Missão prevê interceptar cometa interestelar com manobra extrema no Sol
Uma equipe internacional de pesquisadores detalha, em novo estudo, um plano para interceptar o cometa interestelar 3I/ATLAS usando uma manobra radical no Sistema Solar. A missão, que teria lançamento ideal em 2035 e chegada ao alvo entre 2070 e 2085, aposta em um sobrevoo por Júpiter e em uma aceleração extrema nas proximidades do Sol.
Corrida contra o tempo para alcançar um visitante único
O 3I/ATLAS é apenas o terceiro objeto conhecido que vem de fora do Sistema Solar e cruza a vizinhança da Terra em velocidade alta demais para uma missão convencional. O cometa viaja em uma órbita alongada e fora do plano em que os planetas giram, o que torna inutilizáveis os atalhos que funcionam para visitas a Júpiter, Saturno ou além.
Os autores do estudo concluem que qualquer tentativa direta de perseguição, apenas com foguetes tradicionais, falha antes mesmo do desenho da rota. A nave simplesmente não consegue igualar a combinação de velocidade e direção do 3I/ATLAS. Eles defendem que, para transformar o encontro em realidade, é preciso explorar ao limite o que o próprio Sistema Solar oferece: a gravidade de seus corpos e a energia concentrada ao redor do Sol.
Como uma volta por Júpiter leva ao coração do Sistema Solar
O roteiro proposto começa com um lançamento da Terra por volta de 2035, data que o estudo aponta como a janela mais eficiente em termos de combustível e tempo. Depois de deixar a órbita terrestre, a nave seguiria rumo a Júpiter, não para visitá-lo, mas para usar o planeta gigante como estilingue gravitacional.
Ao contornar Júpiter, a espaçonave rouba um pouco da energia orbital do planeta e muda de trajetória. Em vez de seguir para o fundo escuro do Sistema Solar, ela mergulha em direção ao Sol. É nesse mergulho que entra a chamada Manobra Solar de Oberth, uma técnica em que os motores são acionados exatamente no ponto de maior aproximação à estrela, quando a nave já se move muito rápido.
O efeito, descrito pela física há décadas, é simples na teoria e brutal na prática: queimar combustível quando a nave está mais veloz rende muito mais aceleração do que em qualquer outro ponto da órbita. Perto do Sol, a espaçonave converte cada gota de propelente em um ganho de velocidade capaz de colocá-la na trilha do cometa interestelar.
Para isso, porém, o veículo precisa sobreviver a um ambiente extremo. O escudo térmico deve encarar temperaturas muitas vezes superiores às vividas pela sonda Parker Solar Probe, que já se aproxima a menos de 10 milhões de quilômetros da superfície solar. Quanto mais perto a missão chegar da estrela, maior o impulso obtido e menor o combustível necessário, mas também maior o estresse sobre a estrutura.
Viagem de até 50 anos por alguns minutos de ciência
Mesmo com o atalho gravitacional por Júpiter e a manobra de Oberth, o tempo não joga a favor. O estudo prevê um voo de 35 a 50 anos entre o lançamento e a passagem pelo 3I/ATLAS, o que coloca a interceptação entre 2070 e 2085. Missões com duração inferior a três décadas são classificadas como impraticáveis dentro dessa arquitetura.
O encontro, se ocorrer, será um sobrevoo rápido. A nave não entra em órbita do cometa, porque igualar sua trajetória exigiria mais combustível e velocidade do que qualquer foguete atual pode fornecer. Em vez disso, ela passa a alta velocidade, coleta imagens, mede partículas ao redor do núcleo e analisa a composição do material que escapa do corpo gelado.
As imagens recentes obtidas pelo Telescópio Óptico Nórdico, em 11 de novembro de 2025, ajudam a refinar os parâmetros da missão. Com dados mais precisos sobre o brilho, a cauda e a órbita do 3I/ATLAS, os pesquisadores conseguem ajustar a janela de encontro e a necessidade de instrumentos a bordo. Cada quilograma de carga científica conta, porque grande parte da massa do veículo precisa ser dedicada ao escudo térmico e ao propelente.
A equipe por trás da proposta admite o desafio técnico, mas insiste na recompensa científica. Um cometa interestelar carrega gelo, poeira e moléculas formadas em outro sistema estelar, sob condições que podem ser diferentes das que moldaram o Sistema Solar. Medir diretamente essa composição permite comparar origens, testar modelos de formação planetária e investigar se os ingredientes básicos da vida se repetem em outros cantos da galáxia.
Tecnologia extrema, cooperação longa e impacto científico duradouro
Uma missão com meio século de duração exige mais do que inovação em escudos térmicos e motores. Exige também uma arquitetura institucional capaz de atravessar gerações de cientistas, engenheiros e financiadores. Orçamentos precisam ser planejados para décadas, com acordos internacionais capazes de sobreviver a mudanças políticas.
Os autores do estudo veem a interceptação do 3I/ATLAS como um laboratório para o próprio futuro da exploração espacial profunda. As técnicas de navegação próximas ao Sol, os materiais resistentes à radiação intensa e a eletrônica projetada para funcionar por 40 ou 50 anos podem servir depois a missões para o espaço interestelar ou para sondas rápidas aos confins da Nuvem de Oort.
Os riscos são claros. Uma falha no escudo térmico condena a nave ainda no mergulho solar. Uma anomalia de navegação pode fazer o veículo errar o cometa por milhões de quilômetros após décadas de viagem. O retorno científico, por outro lado, alimenta não apenas a astrofísica, mas também áreas como ciência de materiais, propulsão avançada e análise de riscos de objetos vindos de fora do Sistema Solar.
Ao aproximar a comunidade científica de um visitante interestelar, a missão também redefine a escala de tempo da própria pesquisa. Quem desenha hoje os primeiros rascunhos talvez não esteja vivo quando os dados chegarem à Terra. A aposta é que, até lá, o conhecimento acumulado sobre esses viajantes cósmicos transforme em rotina aquilo que hoje ainda soa como ficção científica: perseguir e estudar, de perto, corpos que nascem em outras estrelas.
