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Minas investe R$ 45 milhões em anel viário em São João del-Rei

O governo de Minas anuncia nesta sexta-feira (20/2/2026) investimento inicial de R$ 45 milhões na construção de um anel viário em São João del-Rei, ligando as rodovias BR-265 e MG-383. A obra mira a retirada do tráfego pesado do centro histórico, a preservação do patrimônio e a atração de novos investimentos para o Campo das Vertentes.

Cidade histórica tenta virar página do tráfego pesado

O anúncio ocorre em cerimônia na cidade com o vice-governador Mateus Simões (PSD), o deputado federal Nikolas Ferreira (PL) e o prefeito Aurélio Suenes (PL). A promessa é atacar um problema sentido há anos pelos moradores: carretas cruzam bairros residenciais e o centro urbano para fazer o trajeto mais curto entre as duas rodovias federais e estaduais.

O projeto prevê cerca de 10 quilômetros de nova via, formando um arco fora da área mais adensada de São João del-Rei. O anel viário ainda está em fase de projeto executivo, contratado pela prefeitura por cerca de R$ 400 mil. A estimativa preliminar aponta custo total acima de R$ 100 milhões, a ser bancado em etapas pelo Estado e pelo município.

A operação de caminhões pesados no miolo urbano já cobra um preço alto. Ruas estreitas e tombadas convivem com ruído constante, vibração e fumaça. O prefeito lembra que o trânsito intenso trouxe não só desgaste ao asfalto como tragédias. “Tivemos recentemente um óbito deste trânsito. Para a gente era um sonho, na verdade. Um sonho difícil de realizar, porque pra fazer uma obra ousada dessa, com dez quilômetros de rodovia, precisa de recursos financeiros”, afirma Suenes.

O vice-governador sustenta que o aporte estadual é o empurrão para tirar a obra do papel. Segundo Simões, os R$ 45 milhões serão liberados em duas fases: R$ 30 milhões para a primeira etapa e R$ 15 milhões para as chamadas obras de arte especiais, como pontes e viadutos. A formalização depende da conclusão do projeto e da assinatura de convênio entre prefeitura e governo mineiro.

Impacto na mobilidade, no patrimônio e na economia local

O desvio do tráfego pesado promete alterar a rotina do centro histórico, onde casarões coloniais e igrejas barrocas dividem espaço com ônibus e carretas. “Essas carretas causam um problema sério no asfalto e no trânsito, e degradam o patrimônio histórico de São João del-Rei. Nós estamos falando de melhora logística, de atração de investimento, mas estamos falando também de uma recuperação da capacidade de atração turística da cidade”, diz Mateus Simões.

A retirada dos caminhões do coração da cidade reduz ruído, poluição do ar e risco de acidentes em ruas residenciais. A mudança tende a favorecer o comércio local e o turismo, hoje pressionados pela dificuldade de circulação de pedestres e veículos menores. A expectativa da prefeitura é que novos empreendimentos logísticos e industriais se instalem próximos ao futuro anel viário, aproveitando a conexão direta entre BR-265 e MG-383.

O deputado Nikolas Ferreira, que leva a demanda do município ao Executivo estadual, tenta capitalizar politicamente o investimento. “O mais importante do mandato é representar as pessoas, dar voz a elas. Não adianta nada os deputados investirem talvez dinheiro, sendo que não são fiéis a seus princípios e valores, e não te representam. Se só emenda resolvesse os problemas, o Brasil era Dubai, era Tóquio, porque o que não falta nesse país é dinheiro”, afirma.

Dados do Portal da Transparência da Controladoria-Geral da União mostram que Nikolas destinou, no fim de 2025, R$ 888 mil em emendas parlamentares para São João del-Rei, divididos entre o Fundo Municipal de Saúde e a prefeitura. Embora o anel viário use recursos do caixa estadual, o deputado busca se firmar como intermediário das demandas regionais.

A agenda em São João del-Rei integra uma série de viagens conjuntas de Nikolas e do vice-governador pelo interior de Minas. Na véspera, eles participam de anúncios em Juiz de Fora e Ponte Nova, ambos na Zona da Mata. A circulação reforça a tentativa de alinhamento do campo da direita em torno de Simões, hoje pré-candidato ao governo estadual, em disputa com o senador Cleitinho (Republicanos) pela liderança desse eleitorado.

Obras sem prazo, disputa política em andamento

Apesar do entusiasmo no palanque, o anel viário ainda não tem cronograma definido. O prefeito evita se comprometer com prazo de entrega e fala apenas em obra longa. “Imaginamos que a obra vai levar um bom tempo para ser concluída”, afirma. O desenho financeiro também segue em construção, com a previsão de que a prefeitura complemente o aporte estadual ao longo da execução.

Além da nova rodovia, Mateus Simões anuncia que o governo estadual pretende assinar, até o fim do ano, novo convênio para reformar todos os postos de saúde municipais “em que for necessário”. A promessa reforça o pacote de investimentos na cidade, que soma infraestrutura viária e atenção básica em saúde em um mesmo roteiro político.

O vice-governador usa o encontro para reiterar críticas ao Tribunal de Justiça de Minas Gerais, que suspende o programa de escolas cívico-militares do governo Romeu Zema. Diante de uma plateia simpática, ele acusa o Judiciário de interferir em escolhas das famílias. “Uma interferência que decorre da falta de juízo dos juízes do Supremo Tribunal, que vem contaminando as esferas mais baixas, ao ponto de um desembargador, de um juiz, de um conselheiro do Tribunal de Contas acreditar que pode decidir aonde que o seu filho vai estudar”, declara.

O discurso expõe o pano de fundo eleitoral do evento. A aproximação entre Simões e Nikolas ocorre em meio às indefinições da direita sobre 2026 em Minas. O deputado já é tratado como puxador de votos do PL para a Câmara, depois de receber 1,47 milhão de votos em 2022, terceira maior votação da história, enquanto o vice-governador tenta se consolidar como nome viável ao Palácio Tiradentes.

O anel viário entra nesse tabuleiro como obra símbolo de um projeto de desenvolvimento regional: promete aliviar o dia a dia de quem vive e trabalha em São João del-Rei, proteger um patrimônio que sustenta a vocação turística da cidade e abrir espaço para novos negócios às margens das rodovias. Fica em aberto se o dinheiro empenhado e a coordenação entre Estado e município serão suficientes para que os 10 quilômetros saiam do papel no ritmo que a população espera.

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