Milei culpa guerras e juros dos EUA pela piora da economia e alta da pobreza argentina
Presidente argentino admite crescimento abaixo do esperado, mas defende seu programa econômico; pobreza atinge 32,3% e risco-país supera 700 pontos.

O presidente da Argentina, Javier Milei, atribuiu à conjuntura internacional parte das dificuldades enfrentadas pela economia argentina. Em entrevista à Rádio Rivadavia, na quinta-feira (22), o líder reconheceu que o país cresce menos do que o esperado, enfrenta redução da demanda e registra uma desaceleração da inflação mais lenta do que a prevista pelo governo.
Entre os fatores apontados pelo presidente estão os juros elevados nos Estados Unidos e os efeitos das guerras na Ucrânia e no Oriente Médio. As declarações ocorreram em meio à deterioração de indicadores econômicos, com o risco-país argentino acima dos 700 pontos e a pobreza atingindo 32,3% da população pesquisada no primeiro semestre de 2026.
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Milei aponta fatores internacionais para explicar dificuldades econômicas
Ao comentar o desempenho da economia, Milei argumentou que as condições financeiras internacionais têm prejudicado países emergentes, incluindo a Argentina. Segundo ele, a política de juros dos Estados Unidos e os conflitos internacionais afetam o fluxo de investimentos e aumentam a pressão sobre os mercados.
O presidente reconheceu os resultados abaixo das expectativas, mas sustentou que a situação seria ainda mais difícil sem as reformas implementadas desde o início de sua administração, em dezembro de 2023.
O governo argentino mantém uma estratégia econômica baseada na redução dos gastos públicos, no equilíbrio fiscal e em reformas destinadas a ampliar a participação do setor privado.
Risco-país supera 700 pontos e preocupa investidores
Um dos indicadores que refletem as dificuldades recentes é o risco-país argentino, que ultrapassou 700 pontos. O índice é utilizado pelo mercado financeiro para avaliar a percepção de risco associada aos títulos de dívida de um país.
Quanto maior o risco-país, maior tende a ser a remuneração exigida pelos investidores para financiar o governo. Isso pode dificultar o acesso a recursos internacionais e elevar os custos de financiamento.
A combinação entre juros internacionais elevados, incertezas econômicas e dificuldades internas amplia os desafios enfrentados pela administração Milei para recuperar a confiança do mercado.
Pobreza chega a 32,3% da população pesquisada
Os problemas econômicos também aparecem nos indicadores sociais. Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina (Indec), a taxa de pobreza alcançou 32,3% no primeiro semestre de 2026, ante 28,2% no segundo semestre de 2025.
O levantamento, realizado em 31 aglomerados urbanos, corresponde a aproximadamente 9,7 milhões de pessoas em situação de pobreza dentro do universo pesquisado.
A indigência, condição em que a renda não é suficiente para cobrir uma cesta básica de alimentos, atingiu 7,5%. Entre crianças e adolescentes de até 14 anos, a pobreza chegou a 44,5%.
Apesar da alta recente, o percentual de pobreza permanece abaixo do pico de 52,9% registrado no primeiro semestre de 2024. Os dados mostram, porém, que a trajetória de redução observada anteriormente foi interrompida.
Economia argentina registra retração e risco de recessão aumenta
Além dos indicadores sociais, a atividade econômica também apresenta sinais de enfraquecimento. Dados oficiais divulgados nesta semana mostram que a economia argentina recuou aproximadamente 1,7% em agosto de 2026, na comparação com o mesmo mês do ano anterior.
O resultado marcou o segundo mês consecutivo de queda anual. Setores como indústria, comércio e construção estão entre os que apresentaram desempenho negativo.
Na comparação com julho, entretanto, houve crescimento de 0,1%, resultado destacado pelo governo como sinal de estabilização.
A sequência de indicadores negativos aumenta as preocupações com a possibilidade de recessão técnica, caracterizada por dois trimestres consecutivos de retração do Produto Interno Bruto (PIB) na comparação com os trimestres imediatamente anteriores.
Presidente defende reformas e associa continuidade à reeleição
Mesmo diante dos números desfavoráveis, Javier Milei reafirmou sua confiança no programa econômico do governo e argumentou que os resultados das reformas precisam ser avaliados em um horizonte mais longo.
O presidente também vinculou a continuidade de sua agenda à possibilidade de conquistar um novo mandato, apresentando a reeleição como uma forma de confirmar o apoio popular às mudanças implementadas.
Durante a entrevista, Milei voltou a criticar adversários políticos e rejeitou a ideia de que os problemas estruturais da economia argentina poderiam ser solucionados em pouco tempo.
O desafio do governo será conciliar a redução da inflação e o equilíbrio das contas públicas com a retomada da atividade econômica, a geração de empregos e a recuperação do poder de compra das famílias.
