Missão Crew-12 decola para repor equipe da ISS após evacuação inédita
A Nasa lança na manhã de 11 de fevereiro de 2026 a missão Crew-12, com quatro astronautas, para repor às pressas a equipe da Estação Espacial Internacional após uma evacuação médica inédita. A bordo de um foguete Falcon 9, o voo marca o primeiro retorno à rotina da plataforma orbital desde o incidente que antecipou em um mês a volta da tripulação anterior.
Pressão após primeira evacuação médica da ISS
A nova tripulação deixa a Terra sob forte pressão. A Crew-12 assume a operação da estação num momento em que a continuidade de dezenas de experimentos científicos depende da presença de um grupo completo em órbita. A evacuação médica de janeiro, a primeira em mais de duas décadas de ISS, expõe a vulnerabilidade de um posto avançado que se torna peça central na disputa tecnológica e na cooperação entre potências espaciais.
A cápsula Dragon leva a astronauta americana Jessica Meir, o também americano Jack Hathaway, a francesa Sophie Adenot, da Agência Espacial Europeia, e o cosmonauta russo Andrey Fedyaev. Eles formam uma equipe multinacional que simboliza a rara área em que Estados Unidos, Europa e Rússia ainda atuam lado a lado em 2026. O lançamento está marcado para não antes das 8h01, horário de Brasília, a partir da Flórida.
A decolagem acontece poucos dias depois de a SpaceX ter mantido no solo todos os foguetes Falcon 9. Técnicos interrompem a agenda de lançamentos para investigar o que a Administração Federal de Aviação dos EUA chama de “falha de ignição do motor no segundo estágio”. O problema surge em outro voo, mas ameaça atingir o cronograma da Crew-12, que depende do mesmo modelo de foguete para alcançar a órbita baixa da Terra.
A pausa alimenta o temor de um atraso longo. Cada dia sem tripulação plena na ISS representa experimentos suspensos, coletas de dados interrompidas e manutenção adiada. A Nasa acompanha de perto a investigação e só confirma a nova data quando recebe o aval do regulador norte-americano. “O veículo Falcon 9 está autorizado a voltar a voar”, diz à AFP um porta-voz da FAA, na sexta-feira, 6 de fevereiro.
Falha investigada e corrida para evitar lacuna científica
O sinal verde encerra uma semana de incerteza. A SpaceX revê procedimentos, ajusta o segundo estágio do foguete e apresenta relatórios técnicos às autoridades. O Falcon 9, que realiza mais de 90 lançamentos por ano, volta à rotina com a missão mais sensível do calendário: levar quatro pessoas a cerca de 400 quilômetros de altitude e garantir que a ISS não fique esvaziada por mais tempo que o estritamente necessário.
A urgência se explica pela natureza do trabalho em curso na estação. A ISS abriga pesquisas em microgravidade sobre materiais, medicamentos, agricultura, comportamento de fluidos e impacto de longas estadias no corpo humano. Experimentos dependem de ciclos contínuos, alguns medidos em semanas, outros em meses. Qualquer interrupção quebra séries de dados e pode desperdiçar anos de preparação.
A evacuação da Crew-11, em janeiro, encerra a permanência da equipe cerca de 30 dias antes do planejado. A Nasa descreve o episódio como a primeira evacuação médica da história da plataforma, mas preserva detalhes médicos em respeito à privacidade dos astronautas. A manobra exige replanejar o retorno, antecipar a descida para a Terra e redesenhar tarefas de rotina na estação, que passa a operar em regime de contingência.
A Crew-12 entra em cena para fechar essa lacuna. O grupo assume experimentos suspensos, retoma procedimentos de manutenção e reforça a presença humana contínua, mantida desde 2000. Na prática, o sucesso do voo ajuda a preservar contratos com universidades, empresas farmacêuticas e agências espaciais que contam com a ISS como laboratório em órbita. O fracasso, ainda que improvável diante do histórico do Falcon 9, abriria espaço para críticas à dependência de um único fornecedor privado para o acesso americano à estação.
Cooperação em teste e próximos passos em órbita
O embarque conjunto de americanos, europeia e russo também funciona como termômetro político. Em meio a tensões diplomáticas, Nasa, ESA e Roscosmos mantêm a ISS como projeto compartilhado, com financiamento e responsabilidades divididos até, pelo menos, o fim desta década. A Crew-12 reforça esse arranjo: energia, suporte de vida, carga científica e rotinas de acoplamento continuam a depender de sistemas espalhados por módulos construídos em diferentes países.
O desempenho do Falcon 9 após a falha recente interessa não só à Nasa, mas a todo o mercado de lançamentos comerciais. Cada missão tripulada bem-sucedida consolida o papel da SpaceX no transporte humano ao espaço e amplia a pressão sobre concorrentes que tentam entrar nesse segmento. A investigação da falha de ignição, por outro lado, serve de lembrete de que a margem de erro em voos com pessoas permanece mínima, mesmo com centenas de lançamentos acumulados.
Nas próximas semanas, a Crew-12 deve concluir a transição de comando na ISS, estabilizar o calendário científico e preparar a chegada de novas cargas e naves de reabastecimento. A Nasa projeta o retorno da missão para o fim de 2026, em uma janela de pouco mais de seis meses em órbita, tempo suficiente para completar experimentos atrasados e testar tecnologias que interessam a futuras viagens à Lua e a Marte.
A plataforma, porém, vive contagem regressiva. Parceiros discutem há anos o destino da ISS após 2030, quando a estação pode ser aposentada e substituída por módulos privados ou por uma nova geração de laboratórios nacionais. A rapidez com que a Crew-12 tenta fechar o buraco deixado pela evacuação médica indica o tamanho da aposta na presença contínua em órbita. A missão ajuda a responder a uma pergunta que permanece em aberto: até quando o mundo estará disposto a manter, em cooperação, um posto avançado humano ao redor da Terra.
