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Menina nega ter visto agressões e polícia indica jovem por morte de cão em SC

A Polícia Civil conclui, nesta terça-feira (3), o inquérito sobre a morte do cão Orelha, na Praia Brava, em Florianópolis, e indica um adolescente por maus-tratos. A amiga que aparece ao lado dele em imagens de câmera de segurança é ouvida e tem o envolvimento descartado pelas autoridades.

Investigação afasta envolvimento de menina e confirma agressões

A Delegacia de Proteção Animal chega ao fim de um mês de apurações com duas conclusões centrais: o adolescente investigado comete ato infracional equivalente ao crime de maus-tratos, e a menina que aparece ao lado dele nas imagens não presencia as agressões contra o cão. As investigações se concentram nos 33 minutos entre 5h25min e 5h58min de 4 de janeiro de 2026, intervalo em que o jovem deixa o condomínio onde está hospedado na Praia Brava e retorna ao local.

A delegada Mardjoli Valcareggi, responsável pelo caso, afirma que a jovem presta depoimento e tem o nome limpo no inquérito. “Ela não permaneceu com o adolescente durante todo o tempo e também não presenciou qualquer agressão ao animal”, diz. O esclarecimento encerra uma onda de especulações nas redes sociais, alimentada pela divulgação de trechos de vídeos de câmeras de segurança que mostram o suspeito caminhando pela região acompanhado de uma amiga.

As imagens, até então conhecidas apenas em parte, formam hoje a espinha dorsal do inquérito concluído pela Polícia Civil. De acordo com o delegado Renan Balbino, que atua na investigação, o jovem tenta se afastar da cena do crime em seus primeiros relatos. “O adolescente não sabia que a polícia possuía as imagens dele saindo do local e disse que havia ficado dentro do condomínio. As imagens, roupas e testemunhas confirmam que ele estava na praia”, afirma.

As agressões, segundo a polícia, ocorrem por volta de 5h30min, nas areias da Praia Brava, ponto de encontro de turistas e moradores no Norte da Ilha. Orelha, cão de rua conhecido na vizinhança, aparece mais tarde agonizando na faixa de areia. No dia seguinte às agressões, em 5 de janeiro, moradores encontram o animal ferido e acionam ajuda.

Morte de Orelha expõe violência contra animais e falhas na apuração

O socorro a Orelha ocorre já em situação crítica. Derli Royer, que faz o atendimento emergencial, relata que o cão apresenta lesões graves na cabeça e no olho esquerdo, além de forte desidratação. O animal é levado a um veterinário, mas não resiste aos ferimentos. Dias depois, o laudo da Polícia Científica confirma que Orelha sofre um golpe intenso na região da cabeça, possivelmente causado por um chute ou por um objeto rígido, como um pedaço de madeira ou uma garrafa.

O documento técnico, somado às imagens e às contradições do depoimento do adolescente, sustenta o pedido de internação apresentado pela Polícia Civil ao Judiciário. A medida, prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente, é a mais severa entre as respostas possíveis para atos infracionais cometidos por menores de 18 anos. Ao longo de 30 dias de investigação, entre 4 de janeiro e 3 de fevereiro de 2026, 24 testemunhas são ouvidas, incluindo moradores, turistas e funcionários de estabelecimentos da região da Praia Brava.

O caso ganha grande repercussão em Santa Catarina e em outros estados, impulsionado pela comoção em torno da morte de um cão identificado pelo nome e pela rotina entre os moradores. Grupos de proteção animal organizam vigílias, protestos e campanhas virtuais para cobrar respostas rápidas das autoridades e punições exemplares. A pressão pública expõe o histórico de subnotificação de maus-tratos contra animais domésticos e a dificuldade de investigação em casos em que não há registro em vídeo ou testemunhas diretas.

Ao mesmo tempo, o inquérito revela falhas na fase inicial de apuração, com diferentes versões circulando antes da consolidação das provas. O número de suspeitos varia ao longo das semanas: oito adolescentes chegam a ser investigados até que a análise de imagens, cruzamento de depoimentos e perícias restrinjam a responsabilidade ao jovem agora indicado pela Polícia Civil. Para os delegados envolvidos, o caso mostra como o acesso a câmeras de segurança e a colaboração de moradores podem encurtar esse caminho, mas também amplia o risco de exposição indevida de pessoas não envolvidas.

Proteção de adolescentes e próximos passos na Justiça

Com o inquérito concluído, o processo segue para o Ministério Público e para a Vara da Infância e Juventude, que vão analisar o pedido de internação do adolescente. Não há prazo público definido para a decisão, mas, em casos com alta repercussão social, costuma haver prioridade na tramitação. A polícia enfatiza que, apesar da comoção, o procedimento precisa seguir as garantias legais previstas para menores de idade, inclusive o sigilo de identidade.

O NSC Total e as demais plataformas da NSC reforçam que não divulgam nomes, imagens ou qualquer dado que permita identificar os adolescentes envolvidos, em respeito ao artigo 143 do Estatuto da Criança e do Adolescente. A legislação proíbe menção a nome, apelido, filiação, endereço, fotografias e até iniciais de menores suspeitos da prática de ato infracional. O cuidado busca proteger o futuro desses jovens, ainda que respondam por condutas graves, e evitar julgamentos irreversíveis nas redes sociais.

Organizações de defesa dos animais veem no caso Orelha um ponto de inflexão. Para esses grupos, a combinação de investigação estruturada, laudo pericial detalhado e possível responsabilização do agressor indica um cenário em que crimes de maus-tratos deixam de ser tratados como episódios menores. A expectativa é que o processo estimule denúncias mais rápidas, pressão por câmeras em áreas públicas e capacitação de delegacias especializadas.

A morte de Orelha, porém, ainda deixa perguntas sem resposta. O que leva um adolescente a atacar um animal indefeso em plena madrugada de verão? Como escolas, famílias e o poder público podem agir para evitar que episódios de crueldade se repitam? As próximas decisões da Justiça sobre a internação do jovem vão definir o desfecho imediato do caso, mas o debate sobre violência contra animais e a responsabilidade de toda a sociedade está apenas no começo.

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