Mojtaba Khamenei assume liderança do Irã sob sombra da Guarda Revolucionária
Mojtaba Khamenei assume, em 2026, o posto de líder supremo do Irã após o assassinato do pai, Ali Khamenei, mas encontra um poder fragmentado e vigiado pela Guarda Revolucionária. A sucessão preserva a fachada teocrática do regime, enquanto transfere o centro real de decisões para a cúpula militar.
Um herdeiro sem a autoridade do pai
O novo líder chega ao topo da República Islâmica com o título, as prerrogativas formais e o peso simbólico da função, mas sem a autoridade quase absoluta do pai, que comandou o país desde 1989. Mojtaba herda um sistema em guerra, marcado por ataques dos Estados Unidos e de Israel, e por um trauma interno raro: a morte do aiatolá Ali Khamenei, figura que durante 35 anos teve a palavra final em praticamente todas as decisões estratégicas.
O cargo de líder supremo, previsto pela doutrina de velayat-e faqih, concentra poder religioso e político em um único clérigo, que governa em nome do 12º imã xiita. Na prática, esse poder é exercido a partir do bayt, o gabinete do líder, uma estrutura ampla que infiltra assessores e representantes em ministérios, Forças Armadas, parlamento e Judiciário. Foi desse núcleo que o velho Khamenei construiu uma rede de lealdades difícil de replicar.
Mojtaba chega por outra via. Seu nome circula há anos em Teerã como operador discreto nas sombras do gabinete do pai. Ganha o posto após um processo acelerado de sucessão, concluído poucas semanas depois do ataque que matou o aiatolá em 2026. Ao contrário da transição controlada de 1989, quando o próprio sistema moldou a ascensão de Ali Khamenei, agora o impulso parte principalmente da Guarda Revolucionária Islâmica.
O novo líder é, em grande medida, a escolha do corpo militar. Isso lhe entrega o cargo, mas reduz a margem para contrariar os chefes fardados. Mojtaba foi ferido nos ataques iniciais da guerra e a TV estatal o descreve como “janbaz”, veterano ferido, rótulo que busca construir legitimidade num país onde a guerra Irã-Iraque, entre 1980 e 1988, ainda define o imaginário nacional. Passadas mais de três semanas da nomeação, ele não aparece em fotos ou vídeos oficiais, limitando-se a duas declarações escritas. O silêncio alimenta dúvidas sobre sua saúde e sobre quanto ele efetivamente governa.
Guarda Revolucionária ocupa o centro do tabuleiro
A morte de Ali Khamenei acelera uma transformação que vinha em curso há décadas: o deslocamento gradual do eixo de poder da hierarquia clerical para a Guarda Revolucionária. Criada em 1979 para proteger a revolução, a força se converte em exército paralelo, potência econômica e máquina política. Em meio à guerra atual, assume um papel ainda mais central na definição de estratégias militares, de segurança e externas.
O desenho da Guarda foi pensado para resistir a tentativas de decapitação. O corpo opera em “estrutura em mosaico”: cada comandante tem substitutos já definidos, e as unidades treinam para atuar de forma autônoma, seguindo planos detalhados. No início do conflito, uma série de ataques dos EUA e de Israel mata diversos generais, entre eles Alireza Tangsiri, chefe da Marinha da Guarda desde 2018, apontado por analistas como peça-chave em qualquer tentativa de fechar o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo transportado por mar no mundo.
Os comandos perdidos são rapidamente substituídos por oficiais veteranos da guerra Irã-Iraque e da Força Quds, o braço externo encarregado de apoiar grupos aliados na região. O novo comandante-geral da Guarda, nomeado após o assassinato de dois antecessores em sequência, já foi ministro da Defesa, chefiou a Quds e liderou operações de repressão a protestos internos, como os de 2009. É ele quem hoje costura, em nome de Teerã, a relação com milícias e aliados no Líbano, Iraque, Síria e Iêmen, posição ocupada até 2020 pelo general Qassem Soleimani, morto por um drone americano.
O sistema político iraniano preserva a aparência de pluralidade, com um presidente eleito e um parlamento ativo. Mas a margem de ação civil encolhe. O presidente Masoud Pezeshkian, eleito em 2024 com discurso moderado, enfrenta o limite da sua influência. Quando pede desculpas, neste mês, a países do Golfo por ataques disparados a partir do território iraniano, provoca reação imediata da Guarda e é obrigado a refazer parte das declarações. O episódio expõe quem dita as linhas vermelhas.
Na arena política, figuras de peso como Ali Larijani, ex-presidente do Parlamento e conselheiro-chave de Khamenei, são mortas nos primeiros dias da guerra. Larijani, há anos ponto de contato entre diferentes facções, deixa um vácuo que tende a ser preenchido por quadros mais linha-dura. Sobrevive Mohammad Bagher Qalibaf, ex-comandante da Guarda, ex-prefeito de Teerã e candidato derrotado à Presidência, que ganha espaço como articulador civil do discurso de guerra. Segundo um oficial israelense e uma fonte próxima às negociações, ele conduz conversas indiretas com os EUA nos últimos dias.
Regime mais duro, com menos margens para recuo
O assassinato de Ali Khamenei não desmonta o sistema, mas o torna mais opaco e menos flexível. A República Islâmica nasce, em 1979, com camadas de poder sobrepostas e instituições pensadas para sobreviver à perda de líderes individuais. Essa engenharia permite que o regime mantenha, quase meio século depois, uma linha de continuidade, mesmo sob pressão militar e econômica intensa.
Quem ganha, neste momento, é a ala mais rígida do establishment, que se articula entre a cúpula da Guarda, parte do clero e magistrados linha-dura como Gholam-Hossein Mohseni-Ejei, atual chefe do Judiciário, sancionado por seu papel na repressão violenta aos protestos de 2009. Esses grupos bloqueiam tentativas de abertura política e reforçam a narrativa de cerco externo, em especial contra Estados Unidos e Israel, para justificar repressão interna e mobilização permanente.
Quem perde são as correntes reformistas e pragmáticas que, desde o fim dos anos 1990, tentam suavizar a confrontação com o Ocidente e aliviar o isolamento econômico. A morte de negociadores experientes e a ascensão de substitutos mais duros dificultam qualquer retomada rápida de acordos sobre o programa nuclear, sanções ou conflitos regionais. Mesmo diplomatas de carreira, que durante anos lidam com Rússia, China e monarquias árabes do Golfo, se veem agora obrigados a seguir um roteiro definido pela lógica militar.
No plano regional, a nova configuração em Teerã indica continuidade, e não recuo, na estratégia de projeção de força: apoio a grupos armados aliados, pressão sobre rotas estratégicas como Ormuz e o Mar Vermelho, e resposta assimétrica a ataques diretos. A Rússia, que condena os assassinatos de líderes iranianos como “atos de terrorismo” e “assassinato político”, explora o desgaste de Washington na região e se apresenta como parceira confiável de Teerã.
Futuro do poder iraniano em cenário de guerra aberta
A transição para Mojtaba Khamenei fecha rapidamente o vácuo formal de liderança, mas deixa abertas questões fundamentais. A principal é quem, em última instância, toma as decisões em Teerã: o novo líder, debilitado e ausente do olhar público, ou a direção colegiada da Guarda Revolucionária, apoiada por clérigos e juízes linha-dura.
Nas próximas semanas, sinais concretos podem emergir: aparições públicas de Mojtaba, ajustes no gabinete, mudanças nos comandos da Guarda, ou gestos em direção a negociações indiretas com os EUA e com potências europeias. O padrão de ataques e respostas no Golfo Pérsico, inclusive sobre o Estreito de Ormuz, servirá de termômetro para medir o grau de risco de uma escalada regional mais ampla.
O conflito atual testa o limite de uma estrutura desenhada para resistir a choques externos e crises internas. Até aqui, o mosaico de substitutos e a combinação de liderança religiosa e militar seguram o edifício no lugar. A dúvida que paira sobre Teerã é se esse arranjo, agora ainda mais concentrado na Guarda Revolucionária, será capaz de garantir não apenas a sobrevivência do regime, mas algum espaço de manobra para evitar que a guerra em curso transforme o Irã em epicentro de uma nova convulsão no Oriente Médio.
