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Menino que sobrevive em mata guia buscas por irmãos no Maranhão

Anderson Kauã, 6, passa a colaborar diretamente com as buscas pelos irmãos desaparecidos, Ágatha Isabelly e Allan Michael, a partir de 20 de janeiro de 2026. Refeito após alta médica, o menino indica à polícia o trajeto até uma cabana abandonada às margens do Rio Mearim, em Bacabal (MA), e redefine o foco da maior operação de busca já montada na região.

Menino volta à cena das buscas e muda o rumo da investigação

Quase duas semanas depois de ser encontrado vivo em uma área de mata, Anderson deixa o hospital e volta ao cenário que assusta o Quilombo de São Sebastião dos Pretos desde 4 de janeiro. Com apoio de uma equipe policial e técnica, ele aponta o caminho percorrido com os primos até a cabana conhecida como “casa caída”, próxima ao leito do Rio Mearim. A informação reorganiza o mapa da operação, que já mobiliza mais de 500 pessoas, entre policiais civis, bombeiros, militares da Marinha e voluntários.

A decisão de levar o menino de volta ao percurso é cercada de cuidados. A Secretaria de Segurança Pública do Maranhão informa que a ida de Anderson à área tem autorização judicial e acompanhamento psicológico permanente. Técnicos de saúde e assistência social seguem ao lado da criança, que recebe atendimento multiprofissional desde o resgate em 7 de janeiro, quando foi achado em uma área de mata no povoado Santa Rosa, a cerca de quatro quilômetros em linha reta do último ponto onde os irmãos foram vistos.

O caso começa no fim da tarde de 4 de janeiro, quando Anderson, Ágatha e Allan saem para brincar em uma área de mata no quilombo. A família estranha a demora e aciona as autoridades ainda na noite do desaparecimento. Em poucos dias, o entorno de Bacabal se transforma em campo de busca, com barcos, drones, helicóptero e cães farejadores. Em 7 de janeiro, três produtores rurais encontram Anderson debilitado, em uma carroça, e o levam para atendimento médico. A partir daí, o relato do menino se torna peça central para tentar reconstituir os passos do trio.

O ponto mais sensível do depoimento é a cabana abandonada, um velho abrigo de madeira e barro às margens do Mearim, que moradores chamam de “casa caída”. Cães farejadores indicam cheiro recente de crianças na estrutura, o que reforça a hipótese de que os irmãos tenham passado ou permanecido ali por algum tempo. A partir da indicação de Anderson, a área ganha prioridade máxima nas buscas em terra e dentro do rio.

Busca ganha foco no Rio Mearim e aumenta pressão sobre autoridades

A operação entra no 18º dia com rotina pesada de mergulhos e varreduras. Equipes especializadas utilizam equipamentos de side scan sonar, tecnologia que mapeia o fundo do rio e gera imagens mesmo em águas turvas, como as do Mearim na época de cheia. Os dados são cruzados com as referências de Anderson e com relatos de moradores para limitar uma área de interesse ao redor da “casa caída”.

O governador do Maranhão, Carlos Brandão (PSB), acompanha o caso de perto e usa as redes sociais para responder à cobrança crescente da comunidade quilombola e do interior do estado. “Os trabalhos avançam pela região e, com prioridade, pelo leito do Rio Mearim, com apoio da Marinha e de mergulhadores do Corpo de Bombeiros. Também seguimos com as investigações para dar uma resposta à família, à comunidade de São Sebastião dos Pretos, em Bacabal, e a todos que acompanham o caso”, afirma.

A investigação fica a cargo de uma comissão especial da Polícia Civil, que reúne equipes da Superintendência de Homicídios e Proteção à Pessoa, da Superintendência de Polícia Civil do Interior e da Delegacia Regional de Bacabal. Agentes ouvem familiares, vizinhos, ribeirinhos e outras testemunhas na tentativa de fechar lacunas sobre o que acontece entre o momento em que as crianças entram na mata e a separação do grupo, relatada por Anderson.

O secretário de Segurança Pública, Maurício Martins, reforça que nenhuma linha de apuração fica de fora. A principal hipótese considera que as crianças se perdem na mata e não conseguem retornar sozinhas, cenário comum em áreas de floresta densa e alagadiça como as margens do Mearim. Outras possibilidades, como envolvimento de terceiros ou acidente no rio, seguem em análise enquanto novos dados são checados. A presença de um sobrevivente, neste contexto, é vista como oportunidade rara de orientar o trabalho em campo.

Comunidade vive incerteza enquanto buscas se intensificam

A participação de Anderson nas buscas não tem apenas efeito técnico. A imagem do menino de volta ao trajeto, protegido por policiais e psicólogos, ajuda a manter viva a esperança da família e da comunidade quilombola. No povoado, escolas, associações e igrejas se organizam para apoiar parentes das crianças, que se dividem entre acompanhar as buscas e manter alguma rotina de trabalho.

Moradores relatam cansaço e medo, mas também cobram respostas rápidas. A cada dia sem notícias, cresce a desconfiança em relação à possibilidade de crime e à vulnerabilidade de crianças em áreas rurais com pouca presença do Estado. O caso expõe, de forma crua, os limites da rede de proteção à infância em comunidades afastadas, onde a fiscalização é escassa e a dependência das famílias da própria organização comunitária é maior.

Para as forças de segurança, a nova etapa da operação, com base no trajeto detalhado por Anderson, é uma corrida contra o tempo. A cheia do Mearim altera o curso da água, arrasta vestígios e dificulta o trabalho de mergulhadores e peritos. O uso de tecnologia de ponta reduz parte dessa desvantagem, mas não elimina o impacto da passagem dos dias sobre qualquer rastro físico dos irmãos.

As próximas horas e dias serão decisivas para definir o rumo da investigação. A polícia pretende esgotar todas as possibilidades na área indicada pelo menino, enquanto mantém outras frentes abertas em regiões mais afastadas. Em Bacabal e no quilombo de São Sebastião dos Pretos, a rotina já não volta ao normal até que se saiba o que aconteceu com Ágatha e Allan. A resposta que ainda não veio é também a pergunta que orienta cada mergulho, cada varredura na mata e cada depoimento colhido: onde estão as duas crianças desaparecidas do Maranhão?

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