Ciencia e Tecnologia

Missão Artemis II leva humanos de volta à órbita da Lua em 2026

A Nasa se prepara para enviar quatro astronautas à órbita da Lua entre 6 e 11 de fevereiro de 2026, na missão Artemis II. O voo de cerca de dez dias não prevê pouso, mas serve como teste decisivo da cápsula Orion antes do retorno de humanos à superfície lunar.

Uma volta à Lua meio século depois

No Centro Espacial Kennedy, na Flórida, o foguete Space Launch System (SLS) e a cápsula Orion deixam o edifício de montagem e seguem para a plataforma 39B. O deslocamento marca o início da reta final para o primeiro voo tripulado do programa Artemis, que recoloca humanos na vizinhança da Lua quase 54 anos após a Apollo 17, em 1972.

A missão tem janelas de lançamento previstas para 6, 7, 8, 10 e 11 de fevereiro de 2026. A bordo estarão Reid Wiseman, comandante, Victor Glover, piloto, e Christina Koch, especialista de missão, todos da Nasa, além do canadense Jeremy Hansen, da Agência Espacial Canadense. É a primeira vez que um astronauta não americano participa de um voo rumo à região lunar.

A Artemis II nasce com um objetivo claro: testar em ambiente real a Orion, nave projetada para operar em espaço profundo, muito além da órbita baixa da Terra onde circulam a Estação Espacial Internacional e a maioria dos satélites. A Nasa quer comprovar, com gente a bordo, que os sistemas de propulsão, navegação, comunicação e suporte à vida funcionam como desenhado para missões mais longas.

Em comunicado oficial, a agência descreve a tarefa dos quatro tripulantes como uma espécie de exame de resistência da Orion. “Os astronautas em seu primeiro voo a bordo da espaçonave Orion da Nasa confirmarão que todos os sistemas da espaçonave operam conforme projetado, com a tripulação a bordo no ambiente real do espaço profundo”, afirma a nota.

Por que a missão não pousa na Lua

A expectativa popular costuma se fixar em bandeiras fincadas e pegadas no solo lunar. A Artemis II, porém, não leva módulo de pouso. O foco é outro: reduzir riscos, validar tecnologia e treinar a tripulação em voo real. Segundo a Nasa, o caminho até uma caminhada na Lua passa por etapas graduais.

Patty Casas Horn, vice-líder de Análise de Missões e Avaliações Integradas da agência, resume essa estratégia em entrevista à CNN. “A resposta curta é porque não tem capacidade para isso. Não se trata de um módulo de pouso lunar”, diz. A Orion foi desenhada para transportar pessoas até a órbita lunar e trazê-las de volta, não para descer à superfície.

Horn enfatiza que esse desenho segue uma lógica construída ao longo de décadas. “Ao longo da história da Nasa, tudo o que fazemos envolve um certo risco, e por isso queremos garantir que esse risco faça sentido e aceitar apenas o risco necessário, dentro de limites razoáveis”, afirma. A aposta é testar um conjunto de capacidades, consolidá-las e só então avançar para operações mais ousadas.

“Desenvolvemos uma capacidade, testamos, desenvolvemos outra capacidade e testamos novamente. E chegaremos a pousar na Lua, mas o programa Artemis II é realmente sobre a tripulação”, diz Horn. Na prática, isso significa checar se os sistemas de suporte à vida conseguem manter quatro pessoas em segurança durante cerca de dez dias e se a cápsula responde bem a manobras críticas, como correções de rota e preparativos para reentrada.

Depois da decolagem na Flórida, a Orion e o estágio superior do SLS completam dois giros ao redor da Terra ainda próximos de casa. Esse trecho serve para validar, em tempo real, o desempenho da nave, antes da decisão irreversível de seguir em direção à Lua. Só após essa sequência de checagens, a missão entra na fase de espaço profundo.

Voo de retorno livre e impacto do programa Artemis

Confirmados os sistemas, a Orion ingressa em uma trajetória chamada de retorno livre. Nesse tipo de rota, a nave usa o campo gravitacional combinado da Terra e da Lua para desenhar uma grande curva ao redor do satélite e voltar sozinha para casa, sem depender de uma longa queima de motores para o retorno. A Nasa explica que o perfil de voo reduz o consumo de combustível e aumenta a confiabilidade da viagem.

A tripulação viaja aproximadamente 7.562 quilômetros além do lado oculto da Lua, região invisível a olho nu da Terra. Nessa faixa, a cápsula se afasta mais do que qualquer voo tripulado desde o fim do programa Apollo. A distância reforça o caráter de teste em “espaço profundo”, onde a comunicação sofre atrasos maiores e a exposição à radiação cósmica impõe novas exigências aos sistemas de proteção.

O impacto da Artemis II vai além do simbolismo de voltar à vizinhança lunar. A missão funciona como ensaio geral para a Artemis III, prevista para levar novamente astronautas à superfície da Lua, e para fases seguintes, que incluem a construção de uma estação em órbita lunar e, a longo prazo, o apoio a viagens rumo a Marte. Cada sensor validado na Orion e cada procedimento treinado em voo entram como peça de um quebra-cabeça de exploração de décadas.

A presença de um canadense na tripulação sinaliza também o caráter internacional do programa. Parcerias com agências como a canadense e a europeia ajudam a dividir custos, aproximam centros de pesquisa e abrem espaço para experimentos científicos de vários países. A tecnologia desenvolvida para sobreviver em ambiente hostil, como sistemas avançados de reciclagem de ar e água, pode gerar aplicações na Terra em áreas como energia, monitoramento ambiental e saúde.

O retorno da humanidade à órbita lunar traz ainda um componente de disputa geopolítica. Estados Unidos, China e outras potências colocam em seus planos a exploração de recursos na Lua e no espaço cislunar, região entre o planeta e seu satélite. A capacidade de manter astronautas com segurança tão longe da Terra pesa na balança de influência e na definição de regras futuras para uso desse território.

O que vem depois da volta à Lua

Se tudo corre dentro do planejado, a Artemis II pousa de volta na Terra cerca de dez dias após a decolagem, com amaragem da cápsula Orion no oceano. A partir daí, uma nova temporada de análises começa. Engenheiros esmiúçam dados de temperatura, vibração, desempenho elétrico e resposta dos sistemas de bordo. Médicos e cientistas avaliam como o corpo dos astronautas reage a essa nova combinação de duração, distância e exposição à radiação.

Esses resultados alimentam ajustes para a Artemis III, missão que pretende levar uma nova dupla de astronautas à superfície lunar ainda nesta década, incluindo, segundo a Nasa, a primeira mulher e a primeira pessoa negra a caminhar na Lua. O sucesso da Artemis II é o divisor de águas que separa o atual retorno à órbita das tentativas concretas de reinstalar uma presença humana duradoura no satélite.

O cronograma oficial ainda pode sofrer atrasos, como costuma acontecer em projetos espaciais de grande porte, mas a movimentação do SLS e da Orion rumo à plataforma 39B mostra que a contagem regressiva entrou em uma fase irreversível. A próxima vez em que as imagens da Lua ocuparem a janela de uma nave tripulada, a resposta sobre quanto tempo levará até um novo passo no solo lunar estará mais próxima — e dependerá diretamente do que acontecer nesse voo de teste.

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