que entrega o comando do Estado a um jurista religioso que governa em nome do 12º imã do xiismo.

Em questão de dias, o filho, Mojtaba Khamenei, é confirmado como novo líder, num processo que mistura rito constitucional e correlação de forças. O gabinete do líder, o poderoso bayt, mantém sua máquina de assessores e emissários espalhada por ministérios, Forças Armadas e Judiciário, mas perde a autoridade carismática que Ali Khamenei acumulou em 35 anos.

Mojtaba herda os poderes formais, mas não a obediência automática. Sua indicação nasce menos de um consenso clerical e mais da necessidade de continuidade defendida pela Guarda Revolucionária, que se torna o fiador de uma transição feita sob bombardeio e sanções. A TV estatal o apresenta como janbaz, “veterano ferido”, depois que ele se machuca nos ataques de 2026.

Três semanas após a nomeação, o novo líder permanece invisível ao público. Não aparece em fotos nem em vídeos oficiais e emite apenas duas notas por escrito. O silêncio alimenta dúvidas sobre seu estado de saúde e sobre quem, de fato, toma as decisões no momento em que o Irã responde a ataques dos Estados Unidos e de Israel em seu território.

Guarda Revolucionária ocupa o centro do tabuleiro

A Guarda Revolucionária Islâmica chega a 2026 como o principal eixo de continuidade do regime. O corpo militar, criado logo após a revolução de 1979, já vinha ampliando seu alcance econômico e político havia décadas. A morte de Ali Khamenei e os ataques que atingem Teerã e instalações estratégicas aceleram essa centralização.

A organização adota uma estrutura em “mosaico”, com listas de substitutos para cada comando e planos predefinidos para operar mesmo sob perda de chefias. Vários generais morrem desde setembro de 2024, num ciclo de ataques seletivos, e novas baixas ocorrem nos primeiros meses de 2026. Mesmo assim, unidades continuam a lançar mísseis, coordenar milícias aliadas e gerir a defesa de fronteiras.

A morte de Alireza Tangsiri, chefe da Marinha da Guarda desde 2018, atinge diretamente a estratégia de estrangular a navegação no Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 20% do petróleo marítimo global. Outro golpe vem com o assassinato de dois comandantes sucessivos do corpo, obrigando o regime a recorrer a um veterano que já liderou a Força Quds, foi ministro da Defesa e participou da repressão a protestos internos.

Esse novo comandante, figura discreta, mantém desde 2020 a articulação com grupos aliados no Iraque, no Líbano, na Síria e na Faixa de Gaza, depois da morte de Qassem Soleimani em 2020 por um drone americano. A rede de milícias segue sendo a principal carta externa do Irã para pressionar Israel, conter rivais árabes e aumentar o custo de qualquer ofensiva dos EUA.

No plano político, o vácuo deixado por Ali Larijani, conselheiro influente do antigo líder, elimina um dos poucos articuladores capazes de transitar entre facções rivais em Teerã. A avaliação de diplomatas na região é que seus substitutos tendem a ser mais linha-dura e menos dispostos a compromissos com potências ocidentais.

Disputa de influência em Teerã e impactos externos

A presidência e o Parlamento mantêm espaço formal, mas operam em um corredor mais estreito. Masoud Pezeshkian, presidente eleito em 2024 com discurso moderado, testa esses limites quando pede desculpas, em março de 2026, a países do Golfo pelos ataques iranianos em seus territórios. A reação da Guarda é imediata, e ele recua parcialmente em questão de dias.

Na outra ponta do espectro, conservadores como o clérigo linha-dura ligado ao Conselho dos Guardiães, e o veterano negociador nuclear derrotado na eleição de 2024, ganham peso na definição de vetos e candidaturas futuras. O conselho, que já exclui dezenas de nomes a cada eleição, funciona como filtro político em um sistema que combina voto popular com tutela religiosa.

Mohammad Bagher Qalibaf, ex-comandante da Guarda, ex-prefeito de Teerã e candidato derrotado à presidência, emerge como o civil mais poderoso ainda em cena. Ele assume o papel de rosto político do regime, dá entrevistas frequentes sobre a guerra e, segundo um oficial israelense e uma fonte com conhecimento direto, negocia de forma discreta com representantes dos EUA nos últimos dias.

O Judiciário continua nas mãos de figuras sancionadas por repressão interna, como o ex-chefe da inteligência Gholamhossein Mohseni-Ejei, apontado por organizações de direitos humanos por seu papel nas mortes de manifestantes em 2009. Essa configuração reduz o espaço para reformas e indica que protestos semelhantes aos de 2019 e 2022 enfrentariam resposta ainda mais dura.

No tabuleiro regional, a sucessão de Mojtaba não muda o alinhamento central. Teerã mantém laços estreitos com Rússia e China, que condenam publicamente os ataques de EUA e Israel contra líderes iranianos. Moscou classifica as operações como “assassinato” político, enquanto Pequim insiste em negociações para evitar uma ruptura total no fluxo de petróleo do Golfo.

Um regime ferido, mas ainda funcional

A combinação de sucessão dinástica, guerra aberta e sanções mais duras empurra o sistema iraniano para maior militarização. A Guarda Revolucionária ganha ainda mais influência sobre orçamentos, nomeações estratégicas e política externa. Empresários ligados ao corpo militar tendem a ampliar o controle sobre contratos de energia, construção e telecomunicações, em um ambiente em que investidores estrangeiros recuam.

Para a população iraniana, o resultado é um Estado que prioriza segurança e sobrevivência do regime sobre bem-estar econômico de curto prazo. A inflação acumulada em anos de sanções, a queda nas exportações de petróleo desde 2024 e o custo da guerra ampliam o desgaste interno, mas o sistema em camadas – líder, clericato, Guarda, Judiciário e conselhos de supervisão – dificulta qualquer ruptura rápida.

Diplomatas na região descrevem o momento como uma “janela estreita” para negociações indiretas. Se Mojtaba conseguir consolidar autoridade nos próximos meses, o Irã tende a responder a pressões de EUA e Israel com atos calibrados de força, como ataques por procuração e ameaças à navegação no Golfo. Se a fragilidade interna prevalecer, cresce o risco de ações mais imprevisíveis, destinadas a recompor prestígio pela via militar.

A pergunta que permanece, em Teerã e nas capitais ocidentais, é se o novo líder governará o sistema ou será apenas o rosto religioso de um regime cada vez mais comandado pelos generais da Guarda Revolucionária.

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