Ciencia e Tecnologia

Missão para alcançar cometa interestelar mira lançamento em 2035

Uma equipe internacional de cientistas prepara, para 2035, o lançamento de uma missão inédita rumo ao cometa interestelar 3I/ATLAS. O plano prevê um sobrevoo único, entre 2070 e 2085, após uma viagem de até 50 anos pelo Sistema Solar.

Uma corrida contra a órbita e o tempo

O 3I/ATLAS é apenas o terceiro objeto conhecido vindo de fora do Sistema Solar, depois de ‘Oumuamua, em 2017, e do cometa 2I/Borisov, em 2019. Ele cruza o espaço em alta velocidade e segue uma trajetória tão inclinada que torna impossível uma missão tradicional de encontro e desaceleração. Os pesquisadores concluem que a única opção realista é um sobrevoo rápido, em que a sonda passa pelo alvo em frações de hora, colhendo o máximo de dados possível.

A janela de lançamento de 2035 surge como a combinação mais eficiente entre posição dos planetas, energia necessária e limites tecnológicos atuais. Mesmo assim, o tempo de voo estimado varia de 35 a 50 anos. O encontro com o cometa, se a missão sair do papel, ocorre apenas entre 2070 e 2085. “Estamos planejando uma missão que será executada, em sua fase crucial, por uma geração que ainda está na escola hoje”, resume, em tom didático, um dos autores do estudo.

Manobra radical com Sol e Júpiter

Para alcançar um objeto tão rápido, os cientistas recorrem a uma estratégia pouco usual, chamada Manobra Solar de Oberth. A sonda parte da Terra, segue até Júpiter e usa a gravidade do gigante gasoso para mudar de rota e mergulhar em direção ao Sol. No ponto de maior aproximação à estrela, os motores são acionados com força máxima. A nave aproveita a enorme velocidade que já possui ali e extrai um ganho extra de energia, como um carro que acelera na descida para ganhar mais impulso.

Esse tipo de manobra funciona no papel há décadas, mas nunca é tentado tão perto do Sol com uma nave tripulada de instrumentos caros. O estudo indica que a aproximação exigirá um escudo térmico tão robusto quanto, ou mais, que o da sonda Parker Solar Probe, que hoje chega a menos de 7 milhões de quilômetros da superfície solar. A nave precisa sobreviver ao calor extremo sem derreter antenas, sensores e sistemas de navegação. “O escudo térmico é o gargalo tecnológico mais óbvio”, reconhecem os autores. Cada quilo de proteção pesa na conta final, porque reduz o espaço para câmeras, espectrômetros e outros instrumentos científicos.

Ciência em poucos minutos de encontro

O sobrevoo do 3I/ATLAS dura pouco, mas carrega ambição científica alta. A sonda chegará ao cometa em velocidade relativa de dezenas de quilômetros por segundo. Em poucos minutos, precisa registrar imagens de alta resolução, medir composição química do gás e da poeira que o envolvem e analisar o núcleo gelado, invisível a olho nu. Qualquer erro de apontamento pode custar décadas de espera.

Os pesquisadores defendem que, mesmo com um encontro tão curto, os dados valem o investimento. Objetos interestelares trazem material formado em torno de outras estrelas, em condições muito diferentes das do nascimento do Sistema Solar. Entender do que é feito o 3I/ATLAS pode revelar como se formam cometas em outras regiões da galáxia e que tipos de moléculas orgânicas circulam livremente entre os sistemas estelares. Essa informação alimenta modelos sobre a origem de planetas e até sobre como ingredientes da vida podem viajar pelo espaço.

Impacto tecnológico e disputa por orçamento

Uma missão com lançamento em 2035 e chegada por volta de 2080 não é trivial do ponto de vista político. Ela atravessa mandatos, governos e ciclos econômicos. A proposta exige investimentos de longo prazo em escudos térmicos, propulsão de alta energia e eletrônica resistente à radiação, com impacto direto na indústria aeroespacial. Empresas que hoje produzem satélites e sondas para órbitas próximas podem encontrar, nesse projeto, um laboratório para tecnologias que depois migram para missões comerciais.

Ao mesmo tempo, o tempo de voo superior a 35 anos pressiona agências espaciais, que disputam orçamento com programas mais visíveis, como missões à Lua e a Marte. Missões com duração inferior a três décadas são consideradas impraticáveis para essa rota, segundo o estudo. Isso significa que equipes que desenham a missão hoje não estarão no controle da sonda quando ela finalmente se aproximar do cometa. “É uma aposta deliberada na continuidade científica”, afirma outro pesquisador envolvido na proposta.

O que vem depois do 3I/ATLAS

O interesse por objetos interestelares cresce desde que ‘Oumuamua passou pelo Sistema Solar sem qualquer nave por perto para estudá-lo de perto. O 2I/Borisov, dois anos depois, reforçou a percepção de que esses visitantes não são tão raros quanto se imaginava. A missão ao 3I/ATLAS surge como tentativa de não perder a próxima oportunidade. Ela também estabelece um padrão para futuras expedições a corpos que entram e saem rapidamente da vizinhança solar.

Até 2035, pesquisadores precisam transformar o conceito em projeto aprovado, com orçamento definido, parceiros internacionais e cronograma de construção. O cometa não espera decisões terrenas. Se a missão decolar, abre caminho para uma era em que sondas humanas perseguem viajantes de outras estrelas com regularidade. Se ficar no papel, permanece a pergunta que mobiliza astrônomos há décadas: quantos segredos do espaço profundo seguimos deixando passar diante dos nossos olhos?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *