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Menino resgatado volta ao povoado, mas primos seguem desaparecidos no MA

Wanderson Kauã, 8 anos, volta ao povoado de São Sebastião dos Pretos, em Bacabal (MA), neste sábado (24/1), depois de desaparecer na mata. Os primos Ágata Isabelle, 6, e Allan Michael, 4, continuam sumidos há 23 dias e são procurados por uma megaoperação na região.

Alívio em meio à angústia no interior do Maranhão

A imagem de Kauã cruzando novamente as ruas de terra do povoado resume o sentimento de São Sebastião dos Pretos. O retorno do menino devolve algum fôlego a uma comunidade que há mais de três semanas vive entre orações, vigílias e notícias fragmentadas sobre as buscas pelas duas outras crianças.

Debilitado e com episódios de confusão mental após dias na mata fechada, o menino passa por um processo cuidadoso de readaptação. Assistentes sociais e psicólogos acompanham cada passo dessa volta ao convívio familiar, iniciada neste sábado. Ele havia sido localizado quatro dias depois do desaparecimento, resgatado por equipes de segurança exaustas, mas ainda sem notícias dos primos.

A família recebe Kauã em uma casa provisória, de muros amarelos, alugada pela prefeitura de Bacabal. O imóvel fica no próprio povoado e funciona como ponto de descanso e proteção em meio ao turbilhão emocional. O prefeito Roberto Costa afirma que a residência original dos familiares será reconstruída. “Alugamos esse lar para eles terem mais conforto e comodidade nessa etapa de readaptação”, diz.

Na pequena comunidade cravada no interior maranhense, o sábado mistura festa e silêncio. Parte dos moradores solta fogos, agradece em cultos e rodas de oração. Outra parte se recolhe, ciente de que a história continua incompleta enquanto Ágata e Allan seguem sem paradeiro conhecido.

Buscas gigantescas, respostas ainda em falta

As buscas que resgatam Kauã transformam o povoado em epicentro de uma das maiores operações de procura de crianças já vistas no Maranhão. Em um único momento, até 260 policiais atuam na região, segundo a Secretaria de Segurança Pública. Somados aos reforços e voluntários, mais de mil pessoas chegam a se espalhar pela mata e pelas margens do rio Mearim.

O Exército e a Marinha se unem às forças estaduais. Cães farejadores, drones e câmeras com imagens em 3D vasculham áreas antes acessíveis apenas a moradores experientes. Embarcações cruzam rios e igarapés. Mergulhadores utilizam equipamentos capazes de fazer varreduras subaquáticas, na tentativa de eliminar cada hipótese, trecho a trecho.

O tenente-coronel João Carlos Duque, comandante do 24º Batalhão de Infantaria de Selva, detalha o alcance da força-tarefa. Segundo ele, tropas percorrem mais de 200 quilômetros a pé e em embarcações, avançando pela mata fechada, por terrenos alagados e áreas isoladas. “Fomos a pontos de difícil acesso, locais que voluntários não conseguiam acessar. Isso nos dá a garantia de que essas áreas foram varridas e, ao mesmo tempo, a esperança de que as crianças não estejam nesses locais”, afirma.

A avaliação técnica considerada pelo Exército torna o quadro ainda mais delicado. Em condições hostis, com pouca água e sem alimentação adequada, a estimativa de sobrevivência gira entre oito e doze dias. “Já ultrapassamos essa linha. O fato de não termos encontrado vestígios, pegadas ou qualquer elemento que levasse à localização das crianças nesse terreno amplia a possibilidade de que elas estejam em outro lugar”, explica Duque.

O esforço também tenta conter boatos que se espalham em redes sociais e aplicativos. A suposta aparição de Ágata e Allan em um hotel no bairro da República, no centro de São Paulo, circula com força, mas é descartada pela Polícia Civil. Nenhuma das imagens analisadas confirma a presença das crianças na capital paulista.

O secretário de Segurança Pública do Maranhão, Maurício Martins, diz que a mobilização começa no primeiro dia de desaparecimento e se amplia de forma gradual. “Chegamos a ter mais de mil homens espalhados nessa mata em busca das crianças”, relata. Segundo ele, não há registro de ferimentos graves entre os profissionais durante a operação. “Infelizmente, não localizamos as duas crianças até o momento, mas a missão continua.”

Impacto na comunidade e futuro das buscas

A vida em São Sebastião dos Pretos gira em torno da mesma pergunta há 23 dias: onde estão Ágata e Allan? O comércio reduz o movimento, famílias se organizam em revezamento para acompanhar plantões de informação e o calendário local se dobra ao ritmo da operação. O retorno de Kauã ajuda a aliviar parte da tensão, mas também expõe a dimensão do trauma coletivo.

A moradia provisória oferecida à família funciona como abrigo físico e simbólico. Representa a tentativa de reconstruir uma rotina mínima para uma casa que ainda não sabe como será o amanhã. Redes de apoio se formam na vizinhança, que se oferece para ajudar com alimentação, roupas e companhia silenciosa nos momentos mais difíceis.

Na esfera institucional, a Secretaria de Segurança Pública cria uma comissão especial para investigar o desaparecimento. O grupo reúne dois delegados da capital, São Luís, e a delegada de Bacabal. A orientação é manter buscas e investigação integradas, sem abandonar nenhuma hipótese antes de análise detalhada. “Desde o início, as buscas e a investigação caminham juntas. Mantemos o mesmo propósito e não perdemos a esperança, confiando no trabalho técnico da segurança pública”, afirma Martins.

As equipes especializadas em rastreamento do Exército ficam de prontidão. O plano prevê resposta imediata sempre que surgir uma nova pista, principalmente em áreas de difícil acesso. Drones continuam à disposição, assim como o suporte de tropas em São Luís. A Marinha mantém condições de retomar varreduras subaquáticas no Mearim caso algum dado aponte para o rio.

Uma comunidade suspensa entre gratidão e incerteza

O caso projeta São Sebastião dos Pretos para além das fronteiras de Bacabal e do Maranhão. Em grupos de mensagens, moradores registram passo a passo das buscas, compartilham recados oficiais e pedem que a história não saia do noticiário. A comoção atrai doações e voluntários, mas também exige cuidado para evitar desinformação e exploração da dor alheia.

Enquanto Kauã tenta reorganizar o próprio mundo dentro da casa de muros amarelos, a família olha para fora e espera por um próximo portão se abrindo, com Ágata e Allan de volta. As forças de segurança garantem que não encerram a missão e mantêm equipes e tecnologia de prontidão. A comunidade, que aprendeu a conviver com sirenes, helicópteros e embarcações no horizonte, se pergunta até quando será preciso viver nesse intervalo entre o alívio e a ausência.

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