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Mercosul e União Europeia zeram tarifa para 5 mil produtos

O governo Lula anuncia nesta segunda-feira (18) a implementação de tarifa zero para cerca de 5 mil produtos no comércio entre Mercosul e União Europeia. O acordo elimina impostos e reduz tarifas, com objetivo de ampliar exportações, gerar empregos e atrair novos investimentos para o Brasil.

Acordo muda patamar das relações entre os blocos

A medida entra em vigor para todos os países do Mercosul, incluindo Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, e vale para os 27 membros da União Europeia. A decisão é apresentada em Brasília como um marco na estratégia de recolocar o Brasil no centro do comércio global e reduzir a dependência de mercados tradicionais, como China e Estados Unidos.

No governo, auxiliares de Lula descrevem o acordo como a principal vitória da política externa econômica desde o início do terceiro mandato. A expectativa é de impacto direto sobre o Produto Interno Bruto já a partir de 2027, com aumento gradual da corrente de comércio. Técnicos que participam das negociações falam em “janela histórica” para produtos industriais, agrícolas e de tecnologia.

A tarifa zero cobre cerca de 5 mil itens, em um cronograma escalonado por setores, mas com redução imediata para uma parcela relevante da pauta de exportações. A lista inclui desde alimentos processados, máquinas e autopeças até produtos químicos, têxteis, calçados e equipamentos de alta tecnologia. Em paralelo, o acordo prevê redução adicional de tarifas para outros grupos de produtos, em prazos que variam de 5 a 15 anos.

No Palácio do Planalto, a avaliação é que o Brasil ganha previsibilidade de longo prazo para exportadores e investidores. “O país volta a jogar na primeira divisão do comércio internacional”, diz um negociador brasileiro envolvido nas tratativas com Bruxelas. Ele afirma que o acordo combina abertura de mercado com exigências ambientais e tecnológicas que devem mexer com a estrutura produtiva nacional.

Benefícios, riscos e adaptação da economia brasileira

Na prática, a tarifa zero derruba uma barreira que encarecia produtos brasileiros na Europa e tornava o mercado europeu menos competitivo no Mercosul. Ao eliminar impostos de importação em milhares de itens, o acordo tende a reduzir custos, ampliar o fluxo de mercadorias e pressionar empresas locais a ganhar produtividade. O governo aposta em aumento das exportações de manufaturados, área em que o Brasil perde espaço há ao menos duas décadas.

O agronegócio mira maior acesso ao mercado europeu para carnes, grãos e produtos industrializados de origem agrícola. A indústria, por sua vez, enxerga oportunidade, mas também risco. Setores menos competitivos temem uma enxurrada de importados com preços mais baixos. Para contornar a resistência, o desenho do acordo prevê prazos de adaptação, salvaguardas e linhas específicas de financiamento público para modernização das plantas produtivas.

No discurso oficial, Lula apresenta a ofensiva comercial como parte de uma estratégia de desenvolvimento com geração de emprego e renda. A equipe econômica fala em impacto relevante sobre o PIB, com potencial de adicionar pontos percentuais ao crescimento médio na próxima década, à medida que exportações e investimentos reagem ao novo cenário. Não há, por ora, número fechado divulgado, mas o Ministério da Fazenda trabalha com cenários de expansão expressiva da corrente de comércio com a Europa.

Além da abertura de mercado, o acordo traz um conjunto de protocolos de sustentabilidade e inovação. Empresas brasileiras que quiserem aproveitar o novo ambiente terão de se adaptar a padrões mais rígidos de rastreabilidade ambiental, redução de emissões e uso eficiente de recursos naturais. O texto também estimula a adoção de tecnologias digitais na indústria, com foco em automação, logística avançada e integração de cadeias globais de valor.

Especialistas em comércio exterior ouvidos pela reportagem veem a implementação como ponto de inflexão, mas chamam atenção para os desafios internos. O Brasil ainda convive com infraestrutura deficiente, carga tributária complexa e burocracia pesada na alfândega. Sem reformas e investimento contínuo em portos, rodovias e ferrovias, parte do ganho potencial pode se perder em custos logísticos.

Para o trabalhador, os efeitos aparecem em dois movimentos. A médio prazo, o governo projeta criação de vagas em setores exportadores e em serviços conectados ao comércio exterior. Ao mesmo tempo, empresas que enfrentarem maior concorrência podem cortar custos e repensar quadros, em especial em áreas que não conseguirem se modernizar com rapidez. A transição tende a ser desigual entre regiões e segmentos.

Próximos passos e disputas que devem surgir

A implementação da tarifa zero abre uma nova etapa de disputas internas e externas. No Congresso, parlamentares ligados à indústria tradicional e ao agronegócio devem pressionar por mecanismos adicionais de proteção e apoio. Governos estaduais também se movimentam para garantir fatias maiores de investimentos estrangeiros diretos, oferecendo incentivos e infraestrutura para atrair fábricas e centros de distribuição voltados ao mercado europeu.

Em Bruxelas e nas capitais do Mercosul, diplomatas já discutem desdobramentos do acordo em outras agendas, como cooperação em energia limpa, transição climática e regulação digital. A leitura é que a aproximação comercial tende a se traduzir em maior alinhamento político e em novas frentes de negociação, inclusive com outros blocos e países.

Os próximos anos vão testar a capacidade do Brasil de aproveitar a abertura de mercado sem aprofundar desigualdades internas. Se conseguir combinar competitividade, proteção ambiental e inclusão social, o país pode consolidar uma posição mais robusta na economia mundial. Caso contrário, a tarifa zero corre o risco de ser lembrada como oportunidade perdida em um cenário global cada vez mais disputado.

Com o acordo em vigor, a pergunta que passa a orientar empresários, trabalhadores e governo é direta: o Brasil está pronto para competir em pé de igualdade com a Europa ou ainda precisa correr para não ficar para trás?

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